sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Alienígenas (e suas máquinas maravilhosas) em Ouro Preto

As pedras do calçamento da Praça Tiradentes, em Ouro Preto, têm muita história para contar. Mas ainda não tinham visto nada de parecido com o que viram naquela brumosa manhã de 7 de outubro de 2001.

Era domingo, e as famílias da cidade e arredores eram maioria entre os que passeavam pela praça. Os sinos das igrejas repicavam, os aromas reconfortantes do café recém-coado e do pãozinho saído do forno se espalhavam pelo ar. Enfim, tudo dentro da normalidade para uma manhã de domingo fora de temporada na velha cidade colonial.

Mas de repente, quase de fininho, eis que surge por uma das vias de acesso à praça uma espécie de procissão. Só que, em vez de ser formada por fieis, era uma procissão de carros. Carros esquisitos, alguns deles muito velhos, todos com placas das mais diversas cores e formatos. De onde vinham? O que era aquilo? A perplexidade era geral.


 
 Aston Martin DB 4

 
Reliant Scimitar GT

 
Jaguar 420 G
 

Aos poucos, os carros foram estacionando na praça, formando um verdadeiro museu a céu aberto. Quase 100 carros vindos de países como Inglaterra, Itália, Holanda, Bélgica, Estados Unidos e até Nova Zelândia. Verdadeiras preciosidades, que haviam desembarcado no porto do Rio de Janeiro poucos dias antes para disputar uma das mais difíceis provas do mundo para automóveis históricos: o rali Inca Trail. Uma maratona de 25 mil km ao longo de 55 dias, percorrendo o continente sul-americano do Atlântico ao Pacífico, do altiplano peruano aos glaciares da Patagônia antes de voltar ao Rio e cruzar a linha de chegada.

Para quase toda a mídia brasileira, o Inca Trail passou despercebido. Eu soube dele pela Internet, e imediatamente fiz planos para assistir pelo menos um pouco de sua passagem pelo Brasil. Ouro Preto era o primeiro ponto de descanso do rali, um dia após a largada no Rio de Janeiro, e lá eu poderia ver todos os participantes antes que as inevitáveis quebras provocassem muitas baixas ao pelotão.

Acha que uma prova dessas é moleza? Faça os cálculos: mais de 500 km por dia ao volante de um carro sem ar condicionado, sem ABS, sem airbag e, em alguns casos, com uma suspensão digna de uma carroça. Haja espírito esportivo, principalmente levando em conta que a idade dos inscritos devia estar acima dos 55 anos, em média.

Vários dos concorrentes eram adeptos do ditado "o importante é competir". Era esse o caso do idoso casal de ingleses que tripulava o soberbo Aston Martin DB 4. Mas outros encaravam o rali como uma final de copa do mundo, como a dupla britânica do Ford Escort RS 2000 1974 e o casal holandês do Volvo PV544 1962, com sua divertida pintura homenageando Caco, o Sapo. E de fato, foram eles os primeiros colocados do rali por soma de tempos.

           O Escort RS 2000 de Bateson e Francis, vencedores na geral

           Em 2º plano na foto:  Kermit (ou Caco), 2º colocado no rali

Talvez outra prova do gênero passe um dia por território brasileiro, mas duvido que isso aconteça a curto prazo. A crise financeira de 2008-2009 bateu forte demais no bolso dos europeus, principais organizadores e competidores da modalidade. Então, para quem não acompanhou a passagem do Inca Trail por estas bandas, apresento a seguir uma pequena galeria de fotos tiradas em Ouro Preto naquele inesquecível domingo de 2001.

 
Bentley S2

O curioso Austin A90: de aparência inofensiva, mas invocado

 
O Jaguar XK 140 veio da Bélgica

    A Holden dos neo-zelandeses: perda total em acidente no Peru

 
Austin Healey 3000 MK 1

 A Lancia Flavia Coupé da dupla italiana: "chi va piano, va lontano..."

O Jensen e sua cara de mau

Alastair Caldwell, ex-chefe de equipe da McLaren, teve inúmeros problemas com sua Ferrari 330. Terminou o rali com um remendo de durepoxi no carter. 

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tatra, a inovação que vinha do Leste

Este post vem diretamente dos tempos em que a Internet estava apenas engatinhando.

Não, não pretendo aqui requentar algum conteúdo produzido no século passado. Mas como blogs e blogueiros nem existiam naqueles tempos, a história que vou contar ficou incubada na cabeça. É uma história que não perdeu a atualidade, porque o assunto é atemporal. Então, vamos a ela: 

Em 1996, durante uma viagem à República Checa, fiz uma peregrinação ao que talvez seja o mais peculiar museu de automóveis que já conheci - um pequeno museu inteiramente dedicado à marca Tatra. Hoje, a Tatra fabrica apenas caminhões (muito bons, por sinal), mas no passado produziu alguns dos carros mais originais e tecnicamente avançados do planeta. E isso em um lugar distante dos grandes polos de desenvolvimento da indústria automobilística mundial.

