terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Jazz & Jaguars: as capas da Blue Note


Na virada dos anos 50 para os 60, o Jazz entrava em uma fase de grandes transformações e incertezas. A linguagem do bebop, inaugurada havia pouco mais de uma década por Charlie Parker e Dizzy Gillespie, dava claros sinais de esgotamento, e novas tendências pipocavam por toda parte. Com isso, a música se fragmentava em estilos tão divergentes como o modalismo de John Coltrane, o soul de Bobby Timmons, e o free jazz (ou new thing, como também era chamado) de Ornette Coleman e Cecil Taylor, para citar apenas alguns.

À parte as suas diferenças estéticas e até mesmo ideológicas, todos esses estilos conviviam harmonicamente sob o teto da Blue Note Records, pioneira entre as gravadoras especializadas em jazz. Alfred Lion, que a havia fundado em 1939 e que ainda atuava como seu presidente e produtor executivo, tinha por princípio oferecer boas condições técnicas e ampla liberdade de criação aos músicos, o que quase sempre se traduzia em ótimos resultados sob o ponto de vista artístico.

A excelência da Blue Note não se restringia à música: Lion acreditava que as capas dos discos também deveriam estar no mesmo patamar. E de fato estavam, graças à fotografia de Francis Wolff (amigo de Lion e seu sócio na Blue Note) e, principalmente, à direção de arte do designer Reid Miles, que ao longo de quinze anos produziu mais de 500 capas para a gravadora. Da mesma forma que as capas de César Villela para a gravadora brasileira Elenco são a cara da Bossa Nova, as capas de Miles para a Blue Note são a cara do Jazz instrumental daquele período.

Surpreendentemente, Reid Miles não tinha nenhuma afinidade com o Jazz - seu gosto musical pendia mais para o clássico. Não sabemos se a sua relação com os automóveis também se pautava por esse padrão de frio profissionalismo. O que é certo é que, ainda que automóveis em capas de discos fossem algo corriqueiro desde o surgimento do formato long playing, nunca eles foram mostrados de forma ao mesmo tempo tão sensual e tão adequada ao contexto como nesses trabalhos de Miles, reproduzidos a seguir.





5 comentários:

Ron Groo disse...

The Blue Note, the house of jazz.

É uma conjunção diferente: jazz and cars... Carros caem melhor com blues (Terraplane Blues é um exemplo maravilhoso) ou com o rock (Drive my car, daquela banda que era contemporânea dos Stones)e até com o Soul (Mustang Sally, mas não consigo lembrar um tema de Jazz que tenha carros no título ou na letra.

Paulo Levi disse...

Groo,

De fato não são muitos, mas existem... por exemplo, a letra de Gee Baby, Ain't I Good to You fala em Cadillacs, Mercedes-Benz e até em um não-identificado Mark Seven car, provavelmente um Jaguar. E a letra de They All Laughed (música de George Gershwin) diz que "Ford and his Lizzie/kept their laughter fizzy". Por coincidência, esses dois temas foram gravados por Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, e lançados no mesmo disco (também disponível em CD), "Ella and Louis Again".

Mauricio Morais disse...

Cultura, cultura, cultura, isso tudo é bom demais.

Mário César Buzian disse...

Sensacional !!
Eu tenho alguns desses títulos em vinil...

Paulo Levi disse...

Obrigado Maurício, obrigado Mário!

Uma das coisas mais bacanas do vinil eram essas capas "de verdade". Ainda que os mesmos layouts estejam reproduzidos nas capas de CDs e em programas de arquivamento digital como o iTunes, não é a mesma coisa.