sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Não, nós não somos peruas (Parte 3 - Final)

Um dos países menos receptivos às peruas é a Itália. E talvez isso tenha a ver com o modo pelo qual os italianos foram inicialmente expostos a esse tipo de veículo.

Diferentemente dos shooting brakes e das station wagons dos anglo-saxões, que remetiam ao esporte e ao lazer das classes privilegiadas, as primeiras peruas italianas eram viaturas fúnebres de aparência especialmente fantasmagórica. O trauma de vê-las andando em passo de lesma à frente dos cortejos não deve ter sido pequeno, já que por várias gerações os italianos tenderam a associar as peruas a esse tipo de transporte.


Quando muito, na Itália as peruas são vistas como um mal necessário. Foi assim com as versões derivadas do Fiat Topolino e de seu sucessor, o Nuova 500, que venderam razoavelmente bem por oferecerem um espaço interno um pouco menos apertado para um casal e sua pequena prole.


Quem fizesse questão de uma perua mais espaçosa precisava encomendá-la diretamente ao fabricante, ou então comprar um sedã e confiar o trabalho de adaptação a alguma empresa especializada, como a Carrozzeria Viotti de Turim.

O fato mais revelador é que por muito tempo, não havia na lingua de Dante nenhuma palavra que servisse para designar esse estilo de carroceria. Ou melhor: havia sim - e era até uma denominação oficial, estabelecida pelo estado. Só que, de um ponto de vista comercial, seu uso não era muito recomendável. Mais adiante, veremos por quê.

Uma solução para essa crise de identidade só começou a aparecer em meados da década de 50, quando a Fiat lançou a versão perua do Nuova 500, batizada de Giardiniera. O nome pegou, e só não virou genérico porque os direitos de uso pertenciam à Fiat. Entretanto, havia uma palavra bastante parecida que era de domínio público, giardinetta, e assim esta passou a designar a categoria nos meios de comunicação e na linguagem popular.

Com o tempo, ambas cairam em desuso, substituidas por station wagon. E cá entre nós, nomes horticulturais como giardinetta e giardiniera não eram mesmo muito indicados para uma perua com um mínimo de pretensões a status ou esportividade.

Mas e a tal denominação oficial, qual era ela e por que a sua utilização não era recomendável?

Primeiro, cabe esclarecer que ao instituí-la os magistrados italianos pretendiam sinalizar que aqueles eram veículos de uso misto para o transporte de carga e passageiros. Para expressar esse conceito, nada lhes pareceu mais adequado que uma palavra de inatacáveis origens latinas: promiscua. E se a palavra desse margem a interpretações dúbias, os insatisfeitos que se queixassem ao bispo.


Portanto - e voltando ao modelo que deu origem a esta trilogia - a Mercedes-Benz pode ficar tranquila quanto ao futuro do CLS Shooting Brake no Brasil. Perua pode até ser uma palavra ridícula para um automóvel - mas pelo menos ela não é um juízo de valor sobre as suas qualidades morais.

(Clique nos links para ler a Parte 1 e a Parte 2 desta trilogia)

Imagens: http://www.lanciaartena.com/fotoseriespeciali.html (carro funerário Lancia Artena); livro Alfa Romeo - Guida all'Identificazione, de Maurizio Tabucchi

7 comentários:

Joel Gayeski disse...

Imagina chegar em casa e dizer "Ho comprato una Giulietta Promiscua."

Melhor chamar de Estate, SW ou mesmo Weekend como a Fiat usa há tantos anos.

Paulo Levi disse...

Joel,

Ao que parece, Weekend" é um nome que fez sua estréia na linha Fiat (tanto no Brasil como na Itália) através da nossa velha conhecida Palio Weekend.

Mas muito antes disso, lá nos tempos da Giulietta Promiscua, existiu uma perua Giulietta "alternativa" construída pelo carrozziere Boneschi sob o nome de Giulietta Weekendina. É melhor que Promiscua, mas não muito...

Quanto a Estate, o problema é que há em italiano uma palavra de grafia idêntica cujo significado - verão - é completamente diferente.

Assim, como nome genérico independente de marcas, o que mais se usa atualmente é mesmo o velho e bom station wagon.

Joel Gayeski disse...

Paulo, não foi com a Regata Weekend que começou essa denominação?

Paulo Levi disse...

Você está certo, Joel - a primeira Weekend da Fiat foi mesmo a Regata. Obrigado pela correção.

Ron Groo disse...

Esta 500 chamada de Giardiniera é bem bacana, se bem que sou suspeito, adoro os 500.

Mas o que mais me impressionou foi chamar o carro de Promiscua, Pô! E ainda reclamam de perua. hehehe

Dan Palatnik disse...

Eu ainda chamo de caminhonete! E sou caminhoneteiro com muito orgulho. É o formato mais completo de automóvel. Minivan é para saudosistas da Kombi...

Paulo Levi disse...

Dan, agora você abriu a caixinha de pandora pra valer. Fui procurar informação sobre essa nomenclatura caminhonete, e trombei com as formas caminhoneta, camioneta e camionete. E para piorar, segundo algumas fontes, caminhonete é uma coisa e caminhoneta é outra sob o ponto de vista jurídico. Depois dessa, acho que prefiro ficar mesmo é com o velho e bom perua...rs.