Aliás, "distante" é o adjetivo certo para se falar de Kopřivnice, cidadezinha próxima à fronteira com a Polônia, onde fica o museu. Para chegar lá, precisei tomar um ônibus de Praga a Brno, um trem de Brno a Olomouc, e finalmente um taxi de Olomouc a Kopřivnice.

A primeira dificuldade está em pronunciar esses nomes estrambóticos. Foneticamente, Brno soa mais ou menos como "Brr-no" e Olomouc como "Ólmoutz". Até aí, tudo bem. Duro, mesmo, foi acertar a pronúncia de Kopřivnice: aquela espécie de circunflexo invertido em cima do erre pede que se acrescente um improvável som de jota entre essa consoante e a vogal "i". Depois de muito contorcionismo bucomáxilolingual, consegui: "Kôperjivnitze"! Ótimo, já dava pra pedir a um taxista de Olomouc que me levasse para lá.

Já tentou pedir um sorvete em checo?
Como o  taxista em questão só falava checo, fui salvo por um desses livretos de frases para turistas. Graças a ele, deu para fazer um rápido pit stop e comer alguma coisa. E menos de uma hora depois, lá estava eu em Kopřivnice.

Surpreendentemente para uma cidade industrial, Kopřivnice preserva alguns cantinhos bucólicos que fazem lembrar uma estância hidromineral mineira. O pequeno e frondoso parque que emoldurava o museu na época da minha visita (antes da mudança para um novo prédio, em 1997) poderia perfeitamente estar em Caxambu.


Mas vamos ao que interessa: o que está do lado de dentro do museu.

Logo de entrada, dá para notar que o enxuto acervo é algo muito especial. São apenas 52 veículos, entre automóveis, caminhões e até uma locomotiva. Eles contam a trajetória da empresa desde os primórdios até os anos 90, quando a Tatra deixou de fabricar automóveis. E, indiretamente, também fazem uma crônica da atribulada história da ex-Checoslováquia ao longo do século 20, começando como uma junção de províncias do império Austro Hungaro, tornando-se uma incipiente democracia nos moldes ocidentais, e sendo transformada em um satélite do chamado Bloco Socialista antes de renascer como República Checa.

Nos automóveis Tatra das decadas de 1910 e 1920, percebe-se alguma influência de estilo dos Renault contemporâneos. A coisa começa a esquentar perto de 1930, com destaque para o T70, que com sua silhueta mais baixa que o habitual nada fica a dever em elegância e beleza aos grandes clássicos da época. Dá até para imaginar a figura do então presidente da Checoslováquia, Tomas Masaryk, acenando para checos e eslovacos (que tinham por ele verdadeira adoração) de dentro de um carro desses.


Mas o mais interessante, mesmo, são os modelos que vão desde a década de 30 até o final dos anos 50. Aqui, estamos decididamente na vanguarda do design e da engenharia automobilísticas.

Concebidos pelo engenheiro Hans Ledwinka, os Tatra desse período vão fundo no exercício da aerodinâmica e de arquiteturas mecânicas não-convencionais. O protótipo V570 de 1932, por exemplo, prefigura claramente as linhas do Volkswagen sedan, que só seria lançado seis anos depois. (A propósito, Ledwinka e a Tatra moveram uma ação judicial por plágio contra Ferdinand Porsche, responsável pelo projeto do "carro do povo" alemão. Passados muitos anos e com uma guerra no meio do caminho, tiveram ganho de causa.)


Outro destaque desse período é o Tatra T87. É um carro de embasbacar, com um motor de 8 cilíndros pendurado na traseira e um design aerodinâmico até então inédito em modelos de série. Impossível olhar para ele sem se lembrar do Corvette Sting Ray, que só seria lançado 25 anos depois.


Com o fim da Segunda Guerra e o início da chamada "guerra fria", a Europa ficou dividida entre países comunistas e capitalistas. A Checoslováquia acabou ficando na esfera de influência da União Soviética, mas continuou a produzir e exportar automóveis. Talvez o modelo mais representativo desse período seja o T600, também conhecido como Tatraplan, que chegou a ser exportado em volume razoável para o Brasil no início dos anos 50. Lembro bem desses carros - quase todos eram de cor preta e tinham um ar sinistro que fazia pensar em uma barata saída de algum pesadelo kafkiano.


Daí em diante, a história da Tatra espelha fielmente as mutações de seu entorno sociopolítico. O modelo T603, lançado em 1956 - um sedan um tanto quanto balofo, ornamentado por cromados de gosto duvidoso - era destinado exclusivamente a figurões de alto coturno do partido comunista checo e outros apaniguados do poder.


Já o  modelo T613, de 1973, igualmente reservado à nomenklatura, trocava as tradicionais linhas aerodinâmicas da casa por um design encomendado ao carrozziere italiano Vignale. É um carro até que bonito com seus traços retilíneos e grandes áreas envidraçadas, porém bastante convencional. E o mais recente dos automóveis  expostos em Kopřivnice, o Tatra Prezident da década de 90, só pode ser descrito como uma coisa tosca, mais parecendo um protótipo de fibra feito em fundo de quintal. De certa forma, ele é uma metáfora para um sistema político e econômico que já havia se exaurido há tempo.



