domingo, 12 de dezembro de 2010

Não, nós não somos peruas (Parte 1)

Recentemente, a Mercedes-Benz anunciou que o CLS Shooting Brake, apresentado como carro-conceito no salão de Pequim deste ano, entrará em produção em 2012. O modelo foi uma das principais atrações da marca alemã em todas as mostras internacionais de que participou. É um automóvel espetacular, sem a menor dúvida.

Mas tem uma coisa que a Mercedes preferia que você não soubesse: o CLS Shooting Brake é, como dizer... uma perua.


Ah, as peruas. Sempre dando dores de cabeça aos seus fabricantes. Não que sejam inferiores aos sedãs, longe disso. Em quase todas as condições de uso, uma perua faz tudo o que um sedã é capaz de fazer, e ainda oferece a praticidade de um compartimento de carga maior, mais modulável e mais fácilmente acessível. O problema não está no produto, mas sim na nomenclatura.

Pense bem: perua. Só a menção da palavra já evoca imagens ridículas. Perua é a fêmea do peru, um bicharoco feio e desengonçado cuja principal razão de ser é servir de repasto nas festas de fim de ano. E perua é também a mulher excessivamente maquiada, vestida de forma espalhafatosa, e adornada da cabeça aos pés com brilhos, berloques e balangandãs. Não admira que os fabricantes fujam dessa palavra como o diabo da cruz.

Para a indústria, a saída de praxe tem sido batizar as peruas com nomes que desviem o foco da infeliz palavra. Nos primórdios da indústria automobilística brasileira, a Vemag dava à versão perua do DKW o nome de Vemaguet. Sua concorrente Simca, ao lançar sua própria perua, adotou o nome de Jangada. Já nos anos 80, a GM colocava o dedo na ferida em uma propaganda da perua derivada do Opala: "Caravan é station wagon. O resto é perua". E hoje, o que predomina são eufemismos como SW, Weekend, Spacefox e por aí vai.

(Foto meramente ilustrativa)
Por que tamanho repúdio? E por que uma palavra tão esdrúxula para designar um tipo de automóvel perfeitamente respeitável? Ninguém sabe ao certo. Segundo alguns autores, trata-se de um regionalismo paulistano que teria se alastrado pelo país nas décadas de 20 e de 30. No caso, "perua" seria o apelido dado a uma espécie de camburão que circulava pela cidade recolhendo os boêmios mais renitentes que jaziam nos logradouros públicos, bêbados como perus. Tem jeito de lenda urbana, mas até hoje ninguém apresentou hipótese melhor.

Engana-se quem pensar que o problema da nomenclatura está restrito ao Brasil. Ele é um fenômeno global.

A palavra utilizada em Portugal, por exemplo, é carrinha. Pode não soar tão ridículo quanto perua, mas o sufixo diminutivo -inha já denota um certo menosprezo. Atente-se, também, para o fato de que a palavra é carrinha, no feminino, e não carrinho. Considerando os antecedentes machistas das civilizações ibéricas, o menosprezo fica ainda mais caracterizado.

Mas voltemos por um instante ao CLS Shooting Brake. De onde teria a Mercedes tirado esse nome?

Tal como outras designações de estilos de carroceria (sedã, coupé, limousine etc.) a expressão shooting brake era originalmente usada para identificar um veículo a tração animal. Mais precisamente, uma carroça cuja finalidade era a de levar membros da aristocracia rural britânica ao local de uma caçada, com espaço suficiente para acomodar seu séquito de cães, armas (daí o shooting do nome) e serviçais. Com o advento da motorização, os shooting brakes passaram a ser construídos sobre chassis de marcas prestigiosas como Rolls Royce, Daimler e Lanchester, encarroçados de forma artesanal por especialistas como Hooper, Barker e Arthur Mulliner. Luxuosos e imponentes, além de denotarem um modo de vida voltado ao esporte e ao lazer, esses veículos logo passaram a ser usados em outros contextos além das expedições de caça.


Mas aí vieram as duas grandes guerras, a sociedade inglesa passou por profundas transformações (e a indústria automobilística também) e os shooting brakes deram lugar a peruas de perfil menos elitizado, construídas em grande série. Estas passaram a ser conhecidas como estate cars, ou simplesmente estates, palavra que em inglês britânico designa uma propriedade rural. Os ingleses se referem assim às peruas até hoje, mas o que ainda restava da associação entre esse nome e o modo de vida das an antigas classes dominantes, tão bem retratado nos romances de Evelyn Waugh, se evaporou com o tempo. Assim, as marcas britânicas passaram a adotar nomes específicos para as suas peruas. Basta pensar no Clubman, a versão estate do Mini.

Com o declínio dos shootings brakes, a designação entrou em um processo de hibernação na Inglaterra do qual só começaria a despertar nos anos 60 - o que não impediu que permanecesse em uso no outro lado do canal da Mancha. Só que na versão francesa, o shooting ficou pelo caminho e o brake passou a ser grafado como break (pronuncia-se brék).


