quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Não, nós não somos peruas (Parte 2)

 "Crescei e multiplicai-vos", ordenou às peruas o criador. E estas, obedientes, encontraram nos Estados Unidos a terra prometida onde poderiam por em prática a incumbência.

Ao chegar, adotaram o nome de station wagon. E ali viveram felizes, ajudando as famílias americanas a se adaptarem à nova vida na crescente suburbia de bairros residenciais cada vez mais afastados da área central das metrópoles.

Mesmo convivendo sem grandes problemas com a denominação station wagon, os americanos nunca deixaram de dar nomes de modelo às suas peruas. Aliás, alguns dos melhores nomes criados por Detroit até hoje serviram para batizar veículos desse tipo. Só na linha da GM, tivemos maravilhas como Safari, Vista Cruiser e o melhor de todos eles, Nomad, quase tão antológico quanto a perua Chevrolet que leva esse nome.


O que as peruas americanas não podiam imaginar é que um dia seriam atacadas em seu próprio terreiro por uma temível espécie de predador mutante, o SUV. Hoje, sobrou apenas uma (o Cadillac CTS Sport Wagon) para contar a história.

Apesar dessa hecatombe, a expressão station wagon sobreviveu e até prosperou em outras partes do mundo. Na Grécia, perua é stasion vagon. Na Turquia, steyşin vagon. E até mesmo na França, país notoriamente esnobe em relação a qualquer coisa vinda dos EUA, a palavra break (uma corruptela do britânico shooting brake) tem perdido espaço para station wagon.

Analisando a expressão por partes, a palavra wagon pode ser aplicada de maneira genérica a  carroças de qualquer espécie, motorizadas ou não, enquanto station se refere literalmente a uma estação de trem. Isso porque a expressão data de uma época em que os grandes hotéis e resorts da América do Norte colocavam à disposição de sua clientela veículos especialmente construídos para transportá-los, juntamente com sua bagagem, no trajeto da estação ao estabelecimento e vice versa.




No início, duas outras palavras eram praticamente intercambiáveis com station wagon: suburban e woody. A primeira virou marca registrada da GM, e a segunda foi caindo em desuso à medida em que o aço foi tomando o lugar da madeira na confecção das carrocerias. E assim, a expressão station wagon venceu. Foi uma vitória vazia, considerando o que o destino reservava às peruas americanas.

(CONTINUA NO PRÓXIMO POST)

Imagens: Cory Thoman/Shutterstock (thumbnail peruas); DougW/Wikimedia Commons (Chevrolet Nomad 1955); http://www.coachbuilt.com/bui/c/cantrell/cantrell.htm (anúncio carrocerias Cantrell)

5 comentários:

Joel Gayeski disse...

Acho essas woodies medonhas, fora o peso que devem ter.

No aguardo do próximo post.

Ron Groo disse...

A Nomad é muito linda, tinha uma miniatura de uma que era uma ambulância. Adorava aquele carrinho.

Vai ter uma parte com as SW nacionais?

Paulo Levi disse...

Joel, acho que as woodies até que são interessantes quando colocadas no seu contexto histórico. Estou me referindo às verdadeiras woodies, em que a madeira é um elemento estrutural da carroceria. Naquelas construídas depois de 1948, a madeira (ou outros materiais imitando madeira)
não passa de um detalhe decorativo, e o efeito geralmente é puro kitsch.

Paulo Levi disse...

Groo, em 50 e bolinha eu tinha um vizinho cujo pai tinha uma Nomad 56. Lembro que foi a primeira vez que achei uma perua mais bacana do que o sedan do qual ela derivava.

Sobre o post final dessa série, vou focalizar um país que era (acho que ainda é) o pior cenário para as peruas. Por aí fica claro que não se trata do Brasil, já que aqui elas ainda têm um bom cartaz. Desde que ninguém cometa a indelicadeza de se referir a elas como peruas, é claro...rs.

Joel Gayeski disse...

É questão de gosto mesmo.
Lembrando que tivemos ônibus woodies também.