França, final dos anos 50. A fase mais penosa da reconstrução do país após a guerra já havia ficado para trás. O poder aquisitivo da população estava em alta, bem como as suas aspirações sociais. O mercado automobilístico estava em franca expansão. E nesse cenário de otimismo e oportunidades, a Citroën tinha um problema: um enorme buraco bem no meio da sua gama de modelos.
Numa ponta estava o mais recente lançamento da empresa, o DS - um verdadeiro
tour de force de tecnologia e inovacão, sofisticado e caro. Na outra, o espartano e barato 2CV, que fez mais do que qualquer outro carro para motorizar a França no imediato pós guerra. O primeiro estava fora do alcance financeiro dessa grande massa de consumidores emergentes, ao passo que o segundo era minimalista demais para satisfazer as suas pretensões de status. Bom para a Renault, tradicional concorrente da Citroën, que tinha no Dauphine um campeão de vendas e já preparava o lançamento de seu sucessor, o R8.
A Citroën precisava reagir, mas enfrentava um problema crônico de falta de dinheiro. Assim, em vez de investir em um modelo inteiramente novo, como havia feito no caso do DS, resolveu reaproveitar o chassi e toda a parte mecânica do 2CV. Para desenhar o novo automóvel, convocou uma vez mais o cultuado
styliste maison Flaminio Bertoni, designer do DS e do próprio 2CV (e, muito antes deles, do igualmente inovador Citroên Traction Avant). E assim, nasceu o projeto que culminaria no lançamento do Citroën Ami 6.
Antes de falarmos mais sobre o Ami 6, vale à pena revisitar os briefings recebidos por Bertoni para a criação do 2CV e do DS. Os dois documentos, de autoria do então diretor geral da empresa, Pierre Boulanger, são tão antológicos e diferentes entre si quanto o design desses dois automóveis.
No caso do 2CV, concebido antes da guerra mas lançado somente em 1948, o briefing especificava "um carro capaz de transportar quatro pessoas e 50 quilos de batatas a uma velocidade de 50 quilometros por hora". Já no caso do DS, Boulanger pedia para "investigar todas as possibilidades, incluindo o impossível", e falava que ele deveria ser "o carro mais belo, mais confortável e mais avançado, uma obra-prima para demonstrar ao mundo... que a Citroën e a França tinham a capacidade de desenvolver o veículo mais avançado de todos os tempos".
Infelizmente, Boulanger faleceria em um acidente de trânsito em 1950, e portanto não estava presente na hora de definir o briefing para o design do Ami 6.
Para conhecer o teor exato desse briefing, seria preciso ter acesso a documentos confidenciais da Citroën. Mas imagino que a conversa com Bertoni tenha sido mais ou menos assim: "
Écoutez, Flaminiô... desenhe um carro que faça lembrar o DS para agradar a essa nova classe média ávida de status. Não podemos gastar muito no projeto, porque pra variar a empresa está na maior pindaíba. Faça um carro barato de produzir, mas não deixe de incluir um portamalas bem protuberante porque isso sinaliza respeitabilidade para essa turma. Ah, mais um detalhe: a capota precisa ser alta o suficiente para acomodar cinco homens de chapéu. Usar chapéu é uma tendência irreversível, e não podemos ficar fora dessa.
D'accord?"
Bertoni - que além de designer era pintor e escultor e à essa altura da vida já não precisava provar mais nada a ninguém - devia ser um sujeito dotado de um fino senso de humor. Assim, criou um carro que atendia escrupulosamente a cada ponto desse hipotético briefing ao mesmo tempo em que parecia ironizá-lo nas linhas e entrelinhas de seu próprio design. E para arrematar dizia que, de todos os carros que havia criado, esse era o seu favorito.
Seja como for, o Citroën Ami 6 é amplamente reconhecido como um dos carros mais bizarros, senão feios, de todos os tempos. Com seus vidros laterais planos, teto em forma de uma letra Z e faróis esbugalhados, é difícil acreditar que seja obra do mesmo criador do sublime DS. De tão esquisito, acabou virando
cult.
E Flaminio Bertoni, se estivesse vivo, nem precisaria dar muita satisfação a quem questionasse as linhas do modelo. Apenas encolheria os ombros e sentenciaria: "É que você não usa chapéu..."