quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Os cinquentões de 2011 (Parte 1)

Para começar o ano, nada melhor que uma homenagem à turma de 1961, uma das mais brilhantes na história do automóvel.

Vamos focalizar quatro modelos muito diferentes entre si, cada qual representando um país. O que eles tem em comum é o impacto que causaram ao chegar, cinquenta anos atrás, e o fato de terem se tornado ícones de suas respectivas marcas. 

Então, vamos aos nossos dois primeiros neo-cinquentões:

Jaguar E-type
 "É o carro mais bonito do mundo", teria dito Enzo Ferrari ao ver pela primeira vez o novo esportivo da Jaguar, lançado no Salão de Genebra de 1961.

Vinda do Commendatore, uma frase como essa precisa ser tomada com um grão de sal. Ferrari era um mestre no uso de pressão psicológica para motivar (alguns diriam intimidar) seus comandados e fornecedores, e talvez sua intenção fosse enviar um sutil recado aos responsáveis pelo estilo de seus automóveis. Não é impossível que estivesse sendo sincero, mas nunca saberemos ao certo.

Seja como for, a maioria das pessoas assinaria embaixo da avaliação de Ferrari. Se em 1961 o Jaguar E-type não era o carro mais bonito do mundo, certamente estava entre os dois ou três mais bonitos. Suas linhas, desenvolvidas por Malcolm Sayer a partir do biposto D-type vencedor em Le Mans em 1955 e 1956, se caracterizavam por uma leveza inexistente naquele modelo de competição. Suas proporções eram perfeitas, seus detalhes de um refinamento irretocável. Até mesmo as rodas raiadas, tradicionais nos roadsters da Jaguar mas já em vias de se tornarem um anacronismo, casavam à perfeição com as linhas do modelo.


No período que vai do fim da produção do Mercedes-Benz 300 SL até o lançamento do Lamborghini Miura, nenhum automóvel despertou tantas paixões. Não era propriamente uma referência em comportamento dinâmico e confiabilidade mecânica, mas diante daquele corpinho escultural ninguém se preocupava com detalhes do gênero.

Foi um momento de glória - talvez o último - para a indústria automobilistica inglesa. Por mais que a Jaguar tentasse, nunca conseguiu reeditar o sucesso do E-type, um modelo que hoje faz parte do acervo permanente do MoMA e é cobiçadíssimo por colecionadores em todo o mundo, com uma cotação acima dos 100 mil dólares para um exemplar em estado impecável.

Ferrari 156

Enzo Ferrari era um homem conhecido pela firmeza de suas convicções. Entre elas estava a de que um carro de Fórmula 1 deveria obrigatoriamente ter motor dianteiro e tração traseira. Só deu o braço a torcer depois que seus concorrentes ingleses, encabeçados por John Cooper, demonstraram uma superioridade indiscutível nos mundiais de 1959 e 1960.

A partir de 1961, passou a vigorar na F1 um novo regulamento que reduzia a capacidade dos motores de 2.5 L para 1.5 L. E Ferrari tinha o principal ingrediente na prateleira: o motor V6 Dino, que já havia sido testado com sucesso na Fórmula 2 do ano anterior. A partir de uma versão revisada desse motor, colocada em posição traseira como no F2, o engenheiro Carlo Chiti projetou um monoposto inteiramente novo que recebeu a designação de 156. Havia chegado a hora da Ferrari dar o troco, com juros e correção.

E foi exatamente o que aconteceu. Com 40 hp a mais que a maior parte dos concorrentes ingleses, os carros da Ferrari venceram todos os grandes prêmios de que participaram naquele ano. Só um Stirling Moss em grande forma conseguiu romper a invencibilidade da marca italiana, ganhando os GPs de Monaco e da Alemanha.

Phil Hill no GP da Alemanha, um dos poucos que escaparam à Ferrari em 1961
O ano de 1961 teria sido perfeito para a Ferrari não fosse o acidente que vitimou Wolfgang Von Trips no GP da Itália em Monza, penúltima prova do campeonato. Tanto a corrida como o título daquele ano acabaram ficando com Phil Hill, seu companheiro de equipe, mas diante das circunstâncias não houve alegria. E no final do ano seguinte, após uma temporada sem brilho, as unidades remanescentes do 156 foram recolhidas a Maranello e "picadas" pela própria empresa.

Inevitavelmente, os acontecimentos do final do campeonato de 1961 acabaram tendo alguma influência sobre a imagem do 156. Mas independentemente dessa ou de qualquer outra circunstância, o lugar desse modelo na história do automóvel já estaria assegurado, graças principalmente ao seu design.

