quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Um 300 SL no centro da História

Em toda a história do automóvel, poucos modelos exerceram (e continuam exercendo) tanto fascínio como o Mercedes-Benz 300SL Coupé, também conhecido como "asa de gaivota". E dentre as 1400 unidades do 300SL produzidas entre 1955 e 1963, poucas tiveram uma história tão incomum como a do exemplar adquirido em 1956 por David Douglas Duncan.

Na verdade, "adquirir" não é bem o verbo certo já que Duncan não desembolsou um único centavo pelo seu 300SL. Fotógrafo de profissão, este americano nascido em Kansas City fora contratado pela Daimler-Benz para uma sessão de fotos da versão conversível do carro, então em vias de ser lançada, e em pagamento pelos seus serviços recebeu um 300SL coupé novo em folha na cor preta, ao qual deu o apelido de "Black Torpedo".


Ao contrário do que se poderia supor, sua especialidade não era fotografar automóveis. Junto com seu contemporâneo e amigo Robert Capa, Duncan foi um dos maiores fotógrafos de guerra do Século 20. Onde houvesse um foco de tensão internacional, lá estava ele com suas lentes. Fez a cobertura de grandes batalhas no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, e tornou-se mundialmente conhecido por suas imagens da Guerra da Coréia para a revista Life.

Radicado no sul da França desde o início da década de 50, Duncan estava em plena atividade profissional quando tomou posse do seu 300SL. Da mesma forma que suas câmeras Leica, o carro tornou-se um inseparável parceiro de trabalho, levando-o aos quatro cantos do continente europeu. Mas essa estava longe de ser uma relação puramente utilitária: Duncan tinha verdadeira adoração pelo 300SL e com ele ficou por quase quarenta anos, rodando 450 mil km ao longo desse tempo.


À parte suas imagens de guerra, Duncan notabilizou-se pelas maravilhosas fotos que documentam o dia a dia de Pablo Picasso na intimidade do lar. Ao longo desse projeto, nasceu uma amizade entre os dois (Picasso era seu vizinho em Mougins, perto de Cannes) que perduraria pelo resto da vida.

Pablo Picasso não tinha o menor interesse por automóveis e nem sabia dirigir - mas  deixou-se seduzir pelas formas voluptuosas do 300SL. Gostava de passear no carro tendo o amigo fotógrafo ao volante. E Duncan, que normalmente era chegado a uma tocada mais esportiva, andava despacito em deferência ao passageiro ilustre.

 Duncan,  Picasso e Jacqueline Roque, última mulher do artista espanhol

Uma das jornadas mais épicas do "Black Torpedo" aconteceu em 1959, quando Duncan foi fazer uma reportagem fotográfica em Moscou. A chamada Guerra Fria entre os EUA e a URSS se aproximava do seu momento mais crítico, mas mesmo assim o americano obteve a autorização do Kremlin para fotografar o seu carro em plena Praça Vermelha, símbolo do poderio soviético. Se uma espaçonave pousasse ao lado daquele 300SL de portas escancaradas, provavelmente não atrairia tanta atenção.


Mesmo nos dias de hoje, rodar os quase 3.000 km que separam Moscou da Côte d'Azur não é exatamente um passeio. Há mais de meio século, então, com estradas infinitamente piores e a chamada Cortina de Ferro a dividir o continente europeu, era uma verdadeira odisséia - ainda mais ao volante de um caro e sofisticado carro esporte. Precavido, Duncan decidiu levar a bordo um bom estoque de peças de reposição, limitando sua bagagem praticamente à roupa do corpo e a um mínimo de equipamento fotográfico. Mas nenhuma dessas precauções teria sido necessária, já que o 300SL não apresentou o menor problema em todo o percurso. Pelo menos sobrou um cantinho em seu interior para acomodar algumas latas de caviar russo, trazidas como presente para o amigo Picasso.

