terça-feira, 9 de novembro de 2010

Non olet

Luca Cordero di Montezemolo, presidente da Ferrari, é um dos personagens mais poderosos do establishment político e empresarial italiano. Seu mentor, o falecido presidente da Fiat Gianni Agnelli, foi uma lenda em seu próprio tempo, e assim como ele Montezemolo se distingue pelas suas qualidades de liderança e por uma elegância que vem de berço. Faz parte de uma família aristocrática da região do Piemonte, e seus blazers bem talhados e mocassins feitos à mão são apenas os sinais exteriores desse refinamento.


Toda essa elegância forma um contraste no mínimo chocante com a rápida transformação da Ferrari em um dos grandes ícones do moderno varejo de massas. Começou na surdina há uns dez ou quinze anos, ganhou escala global com a implantação das Ferrari Stores, e agora chega ao apogeu com a inauguração do Ferrari World, um gigantesco parque temático localizado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes.




Na intersecção entre o faraônico, o feérico e o farisaico, não poderia haver lugar melhor para comemorar a cada vez mais provável decisão do mundial de 2010 em favor de Fernando Alonso, já que o último GP do ano será realizado justamente em Abu Dhabi. Montezemolo certamente estará lá, e só perderá a elegância se tiver que pagar o mico de vestir novamente o ridículo paletó vermelho do Banco Santander, master patrocinador da Scuderia.


Como é possível conciliar uma marca de prestígio como a Ferrari com esse festival de bonés, canetinhas, canecas e outras quinquilharias baratas, se é que 34 dólares por uma caneca pode ser considerado barato? Não se estaria com isso comprometendo os valores da marca que Enzo construiu, como a exclusividade, o prestígio e, sim, a elegância?


Montezemolo - que é um homem elegante mas a quem não se pode tachar de romântico - tem uma visão bastante objetiva sobre a questão. Para ele, sempre haverá alguém querendo faturar em cima da imagem da Ferrari, com ou sem a sua autorização. Se é assim, por que a Ferrari não deveria faturar em cima da sua própria imagem por meio de sistemas de licenciamento e franchising? Ainda mais considerando que isso não requer nenhum desembolso de sua parte, já que todo o investimento corre por conta e risco de quem se dispõe a comercializar esses badulaques?

Não se pode negar a lógica financeira desses argumentos. Mas e a reputação da Ferrari, como é que fica? Será que o potencial comprador de um automóvel da marca não se ressente dessa massificação indiscriminada? Na avaliação de Montezemolo, nem um pouco. A Ferrari já está tão firmemente entronizada no olimpo das marcas que nada disso a atinge.

Na objetividade de seu raciocínio, Montezemolo parece ser um herdeiro espiritual de outro ilustre conterrâneo seu, o imperador romano Tito Flavio Vespasiano. Hábil administrador, Vespasiano instituiu a cobrança pelo uso dos banheiros públicos de Roma. Achando a medida de muito mau gosto, seu filho Tito lhe perguntou se não se sentia constrangido por ganhar dinheiro com os dejetos que os cidadãos depositavam, por assim dizer, naqueles malcheirosos recintos. Ao que Vespasiano pegou uma moeda e, segurando-a sob o nariz do herdeiro, pronunciou uma frase que entraria para a história: non olet. Em bom português, "não fede".


Portanto, se você é um ferrarista à moda antiga e anda meio incomodado com o comercialismo que tomou conta da sua marca do coração, é bom ir se conformando. Como diria Vespasiano, non olet.


Imagens: coleção Heinz-Joachim Krenzer (thumbnail moeda Vespasiano); www.virgilio.it (Luca di Montezemolo e esposa); www.autocar.co.uk (imagens Ferrari World); Angel Diaz/Agência EFE (imagem Montezemolo e Emilio Botín); site Ferrari Store (imagens boné e caneca);  www.thepaolas.com/Emperors/emperors.html (busto Vespasiano).

10 comentários:

Mauricio Morais disse...

Maravilha de texto, muito pertinente, pois também penso que a Ferrari entrou para o varejão tipo Casas Bahia dos ricos, famosos e exibicionistas.

Ron Groo disse...

Pois é... E Luca Di Montezemolo conseguiu. Fez a disneylandia rossa.
E consegue que todos os fãs de corrida se sintam meio Patetas vez em quando...
Desculpe, mas tenho um birra com os rossos que acaba recaindo sobre tudo da marca.

Francisco J.Pellegrino disse...

Business.....!

Paulo Levi disse...

Maurício,
Obrigado pelo elogio, legal você ter gostado!

Paulo Levi disse...

Ron,
Pateta serei eu no dia em que eu for a esse parquinho ou comprar uma bugiganga com o brasão da Ferrari. Nada contra a Ferrari ou o Montezemolo, mas por mim eles podem ficar com tudo isso.

Paulo Levi disse...

Francisco,
Lembro de um filme italiano em que um sujeito dizia pro outro: "bisis is bisis". É por aí.

Mister Fórmula Finesse disse...

Já têm tanta coisa tóxica e vulgar que ronda os donos das verdadeiras ferraris que o fato de um parque desses existir é fato secundário.

Digo mais, eu me divertiria muito nessa montanha russa (apesar que me entusiasmo até com roda gigante de quermesse...), e existem coisas que apesar do populismo barato, devem servir para contentar os olhos.

O que não concordo é a localização do parque, isso sim é coisa de McDonalds no Nepal, se fosse na Itália, entre milenares catedrais e paisagens de Monet, eu aposto que a chiadeira seria bem menor!

Nesse ponto, a estirpe nobre do "advocatto" deve chiar ao lembrar onde está o segundo parque de diversões mais alusivo da marca italiana (a primeira claro, é Fiorano)....

GM

Joel Gayeski disse...

Não sou ferrarista (muito pelo contrário) mas o Enzo deve estar se revirando na cova.

Cafona é pouco.

Paulo Levi disse...

Mr. FF,
Não sei, mas algo me diz que os italianos preferem esse tipo de coisa beeem longe deles, em algum pantanal da Flórida ou então nas areias escaldantes do oriente médio. Isso, apesar de todo o orgulho que possam sentir pela Ferrari. E se a venda de bugigangas ajudar a sustentar a atividade da scuderia na F1, então non olet.

Joel,
Eu estava tentando evitar a palavra "cafona", mas já que você a usou... dê uma olhada no site do Ferrari World e veja o vídeo sobre a réplica do restaurante Mamma Rossella, de Maranello. Jantar ali deve ser a experiência fake mais autêntica do planeta.

Fernando Kesnault disse...

Acho tudo legal e é uma maneira de se ganhar dinheiro e apelo à marca não?? Muito legal o parque embora eu deteste a Ferrari e não gosto dela.