A palavra break incorporou-se de tal forma ao vernáculo dos franceses que a ninguém ocorreria tratar-se de um estrangeirismo. Mas com o passar dos anos, ela foi assumindo uma carga semântica negativa, possivelmente alimentada pelo estereótipo da perua como símbolo de um estilo de vida pouco glamuroso, subordinado à rotina dos afazeres domésticos. Hoje, os franceses - normalmente tão ciosos da pureza do seu idioma - tendem a substituir esse velho anglicismo por outro de safra ligeiramente mais recente, conforme atesta o uso cada vez mais generalizado da expressão americana station wagon.

(CONTINUA NO PRÓXIMO POST)

Imagens: Cory Thoman/Shutterstock (thumbnail peruas); Daimler AG (Mercedes-Benz CLS Shooting Brake) Green Bay Police Department (camburão); site supercars.net (Rolls-Royce 20/25 Shooting Brake, 1936); arquivo pessoal do autor (folheto promocional Citroën GS Break)


Agradecimento especial a Richard Owen, do site Supercars.net, pela autorização de uso da imagem do Rolls-Royce Shooting Brake)

5 comentários:

Joel Gayeski disse...

Taí uma coisa que eu sempre quis saber, o porque das "estates" francesas serem chamadas "beak".
Sobre a origem do termo "perua" faz sentido. Inclusive até no Pica Pau tem um episódio em que um Policial dala "Ei sargento, mande a perua..."

Mister Fórmula Finesse disse...

Sempre tive curiosidade sobre o termo "carrinhas" que os lusos utilizam...

Peruas é de uma pejoração realmente perigosa se quer vender carros - como no passado da nossa indústria - de mais de 50 mil dólares (nossa antiga Suprema CD completa).

Ótimo assunto para discussão Paulo, vamos aguardar o próximo capítulo...

P.s: no meu último post (de hoje) fiz uma pequena menção a sua contribuição artística em relação ao Fiat Tempra.

abraço

GM

Ron Groo disse...

Que maravilha... E eu sempre achei que "peruas" eram só as Kombis. Aliás, até hoje muita gente se refere as pão de forma como peruas.

Mas vamos em frente... Tô querendo saber mais.

Anônimo disse...

Não há qualquer machismo de que possa se acusar os portugueses ao denominarem de "carrinha" o que chamamos de "perua". Há sim falta de informação do autor da postagem em relação à maneira como os portugueses chamam os tipos de carroceria. Por lá, o que chamamos aqui de "um sedã" (revelando evidente influência francesa no Brasil) seria "uma berlina", termo igualmente feminino e que foi consagrado pela cultura de lá. Portanto, que se pare de querer encaixar construções altamente ideologizadas, mesmo que feitas inconscientemente, para querer descer a lenha nas civilizações ibéricas e acusá-las de um suposto menosprezo que seria aplicado a automóveis. Isso apenas e tão somente beneficia a um marxista cultural que precisa da inocência útil alheia para fazer avançar sua agenda, pois é covarde demais para botar as caras e fazer por si mesmo aquilo que outros podem fazer por ele.
Portanto, se um português não gostar de uma carrinha, pode ser pelo fato de ele preferir uma berlina, enquanto um brasileiro poderia preferir uma perua em relação a um sedã, um inglês poder gostar igualmente de "saloons" e "estates", enquanto um francês ora gosta de uma "break" ou de um "sedan" conforme o conjunto da obra que lhe é apresentado.

Paulo Levi disse...

Anônimo,

Lamento que a leitura desse post tenha lhe causado algum desconforto. Esteja certo de que não foi essa a minha intenção.

Nesse post, como nos outros que integram a mesma série, me propus a tratar de modo leve e bem humorado a questão dos nomes pelos quais as pessoas se referem aos veículos de uso misto, no Brasil e em outros países. Em absoluto pretendi menosprezar as civilizações ibéricas, e particularmente a portuguêsa. Se essa foi a sua impressão, apresento minhas sinceras desculpas.

Quanto à sua assertiva de que não conheço a maneira pela qual os portugueses se referem aos diversos tipos de carrocerias, trata-se de uma suposição infundada. Sei perfeitamente que em Portugal um sedã é uma berlina, exatamente como na Espanha e na Itália. Os próprios franceses, que nos legaram o vocábulo sedan/sedã, usam a palavra berline. E também deixaram sua marca em Portugal, como se pode constatar em palavras como jante e tablier (respectivamente, roda e painel para nós brasileiros).

Por ultimo, rejeito suas alegações sobre um suposto viés ideológico neste blog. Nosso tema são os automóveis e a cultura automotiva, e não estamos aqui para fazer acusações a quem quer que seja, muito menos para tentar impor nossos pontos de vista.

Aproveito a ocasião para agradecer pela sua visita e pela oportunidade de esclarecer as questões levantadas em seu comentário. Sua participação aqui é muito bem-vinda.

Cordialmente,

Paulo Levi