quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Os cinquentões de 2011 (Parte 2)

No primeiro post desta série sobre quatro dos mais significativos automóveis nascidos em 1961, falamos sobre o inglês Jaguar E-type e o italiano Ferrari 156 sharknose. Hoje, vamos focalizar mais um desses neo-cinquentões - no caso, o americano Lincoln Continental.

 No final da década de 50, a Ford Motor Company vivia um dos piores momentos de sua história. Além do espetacular fracasso do Edsel, transformado em piada por nove entre dez humoristas americanos, a empresa registrava perdas em quase todos os seus segmentos de atuação - inclusive no topo, onde sua marca Lincoln perdia feio para a concorrente Cadillac.

Diante desse cenário, os dirigentes da Ford haviam praticamente decidido encerrar as atividades da divisão Lincoln. Mas antes de desligarem os aparelhos, resolveram dar uma última chance à marca. A jogada era de risco: lançar um modelo inteiramente novo que rompesse não só com o estilo dos seus precursores imediatos, mas também com o paradigma dominante do "mais longo/mais largo/mais baixo". E, principalmente, que pudesse se manter em linha por um bom tempo sem entrar no jogo do annual model change - a prática das grandes mudanças de estilo de um ano para o outro, instituída por Detroit no início dos anos 50, que só podia ser bancada por um fabricante com bolsos muito mais profundos que a Ford (leia-se GM).

Mas para uma empresa em delicada situação financeira, como justificar o lançamento de um novo automóvel num segmento caracterizado por volumes de vendas relativamente baixos? A solução foi tirar da gaveta os estudos de estilo desenvolvidos por Elwood Engel para um outro modelo da Ford - o Thunderbird - dar uma repuxada aqui e outra acolá, e embalar o resultado em uma bela estratégia de marketing e comunicação. Se tudo isso tivesse acontecido aqui por estas bandas, poderiamos até falar em jeitinho brasileiro.

Na competição interna da Ford para definir as linhas do novo Thunderbird, o projeto de Engel fora descartado por não ser suficientemente esportivo. Mas para uma marca como a Lincoln, isso não era um problema. Muito pelo contrário: o que faltava em esportividade sobrava em uma certa elegância formal que remetia aos modelos mais emblemáticos da marca, como o primeiro Continental, de 1940, e o Mark II de 1956. E assim, o Thunderbird de Engel viria ao mundo como o Lincoln Continental 1961.


A plataforma do novo automóvel era essencialmente a mesma do Thunderbird, quase 40 centímetros mais curta que a dos Lincolns do ano anterior. Esse compartilhamento ajudava na contenção dos custos, mas também criava alguns desafios. Como o Thunderbird não previa uma versão de quatro portas, foram enxertadas duas portas traseiras que abriam em sentido contrário ao convencional. O argumento de vendas era o de que essas portas (que logo ganhariam o apelido de suicide doors, ou portas suicidas) facilitavam a entrada e a saída dos passageiros, mas a realidade é que esse era o único meio econômicamente viável de transformar o projeto de Engel em um sedã de quatro portas.

Como que para compensar essas licenças poéticas (para não chamá-las de gambiarras), o Continental 1961 apresentava várias características elogiáveis. A primeira e mais evidente era o design, muito mais limpo que o de qualquer outro sedã full size da época. Para isso contribuiam as laterais lisas e sem cromados, os parachoques estilisticamente integrados às linhas da carroceria, o teto baixo com suas largas colunas "C", e os vidros laterais curvos - esta, uma inovação em âmbito mundial, abrindo uma era de novas possibilidades para o design automobilístico. Na parte mecânica, motor e transmissão eram submetidos a rigorosos testes antes da montagem final, e a garantia oferecida era de dois anos - o dobro do período de praxe. Em resumo: a partir de recursos limitados e de uma boa dose de improvisação, a Ford havia conseguido criar um automóvel à altura dos modelos Continental de primeira e segunda gerações.

O primeiro Continental, lançado em 1940
O  Mark II de 1956, ponto mais alto da marca nos anos 50

Lançado logo no início da presidência de John F. Kennedy, o novo Continental tinha tudo para se tornar o símbolo automobilístico de uma América mais esclarecida, mais aberta ao mundo e menos dada ao deslumbramento auto-referente que havia caracterizado o país em boa parte dos anos 50. Mas aí veio o atentado contra Kennedy em Dallas, mudando os rumos da história dos EUA e do resto do mundo, e fazendo que o automóvel usado pelo presidente americano - um Continental 1961 com carroceria modificada por Hess & Eisenhardt - ficasse muito associado a esse tragico acontecimento no imaginário popular.

É compreensível que assim seja. Mas no ano em que completa seu cinquentenário, o  Continental 1961 também merece ser lembrado pelos seus méritos como automóvel. O modelo ajudou a derrubar a política insustentável do "annual model change", assegurou a sobrevivência da marca Lincoln em um momento crítico de sua história, e estabeleceu uma linguagem de design a partir da qual a marca pôde evoluir ao longo do tempo.

E isso, amigos, não é pouca coisa para qualquer automóvel.

(CONTINUA NO PRÓXIMO POST)

Imagens: Bertold Werkmann/ Shutterstock (thumbnail abertura); Ford Motor Company (foto publicitária Continental 1961); http://www.seriouswheels.com (foto Continental 1940); http://www. speedtv.com (imagem Continental Mark II)


8 comentários:

TOBSC disse...

oLÁ,

Gostaria de fazer a divulgação do dos posts Adverdring. Seria mais fácil com a incluão dos botões de compartilhamento que facilitam a publicação no Twitter Facebook. Essa opção pode ser habilitada nas configurações de Design, opção Elementos de Página, e fica denro do box Postagens no Blog.

Parabéns pelo excelente blog, que já está como recomendano no TOBSC.

www.todososblogssobrecarros.blogspot.com

Gerson e Camila disse...

muito bom o conteudo do seu blog, estou seguindo!

Ron Groo disse...

Sensacional... Mais uma que aprendo.
E que belo é o Lincoln Continental.

Sidney Cardoso disse...

Além da beleza da época do Mark II de 1956, a casa que aparece junto a ele também é linda.

Francisco J.Pellegrino disse...

Excelente Paulo...este Mark II é maravilhoso.

Paulo Levi disse...

Gerson e Camila, obrigado pela visita e pelos comentários.

Paulo Levi disse...

Ron e Francisco, obrigado!

Desses três Continentals, também tenho um fraco pelo Mark II. No início dos anos 60 cheguei a viajar em um, no trajeto de Viracopos a SP. Eu era moleque, mas dava pra perceber que aquele era um automóvel muito especial.

Paulo Levi disse...

Obrigado pela visita, Sidney - é uma honra recebê-lo aqui.

E concordo com você sobre essa foto do Mark II - difícil encontrar uma harmonização mais feliz entre imóvel e automóvel!