Em 1996, Duncan sentiu que havia chegado a hora de abrir mão do carro que o acompanhara em tantas passagens memoráveis de sua vida. E o fez da melhor maneira possível: doou-o ao filho de Pablo Picasso, Claude, "para que permanecesse na família". Em 2004, escoltado pelos dois, o "Black Torpedo" foi o convidado de honra em uma cerimônia no Mercedes Benz Museum, em Stuttgart, em homenagem aos 50 anos do 300SL.

Hoje, aos 94 anos, David Douglas Duncan ainda vive em Mougins. E seu velho companheiro de estrada continua na ativa, tendo participado de algumas edições da rediviva Mille Miglia com Claude Picasso ao volante. Mesmo sem levar uma vida tão movimentada como em outros tempos, o "Black Torpedo" ainda terá muitas histórias para contar.

Imagens: arquivo D.D. Duncan, The University of Texas at Austin (http://www.hrc.utexas.edu/exhibitions/web/ddd); arquivo Daimler; portal Le Nouvel Observateur (http://auto.nouvelobs.com/galeries/dossiers/mercedes-benz_300/560/galerieA_s0_ivignettes2132.html)

9 comentários:

Mister Fórmula Finesse disse...

Que história incrível....mal de carro, de amigos, de viagens.

Algo mais cool que isto? Seria James Dean atingindo a alta maturidade com seu mítico "little bastard"....

Francisco J.Pellegrino disse...

Paulo, ótima lembrança, belíssima história...parabéns.

Ron Groo disse...

Eu pouco conhecia de Duncan, muito menos a história da Black Torpedo, que é um dos carros mais bonitos que eu já vi. Pena que uma vez li que o carro causava claustrofobia, mas acho que era na versão de competição.

Vou observar mais as fotos de Duncan e saber se posso colocá-lo ao lado dos meus prediletos: Lartigue e Wee Gee.

Paulo Levi disse...

Mister Formula Finesse,

Sobre Duncan, pode-se dizer que viveu muito bem a vida. Teve a sorte de cobrir várias guerras sem ser morto (diferentemente do seu amigo Capa) nem ficar incapacitado, teve o privilégio de privar da amizade de um grande gênio como Picasso, e além de tudo teve o prazer de aproveitar ao máximo esse automóvel fantástico que é o 300 SL.

E quanto a James Dean... bem, se tivesse chegado a provecta idade, imagino que não seria o mito em que se transformou pelo fato de ter morrido jovem e daquele jeito estúpido.

Francisco,

Obrigado pelos comentários!


Ron,

Lembro de ter lido alguma coisa sobre o Duncan e o 300 SL numa Road & Track do final dos anos 70. Naquela época, ele ainda usava o carro regularmente. Fiquei tão impressionado com a história que achei que valia à pena contá-la aqui, acrescida dos "capítulos" que vieram depois.

Tentei encontrar as fotos do 300 Sl Roadster feitas pelo Duncan, mas sem resultado. Vou continuar tentando...

E o interior do 300 SL é absurdamente claustrofóbico, sim. Observando um desses carros na Autoclásica, isso ficou bem claro para mim. E pra piorar, todo o (pouco) espaço do portamalas era ocupado pelo estepe. Duncan deve ter feito contorcionismos para encontrar um cantinho para as tais latinhas de caviar.

Maluhy disse...

Ele deve ter guardado as latinhas de caviar dentro das malas de couro que vão atrás do motorista,hehehehehe,beleza de reportagem!Realmente a R198 entrou para a história e relatos assim confirmam esse fato,um verdadeiro clássico MB...

Paulo Levi disse...

Maluhy,
Obrigado pela visita, fico feliz que você tenha gostado!

Joel Gayeski disse...

Que bom gosto!

O 300 SL/R é meu Mercedes preferido.
Meu sonho de consumo é um Uhlenhaut Coupé.

Paulo Levi disse...

Joel,
Boa lembrança (e bom gosto), o coupé Uhlenhaut é realmente sensacional. Tive a felicidade de vê-lo ao vivo, e ainda vou postar alguma coisa sobre ele,

Joel Gayeski disse...

Paulo, por favor poste.
Finalmente acho alguém que também GOSTE desse carro.