Deixar de produzir automóveis antes que a memória da marca ficasse irremediavelmente comprometida foi a melhor decisão que a Tatra poderia ter tomado. Mesmo sem ter chegado a ser uma estrela de primeira grandeza no firmamento automobilístico, a idiossincrática marca Checa teve momentos de raro brilho. Se os acontecimentos políticos do século 20 tivessem se desenrolado de outra maneira, é bem provável que os automóveis Tatra ainda estariam entre nós, brilhando mais intensamente do que nunca.

Para saber mais sobre o museu da Tatra, acesse: http://www.tatramuseum.cz/

Imagens: Tatra T603: Asterion/Wikimedia Commons; Tatra T613: Ondrej Ertl/Wikimedia Commons; Logo Tatra: Tatra Museum. Demais imagens: arquivo pessoal do autor.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Os tesouros escondidos de Kalamazoo


Quando se pensa no crème de la crème dos museus de automóveis, imediatamente vem à mente os nomes do Mercedes Benz Museum, em Stuttgart, e do Musée Nationale de L'Automobile, em Mulhouse. Ambos ficam em lugares emblemáticos: a alemã Stuttgart é a terra da Mercedes e também da Porsche, e a francesa Mulhouse fica a dois passos de Molsheim, berço da lendária Bugatti. Se esses museus não estivessem onde estão, possivelmente não teriam todo o carisma que têm.

Que imagens, então, poderia evocar o nome "Kalamazoo" para um entusiasta? Para começar, quase ninguém no Brasil sequer ouviu falar em Kalamazoo. Para os americanos, com a possível exceção dos próprios habitantes dessa cidade no estado de Michigan, o nome Kalamazoo evoca a imagem de um lugar provinciano, parado no tempo. E talvez haja uma certa verdade nisso, porque Kalamazoo está situada no rust belt, o "cinturão da ferrugem" dos EUA, região duramente atingida pelo declínio do setor manufatureiro no norte do país.

Quem visita a cidade percebe que ela já teve melhores dias. Mas não dá para comparar com o horror urbano em que se transformou Detroit; ao menos Kalamazoo soube manter uma certa dignidade, principalmente em bairros residenciais onde ainda é possível admirar magníficas mansões vitorianas do fim do século 19 e do começo do século 20. Quando estive lá, me hospedei em uma dessas mansões, hoje um dos mais bonitos bed and breakfasts que já conheci: o Stuart Avenue Inn, originalmente residência de um dos fundadores do laboratório Upjohn, hoje incorporado ao gigante farmacêutico Pfizer.


Volltando ao tópico deste post, Kalamazoo também tem suas credenciais quando o assunto é automóvel. Por muito tempo, lá foi fabricado um dos carros americanos mais conhecidos de todos os tempos, o Checker. Se esse nome não quer dizer nada para você, pense naqueles taxis amarelos que durante décadas fizeram parte da cenografia urbana de Nova York em todas as produções de Hollywood. Ele mesmo: um carro feioso e até tosco, porém robusto como um tanque Sherman, o qual manteve o visual inalterado por 26 longos anos (coisa inédita nos EUA, onde os modelos passavam por mudanças radicais a cada ano), de 1956 até o encerramento das atividades da empresa em 1982.



Mas na verdade eu não fui a Kalamazoo em busca das origens do Checker: fui lá para conhecer o Gilmore Car Museum (http://www.gilmorecarmuseum.org), um dos museus de automóveis mais interessantes e sui generis em todo o mundo.


O que esse museu tem de tão especial? Para começar, a ambientação em meio aos campos verdejantes dos arredores de Kalamazoo. Em vez de ficarem expostos em um prédio convencional, os 200 e tantos carros do acervo foram agrupados em 11 antigos barns - aqueles celeiros pintados de vermelho-tijolo, marca registrada da paisagem rural americana. O efeito é mágico: no bucolismo daquele cenário, o visitante se sente imediatamente transportado para os roaring twenties, era dos automóveis que predominam no acervo e dão o tom ao museu. E que automóveis! Auburns e Duesenbergs, Cords e Marmons, Pierce-Arrows e Mercers, La Salles e Packards, como saídos das páginas de um romance de F. Scott Fitzgerald, todos impecavelmente restaurados e apresentados.



Em minha visita ao Gilmore Car Museum, fiquei especialmente encantado com a beleza dos detalhes desses grandes clássicos americanos. Coisas de um tempo em que exímios artesãos ainda imprimiam sua marca a um produto industrial por definição. Assim, resolvi fotografar esses detalhes, porque para mim eles transmitem fielmente o espírito de uma visita a esse museu, que merece ser incluido no roteiro dos entusiastas mais exigentes.

Eu poderia ficar (como fiquei) admirando esses detalhes durante horas. Eles são o que os americanos chamam de "eye candy", uma verdadeira festa para os olhos. Enjoy!


 

  





Imagem panorâmica do museu: divulgação. Imagem do Checker: Wikimedia Commons. Outras imagens: arquivo pessoal do autor.