sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Mercedes do doutor Rudi

Na rigida estrutura organizacional da Daimler-Benz dos anos 50, os engenheiros podiam ser agrupados em diferentes níveis hierárquicos conforme suas credenciais acadêmicas. Em ordem ascendente: Dipl.-Ing. ("Diploma-Ingenieur"), Dr.-Ing. ("Doktor-Ingenieur"), e Prof. Dr.-Ing. ("Professor Doktor-Ingenieur").

E lá no topo, acima de todos eles, estava Rudi.

Rudi - ou mais formalmente, Rudolf Uhlenhaut - já trabalhava na empresa havia mais de vinte anos, tendo assumido seu departamento de competições em 1936. Nessa função, mostrou a que veio logo de início com os projetos do W125 e do W154, monopostos que restabeleceram a supremacia da Mercedes-Benz sobre a Auto Union, sua maior rival na década de 30.

Uhlenhaut era o oposto de um engenheiro de gabinete. Não hesitava em por a mão na massa junto com os mecânicos, e frequentemente dispensava os serviços dos pilotos de testes para avaliar pessoalmente o comportamento de um carro.

Testando o W154 em Monza, 1938
E agora, no cenário radicalmente transformado do pós-guerra, repetia a dose ao projetar automóveis que não davam chance aos seus competidores na Fórmula 1 e nas provas para carros esporte, como a Mille Miglia e as 24 Horas de Le Mans.

Além disso, coube a ele desenvolver o 300SL, o revolucionário modelo que abriu as portas do mercado americano para a Mercedes-Benz e fez mais para alavancar sua imagem de marca do que qualquer outro modelo em sua história.

 NY, Salão do Automóvel de 1954: o 300SL como abre alas 
Com uma folha de serviços como essa, não surpreende que fosse tratado como um patrimônio da empresa, com carta branca para fazer praticamente tudo o que bem entendesse. Mas junto com as regalias vinha uma limitacão: mesmo sendo um apaixonado pelo automobilismo e mesmo tendo o talento de um piloto profissional, Uhlenhaut estava proibido, por contrato, de participar de qualquer tipo de corrida.

Para adoçar a pílula, a Daimler Benz disponibilizou para seu uso pessoal um dos dois únicos exemplares existentes de um carro que ele mesmo havia projetado: a versão coupé do 300SLR.


O modelo havia sido desenvolvido para disputar as provas do campeonato mundial de marcas de 1956, mas o plano acabou sendo arquivado depois do trágico acidente envolvendo um dos carros da marca nas 24 Horas de Le Mans de 1955, o que levou a Mercedes a se retirar das competições.

Externamente, o SLR coupé guarda alguma semelhança com o 300SL, mas na realidade trata-se de um  carro de corrida minimamente adaptado para uso de rua. A combinação entre seu motor de oito cilindros em linha e 310 hp (essencialmente o mesmo utilizado nos monopostos W196 de F1) e uma estrutura tubular pesando apenas 60 kg lhe permitia alcançar uma velocidade máxima próxima aos 300 km/h.

Ao seu volante, Rudi se divertia diariamente no caminho entre sua casa e a sede da empresa em Untertürkheim, nos arredores de Stuttgart. E deixava roxos de inveja os coleguinhas de seu filho Roger ao ir buscar o garoto na escola.


Um aspecto paradoxal dessa história é que, em toda a sua vida, Uhlenhaut nunca chegou a ser proprietário de um automóvel. Nem mesmo do 300 SLR Coupé. Para quem podia dirigir o Mercedes-Benz que quisesse na hora em que bem entendesse, o certificado de propriedade era apenas um detalhe sem importância.

Não faz parte da cultura empresarial da Daimler-Benz dar destaque a indivíduos que tenham trabalhado na empresa, por mais brilhantes que tenham sido suas contribuições - mas neste caso abriu-se uma exceção. E assim, o Mercedes do doutor Rudi hoje faz parte do acervo do Mercedes-Benz Museum de Stuttgart, onde aparece identificado para a posteridade, com toda a justiça, como Uhlenhaut Coupé.


Imagens: Daimler AG (exceto thumbnail/arquivo pessoal do autor)

8 comentários:

Joel Gayeski disse...

Simplesmente fenomenal Paulo!
O Uhlenhaut Coupé meu preferido "entre todos os carros, de todas as marcas" dos anos 50.

Esse bólido é o papel de parede do meu celular.

Tu também és mercedeiro né?

Paulo Levi disse...

Joel, legal que você gostou! Aliás, foi um comentário que você fez ao meu recente post sobre o 300SL que me inspirou a escrever este aqui.

Sobre o ser mercedeiro ou não, não sei se eu me classificaria assim... mas que a marca tem muita história interessante pra contar, isso tem.

Anônimo disse...

But....ele sempre teve que guiar uma marca de carro, por força de contrato, ao longo de toda a sua vida!

encontrei um defeito...(rs)

maravilha de post Paulo, é impressionante como essas fotos em preto e branco represam tanta história não?

Cada mercedes é um capítulo à parte na história dos carros, sua obsessiva engenharia e a busca gloriosa pela qualidade...algo tão descrito e relido quanto a própria Bíblia.

GM

Francisco J.Pellegrino disse...

Já não se fazem mais histórias como antigamente....Paulo, excelente !.

Joel Gayeski disse...

Paulo
Obrigado, nunca tinha lido tanta coisa em português sobre o Dr. Rudi.

Anônimo
Quem me dera ter a "dura" obrigação de dirigir qualquer Mercedes...

Uma pena que a Mercedes largou o 6 em linha em favor do V6. Tem coisa mais "banal"?

Ron Groo disse...

Cada dia aprende-se um pouco mais.
Adoro este lugar.

Paulo Levi disse...

GM e Francisco,
Obrigado pelos comentários, é um prazer contar com a leitura de vocês!

Joel,
Nunca guiei um Mercedes V6, e acho que os motores de seis cilindros em linha realmente traduzem a identidade profunda da marca, essa "obsessiva engenharia" mencionada pelo GM. Mas há muito tempo tive a oportunidade de guiar um 300SEL V8, um sedã grande e pesadão que me deixou impressionado pelas acelerações e retomadas dignas de um esportivo puro. De todos os carros que já dirigi, foi um dos que ficaram mais gravados na minha memória.

Groo,
Obrigado pelo elogio!
Mas vou avisando desde já: no próximo post, você vai desaprender. Aguarde...

Joel Gayeski disse...

Paulo, vai a m(piiiiiiiiiiiiiiiii!!!)

Eu também sou tarado pelo 300SEL desde que li sobre ele no BCWS.

Teria um pra "daily driven" fácil.