quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

And the winner is... Hyundai!

Fazendo um balanço do mercado automobilístico brasileiro em 2010, uma das conclusões a que se chega é que a Hyundai foi uma das grandes vencedoras do ano. E de todos os modelos da marca coreana, nenhum brilhou mais do que o i30.

Não que o i30 seja um fenômeno. É um automóvel honesto, bem equipado, com um acabamento acima da média e um estilo que sugere esportividade, mas definitivamente não é o anti-BMW que a propaganda da Hyundai gostaria de fazer crer. Se ele é um vencedor, não é pelos prêmios ganhos em concursos de popularidade organizados por publicações especializadas, nem pelos atestados concedidos por obscuras consultorias com critérios mais obscuros ainda. O i30 venceu na frieza numérica do ranking da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) compilado a partir dos dados do RENAVAM ((Registro Nacional de Veículos Automotores), fonte oficial sobre os emplacamentos de veículos no país. Vitória limpa, portanto, sem margem para contestação ou para interpretações subjetivas.


A vitória do i30 se deu em um segmento que andava meio esquecido, o dos hatches médios. Enquanto as marcas mais estabelecidas se engalfinhavam por uma fatia de mercado em outros segmentos, como o dos chamados carros de entrada e o dos sedãs médios (para não falar em SUVs e crossovers), as vendas dos hatches médios vinham em uma espiral declinante desde 2000. Os lançamentos do Citroën C4 e do novo Ford Focus, em 2008, ajudaram a frear a queda, mas não a ponto de ameaçar o domínio do Chevrolet Astra e do VW Golf, modelos com várias gerações de defasagem em relação aos comercializados pelos seus respectivos fabricantes na Europa. O grande mérito da Hyundai foi ter identificado uma oportunidade onde os rivais aparentemente acreditavam que não valesse à pena investir, passando rapidamente do diagnóstico à ação.

Com o produto certo e a Blitzkrieg publicitária que já se tornou parte de seu modus operandi, a Hyundai  ocupou todos os espaços a que tinha direito e fechou o ano de 2010 como lider entre os hatches médios, desbancando concorrentes com muito mais tradição no mercado. Merece destaque o fato de ter alcançado essa posição mesmo sem dispor de um motor bicombustível, e mesmo contando com uma estrutura de distribuição inferior à dos concorrentes em cobertura geográfica e número de concessionárias. É um resultado excepcional, ainda mais quando se considera que o i30 não tem a seu favor os benefícios fiscais dos automóveis produzidos no Mercosul ou no México, nem daqueles importados em regime de drawback.

Quanto aos concorrentes do i30 no segmento, exceção feita ao segundo colocado Fiat Punto (que a rigor nem deveria fazer parte de um ranking de hatches médios em função do seu porte) e ao Ford Focus, em quarto lugar mas em nítida evolução - seus resultados em 2010 só podem ser classificados como medíocres.

Apesar de uma política de preços agressiva, a GM só conseguiu se agarrar ao terceiro lugar com o Astra graças às vendas para pessoas jurídicas e às constantes promoções de preço. A Volkswagen ficou em quinto lugar com o Golf, bastante distanciado dos quatro primeiros. E o verdadeiro representante da Fiat no segmento em 2010, o Stilo, só conseguiu chegar à frente do Nissan Tiida e de modelos de nicho como o VW New Beetle e o Chrysler PT Cruiser.

Golf e Astra brasileiros: para eles, ainda é 1998
Com essa performance, o Hyundai i30 praticamente fez renascer o segmento dos hatches médios. Ficou claro que se as vendas patinavam, não era por um problema de falta de interesse dos consumidores por esse estilo de carroceria, mas sim pela baixa atratividade dos modelos obsoletos, somada à falta de um marketing mais assertivo para os lançamentos mais recentes.

Hoje os fabricantes já encaram o segmento de uma forma diferente, e parecem ter entendido que quem insistir em disputar mercado com modelos surgidos há dez anos ou mais (casos do Astra e do Golf, além do recém-descontinuado Stilo) irá se dar mal. O primeiro sinal de reação veio precisamente da Fiat, que começa a vender o novo Bravo no mercado brasileiro. Se bem que o adjetivo novo, no caso do Bravo, talvez não seja dos mais apropriados já que esse modelo, baseado na plataforma do velho Stilo, já vem sendo vendido na Europa desde 2007.

Fiat Bravo, sucessor do Stilo entre os hatches médios
Seja como for, o segmento dos hatches médios já não é mais o mesmo depois da chacoalhada que levou da Hyundai em 2010. Ele promete ser um dos mais dinâmicos do mercado em 2011, e será interessante acompanhar as movimentações dos players atuais e de novos entrantes atraídos pelo seu potencial recém redescoberto. Portanto, não é só a Hyundai que saiu vencedora - os consumidores brasileiros também.

Imagem thumbnail: Olena Pivnenko/Shuterstock; outras imagens: divulgação.

5 comentários:

Ron Groo disse...

Se não me engano, já faz alguns anos que a montadora vem crescendo a olhos vistos. É ótimo. Quanto mais gente trabalhando sério e duro, mais concorrência.
Os consumidores agradecem.

Francisco J.Pellegrino disse...

Ano passado em fevereiro fui ver este I30, gostei do carro e queria cambio manual; não tinham e demoraria no minimo de 60 a 90 dias, optei pelo Focus Hatch Ghia 2009 (não é flex), com preço mais convidativo, cambio ainda francês manual e aquele monte de opcionais que os ex-proprietários de New Civic como eu sonhavam...gosto dos carros coreanos..apenas sinto receio é na hora da manutenção.

Joel Gayeski disse...

O único porém da Hyundai é a publicidade exageradamente exagerada. De resto, a coreana vem com cada vez mais força.

Paulo Levi disse...

Groo e Joel,

Recorrendo a uma metáfora futebolística, eu diria que a Hyundai lança mão de todos os meios para ganhar o jogo. Mas também parece receber uma forcinha das "equipes adversárias", como nesse caso dos hatches médios.

Paulo Levi disse...

Francisco, acho que nós os apreciadores de câmbios manuais estamos cada vez mais em minoria... mas também acho que você acabou se dando bem nesse seu processo de escolha.