Um monoposto de Fómula 1 deve ser, por definição, uma máquina de ganhar corridas - e isso o desobriga de qualquer compromisso com a estética. Mas o Ferrari 156, com suas linhas assinadas pelo carrozziere Fantuzzi, só pode ser descrito como uma obra de arte. Seu traço mais marcante são as duas entradas de ar frontais que lhe valeram o apelido de sharknose - focinho de tubarão em inglês. Mas do bico afilado à ponteira dos canos de descarga, o conjunto todo é de uma harmonia jamais vista na categoria, antes ou depois. Até hoje, em qualquer votação destinada a eleger o F1 mais bonito de todos os tempos, o 156 sempre figura entre os primeiros. O carro pode não existir mais, mas o mito continua.

E se a imitação é a forma mais sincera de elogio, nunca um F1 foi tão elogiado como o Ferrari 156. Quando  ainda estava na ativa, o modelo ganhou dois "quase sósias": os também italianos Stanguellini e Wainer, ambos da então incipiente Fórmula Júnior. Outro veio à luz aqui mesmo no Brasil por obra de Toni Bianco e Chico Landi; infelizmente, sua história também seria marcada pela tragédia, já que foi ao volante desse carro que Celso Lara Barberis perdeu a vida nos 500 km de Interlagos de 1963.

O Stanguellini Fórmula Júnior, com o inglês Colin Davis ao volante

Araraquara, 1963. À esq., Chico Landi e o Landi-Bianco com motor JK

Em tempos mais recentes, foram construídas várias réplicas do Ferrari 156, das quais a mais conhecida é a que pertence ao cantor italo-britânico Chris Rea. Mas basta um relance para perceber que nenhuma delas chegou lá. Na impossibilidade de apreciar um autêntico sharknose ao vivo, talvez o melhor mesmo seja conformar-se com as fotos e as filmagens da época, ou então admirar o trabalho de arqueologia automotiva que resultou nos modelos em escala realizados por empresas especializadas como Exoto e CMC, estes sim incrivelmente fiéis ao original.

(CONTINUA NO PRÓXIMO POST)

Imagens: Bertold Werkmann/ Shutterstock (thumbnail abertura); Jaguar Cars (E-type roadster, E-type coupé); Exoto Inc., http://www.exoto.com/s/1/ (modelos em escala 1:18 do Ferrari 156);  Stanguellini S.p.A., http://www.stanguellini.it/; livro Automóvel no Brasil, 1893-1966, de Vergniaud Calazans Gonçalves (foto do Landi-Bianco no Circuito de Araraquara, SP).

6 comentários:

Ron Groo disse...

O E-type é realmente um carro lindo. Todas as vezes que olho minha miniatura fico imaginando os detalhes que seriam possível ver no carro de verdade. Será que tem algum em São Paulo?

E esta história de que "picaram" as unidades da Ferrari 156? Quantas sobraram originais? Se é que sobraram...
Parece muito com o carro da Ferrari em Grand Prix, o filme.

Joel Gayeski disse...

Bárbaro!

O XK-E é no mínimo maravilhoso, o conversível e o Low Drag Coupé são dolorosamente lindos. Até uma colega de serviço que não se liga em carros adora.
E pensar que seu motor XK6 foi usado durante décadas em vários Jags.

Paulo Levi disse...

Ron Groo,
Segundo todas as fontes que consultei, não sobrou nenhum 'sharknose' original pra contar a história. Há especulações em contrário, mas aparentemente elas são apenas isso - especulações.

Sobre E-types no Brasil, há um roadster modelo 1970 que pertence a um colecionador de Belo Horizonte. Imagino que tenha sido importado há relativamente pouco tempo, depois que a lei brasileira passou a permitir a importação de carros de coleção. Aqui em São Paulo, que eu saiba, não há nenhum E-type.

Paulo Levi disse...

Joel,
Como diria o falecido jornalista automotivo americano Henry Manney III, o E-type é "the greatest crumpet collector known to man". Ou, em uma tradução livre (e tentando ser fiel à vulgaridade do original), "o maior cata-gatinhas de que se tem notícia". Talvez seja melhor você não contar essa pra sua colega...rs.

Joel Gayeski disse...

Paulo, não precisa. Ela seria facilmente uma das vítimas, hehehe.

Gustavo disse...

Boa lembrança dos cinquentões.
Há vários E-Type aqui em São Paulo, muito bonitos, alguns até a venda, mas o preço...