segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A volta por cima do 2 CV

No final dos anos 60, os ventos passaram a soprar a favor do Citroën 2CV. Em um ambiente fortemente influenciado pelos acontecimentos de maio de 1968, que haviam estremecido os pilares da política e os valores da sociedade de consumo, o pequeno Citroën - lançado no final da década de 40 com o objetivo de motorizar o campesinato francês - voltava a ser o carro certo no momento certo. Para os jovens europeus daquela geração, ele era a expressão automotiva de seus anseios de mudança, em perfeita sintonia com o espírito da contracultura que se espalhava por toda parte.



Mas na verdade, àquela altura o 2CV já não era mais um meio de transporte tão espartano como no começo, em função dos aperfeiçoamentos recebidos ao longo do tempo. O principal dizia respeito ao motor, que mantinha a configuração original de dois cilindros horizontais contrapostos refrigerados a ar, mas que na versão 2CV 6 passava de 435 cc. para 602 cc. Um aumento que pode até parecer pouca coisa, mas que era o suficiente para que o torque crescesse em quarenta por cento. Com isso, o 2CV ganhava um desempenho comparável ao de um Fusca 1300 da época, mas com menos da metade da cilindrada. E apesar de seu deslocamento reduzido e de um regime de rotação bastante elevado, esse motor era de uma robustez exemplar, podendo ser exigido a fundo por horas a fio sem apresentar o menor problema.

Os cavalinhos a mais do novo motor também ajudavam a por em evidência as excelentes qualidades dinâmicas do chassi do 2CV. Apesar de um acentuado rolling em curvas, consequência do elevado centro de gravidade e de uma suspensão muito elástica, o carro tinha uma estabilidade fora do comum. Em reta, a tração dianteira (num tempo em que isso era a exceção e não a regra) trazia uma grande estabilidade direcional, tornando o carro bem menos sensível aos ventos laterais que a maior parte de seus concorrentes.

Por dentro, apesar de não oferecer grandes luxos, o 2CV era um carro surpreendentemente confortável. Acomodava bem quatro adultos e sua bagagem, e seu imenso teto solar evitava qualquer sensação de claustrofobia. Em marcha lenta o motor era praticamente inaudível, e o câmbio de quatro marchas, acionado por uma excêntrica haste que adentrava o habitáculo pelo painel, era preciso nos engates e fácil de usar.



Com seus pneus estreitos e rodas de 15 polegadas, o 2CV rodava macio até mesmo em pisos muito acidentados. Não por acaso, no briefing original do modelo constava que ele deveria ser capaz de transpor um campo levando a bordo uma cesta de ovos sem que nenhum se partisse.

Ao longo de sua existência, o 2CV foi produzido em sete países, inclusive na Argentina no Chile. Na França, sua produção chegou ao fim em 1988; em Portugal, o modelo ainda teria uma sobrevida de mais dois anos. Seu estilo polarizou opiniões desde o início, provocando sentimentos de paixão e repulsa com igual intensidade. Pessoalmente, me incluo no grupo dos apaixonados assumidos pelo 2CV, um carro que na definição do grande jornalista automotivo LJK Setright é "a mais inteligente aplicação do minimalismo a obter sucesso na forma de um automóvel".

10 comentários:

Joel Gayeski disse...

Paulo, esse é um carrinho que gosto muito.
Fico pensando em como deve ficar bom com algumas otimizações na suspensão para deixá-lo mais na mão e dar um "tombinho" na suspensão pra melhorar o centro de gravidade.

Mister Fórmula Finesse disse...

Sou do contra...novamente!

Apesar de já ter experimentado toda a (curta) gama nacional da Citroen, ainda não encontrei algo que realmente me conectasse com o verdadeiro prazer de condução em relação a marca.

Seja VTR, nova Picasso, Aircross e outros, existe algo que "não bate" no lado lúdico do cérebro quando os dirijo, desde ergonomia até comandos principais. E isso que procuro manter a mente aberta a todo e qualquer tipo de carro.

Desprezar a excelência em engenharia e design da Citroen em favor de sensações puramente emocionais é uma tremenda tolice, eu admito...mas o que há de se fazer.

