segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Uma espiada na garagem de Nubar Gulbenkian

Os bolsistas, ex-bolsistas e demais beneficiários da Fundação Gulbenkian, prestigiosa instituição de apoio às ciências e humanidades com sede em Lisboa, têm uma dívida de gratidão para com o cavalheiro dessa foto, Nubar Gulbenkian (1896 - 1972).


Não, Nubar não criou a Fundação Gulbenkian. Quem fez isso foi o pai dele, Calouste Gulbenkian. Nascido em Istambul mas de origem armênia, Calouste estabeleceu-se em Londres e tornou-se multimilionário intermediando contratos de exploração de petróleo no Oriente Médio. Nubar, seu único filho varão, trabalhava sem remuneração na empresa da família.

Certo dia, não querendo deixar o escritório na hora do almoço, Nubar encomendou um prato de frango ao molho de estragão e mandou a conta ao setor administrativo. Calouste achou aquilo um despropósito e vetou o reembolso. Nubar foi tirar satisfações. Seguiu-se uma ríspida altercação em que Nubar pediu as contas, não sem antes dizer ao pai onde deveria enfiar os seus bilhões.

Enfurecido, Calouste cortou relações com o filho e instruiu seus advogados para que o excluissem de seu testamento, reservando a parte que lhe caberia a iniciativas de cunho cultural e social. De onde se conclui que, não fossem Nubar Gulbenkian e seu frango ao molho de estragão, a Fundação Calouste Gulbenkian não existiria.

Mas voltando ao desentendimento entre pai e filho, a coisa não ficou só por aí: Nubar moveu uma ação trabalhista contra Calouste, numa constrangedora lavação de roupa suja que acabou em acordo extrajudicial. Recebeu uma gorda indenização, mas nem precisava: com a mesma aptidão do pai para os negócios com petróleo, em pouco tempo estava ganhando rios de dinheiro.

Diferentemente do circunspecto Calouste, Nubar era um bon vivant - ou, para usar a terminologia da época, um playboy internacional. E como todo bom representante dessa fauna, suas prioridades eram a alta gastronomia, as belas mulheres e os carros velozes e luxuosos - não necessáriamente nessa ordem.

Com os recursos de que dispunha, podia ter o carro (ou melhor, os carros) que quisesse. Claro que não poderiam ser os Rolls Royces, Bentleys e Daimlers que qualquer um poderia comprar nas concessionárias dessas marcas. Nubar queria algo exclusivo, um carro que fosse uma expressão de sua individualidade e do ideal de beleza automotiva que tinha em mente.

Para realizar seus desejos, contratou a tradicional encarroçadora Hooper and Company, fornecedora oficial da nobreza e da realeza britânicas. A Hooper ficou um tanto apreensiva diante das exigências de Nubar, mas como os negócios não andavam lá essas coisas achou melhor curvar-se ao gosto do freguês. O resultado foi este inacreditável Rolls-Royce aerodinâmico, construído em exemplar único em 1947.


As rodas totalmente carenadas e os faróis embutidos desse automóvel não eram assim só por uma questão de estilo: Nubar era um amante da velocidade, e provavelmente imaginava que com isso levaria vantagem nos rachas que gostava de tirar. Na maioria das vezes não era ele quem ia ao volante mas sim o seu chauffeur, que atendia pelo inefavelmente britânico nome de Wooster. Nubar ia no banco de trás, ordenando ao pobre Wooster que andasse mais rápido e monitorando a performance em um velocímetro suplementar instalado no compartimento traseiro do Rolls.

Alguns anos depois, Nubar dividia o seu tempo entre Londres e a Riviera Francesa. E demonstrando ser um homem essencialmente prático, tinha dois automóveis adaptados às suas necessidades específicas em cada um desses lugares.

Na ensolarada Riviera - vitrine de nove entre dez milionários excêntricos do planeta - Nubar circulava a bordo de um Rolls-Royce Silver Wraith bicolor, também encarroçado por Hooper e dotado do indispensável velocímetro no compartimento traseiro. Uma característica marcante desse carro era o teto em plexiglas, ideal para ver e ser visto.


Em Londres, onde o trânsito era mais congestionado, Nubar apreciava a agilidade dos taxis locais proporcionada pelo seu reduzido diâmetro de giro. Mas naturalmente, não se sujeitaria a andar em um taxi qualquer. Portanto, encomendou para seu uso exclusivo um taxi Austin FX4 zero km, mandando fazer algumas pequenas modificações para que ficasse mais ao seu gosto. Entre estas, a substituição do anêmico motor original por um de Rolls-Royce e a instalação de um eficiente sistema de ar condicionado - e, last but not least, o enxerto de um amplo compartimento de passageiros ao estilo de uma carruagem brougham do século 19. 


Hoje, 39 anos depois de sua morte, Nubar Gulbenkian é lembrado principalmente como um excêntrico playboy do pós-guerra, e, em segundo plano, como um bem sucedido operador no mercado internacional de petróleo. Mas o seu nome também poderia constar de outra galeria da história, aquela onde estão personagens como os americanos George Barris e Ed "Big Daddy" Roth. Isso porque, ainda que provavelmente não tivesse consciência disso, Nubar foi um dos pioneiros do fenômeno que, conforme a época e o lugar, recebeu nomes como customização, personalização e tuning. Os três carros que ilustram este post, e a filosofia que orientou sua criação, o credenciam para isso.

9 comentários:

Ron Groo disse...

Me perdoe, mas o estragão estragou a vida de playboy do cara e ajudou a estragar um monte de carros lindos no decorrer dos anos... Customização, Tunning... eu sinceramente não gosto.
Na maioria das vezes estraga a criação original.

Francisco J.Pellegrino disse...

Nubar é meu herói....vamos gastar.Ótima lembrança como sempre e texto impecável, parabéns.

Mister Fórmula Finesse disse...

Que figuraça esse Nubar!!

Gostos meios esquisitos em termos de carros, mas uma espírito autenticamente livre.

Joel Gayeski disse...

Nubar era um fanfarrão.

Se eu fosse realmente rico gastaria meu dinheiro mandando fazer Shooting brakes e convertendo carros de DTM, WRC e Gr.5 para rua.

Paulo Levi disse...

É, amigos... com ou sem estragão, não se fazem mais Nubars (ou seria o plural "Núbares"?) como antigamente. Para o bem e para o mal.

Alexandre Zamariolli disse...

O carro da primeira foto, identificado como um Daimler, é na verdade um Rolls-Royce Silver Wraith 1947.
E o carro da foto seguinte bem poderia ser um pré-pré-protótipo do FAB 1, o Rolls com teto transparente usado por Lady Penelope no seriado Thunderbirds...

Paulo Levi disse...

Alexandre, obrigado pelos seus comentários e principalmente por chamar a atenção para esse erro, que já foi devidamente corrigido no texto.

Teté disse...

A história do frango com molho de estragão li na wikipédia (em língua inglesa) e parece que surgiu neste livro: "Portrait in Oil - The Autobiography of Nubar Gulbenkian", New York: Simon and Shuster, 1965. Possivelmente também noutras revistas da época, dada a sua curiosidade.

De qualquer forma, obrigada pela visita e pela referência ao artigo da revista! :)

Paulo Levi disse...

Teté.
Um duplo agradecimento a você: pela indicacão de fontes adicionais sobre o "incidente do frango", e pela sua gentileza em retribuir a minha visita ao seu blog (que gostaria de recomendar aos nossos leitores: http://pequenoquiproquo.blogspot.com).

Um abraço,
Paulo