No entanto, quando pude tocar no C4 de rally do "Seb" - com configuração para asfalto - quase tive uma epifania automotiva...eu QUERIA aquele carro para mim com todas as forças.

As pessoas passavam e não dedicavam mais do que uma simples olhadela no carro, e eu lá, pregado com as mãos no aerofólio de fibra de carbono, tentando mesmo que por uma doentia osmose, absorver toda a história de insanidade e velocidade daquele carro.

parte disso começou ali encima, no 2CV!

GM

Paulo Levi disse...

Joel,
Dá pra fazer essas modificações, sim, e inclusive há muitos clubes de 2CV europeus que promovem corridas com 2CVs modificados em pistas como Spa, Snetterton e Mallory Park. Este vídeo feito em Spa é uma boa amostra disso: http://www.youtube.com/watch?v=fToMeY3Wc6k&feature=related

Paulo Levi disse...

Mr. F.Finesse,
Se você é do contra, então estamos de acordo... os Citroëns atuais tem bem pouco a ver com os modelos que fizeram a fama da marca, como o 2CV.

Ultimamente a Citroën tem se esforçado para recuperar um pouco de seu DNA original, mas não é fácil fazer isso a partir de plataformas e componentes de origem Peugeot. Assim, a "citroenidade" dos modelos atuais ainda é mais cosmética do que qualquer outra coisa. Por outro lado, não sei se o consumidor atual toleraria o mesmo grau de excentricidade que caracterizava os produtos da marca na era pré-Peugeot.

Joel Gayeski disse...

Palo

Fantastique!

Depois quero ver isso com mais calma
http://www.youtube.com/watch?v=9gYZtbIPk2k&feature=related

Joel Gayeski disse...

Ia me esquecendo

MFF

Citröens atuais são só Pugs com outra roupa.

Mister Fórmula Finesse disse...

Paulo e Joel: acho que é mais ou menos isso mesmo.

Você anda no 307, aquela cadeira elevada no lugar de banco do motorista, aquela caixa um tanto expansiva....sabem quando o negócio não "veste"?

O VTR também, aquele enorme volante com o cubo fixo, comando um tanto duro do câmbio; ou seja, os dispositivos "magnos" de controle e interação já meio que inadequados...o motor que não acompanha as linhas da carroceria.

Carro francês para mim hoje, os atuais vendidos por aqui, é isso...uma paisagem preta e prata, tudo muito amorfo, anestesiado de um certo fulgor sanguíneo. Certa época, eu lidava quase diariamente com um C3, e com exceção da direção...eu o odiava do fundo do meu coração!

Hoje, mui raramente, eu conduzo uma C4 Picasso (não é minha) que é simplesmente inaceitável para extrair o mínimo de prazer ao volante, nada funciona a contento mesmo que a idéia não seja andar com vigor. Apesar dos inúmeros periféricos tecnológicos - surpreendentes pela proposta - o carro é apenas um eletrodoméstico de luxo.

Tenho uma ronha muito séria com esses franceses atuais!

GM

Francisco J.Pellegrino disse...

Gosto do carrinho, num passado distante eu estava na Argentina andando com um deles...bom carro. Discordo do Mister Formula Finesse, tive um 307 Rallye ano 2004, carro excelente, forte de motor para a categoria...de resto quero distância dos atuais franceses aqui produzidos...

Ron Groo disse...

Eu sabia muito pouco em relação ao 2CV, não tinha nem idéia sobre a maciez ao rodar e nem sobre o silêncio do motor em marcha lenta.

Gostaria muito de ver um de perto.

Outro dia vi no Blog do Francisco um cartaz que dizia que o Fusca poderia ter sido inspirado no 2CV, não achei a idéia absurda, pelo contrário. São duas jóias automobilísticas de grande valor.

Paulo Levi disse...

Ron,
Esse cartaz deve ser uma manifestação do bairrismo francês: tirando o fato do 2CV usar um motor boxer refrigerado a ar, ele não tem nada a ver com o Fusca. Se o Dr.Porsche se inspirou em algum outro carro para criar o Fusca, foi no Tatra V570, de 1932.