quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Os sons da Autoclásica 2010

Na Autoclásica 2010, havia música no ar.

Mas não era o rock dos anos 50 nem o som das big bands dos anos 40, de presença obrigatória em quase todas as mostras do gênero no Brasil. A trilha sonora em San Isidro era ao vivo, e estava a cargo dos donos da festa: os automóveis.

A qualquer momento, podia-se ouvir o som de motores funcionando em vários pontos da exposição. Os mais chamativos eram os que vinham da ala das carreteras. Mas também havia displays estáticos projetados  para proporcionar uma rica experiência auditiva aos visitantes.

Num desses displays, um motor V8 Chevrolet small block de 327 polegadas cúbicas, montado sobre uma bancada, atraia muita gente com a ferocidade de seu rugido. Na certa tinha um veneno bastante pesado, com uma taxa de compressão nas alturas, um carburador quadrijet sugando gasolina de alta octanagem, e um comando de válvulas impróprio para uso de rua.


No dia seguinte, voltei até onde estava esse motor para curtir um pouco mais do seu rugido. Para minha surpresa, havia um motor diferente em seu lugar: um Chevrolet Blue Flame igualmente modificado, também montado sobre uma bancada. Pena que estivesse desligado no momento da minha visita. Mas deu para imaginar o barítono eloquente produzido por esse motor de seis cilindros em linha, um dos mais utilizados nas carreteras dos anos 40.


Havia ainda em San Isidro o recital de um terceiro motor, no extremo oposto da escala vocal em relação ao primeiro. Tratava-se do singelo quatro cilindros de um Ford Modelo A do final da década de 20, que ao invés de rugir emitia um ronronar mansinho e levemente sincopado, perfeito para servir de trilha sonora a um filme de Laurel e Hardy. E assim como no caso do feroz V8 da GM, muita gente se aglomerava ao seu redor para viajar na magia desse som.


Que me perdoem Elvis e Glenn Miller - mas com concorrentes assim, a ausência deles na Autoclásica não deve ter sido das mais sentidas.

Imagens (exceto thumbnail): arquivo pessoal do autor. A reprodução é permitida desde que sejam utilizadas sem fins comerciais, e mediante atribuição a este blog. 
  

5 comentários:

Ron Groo disse...

Pode parecer loucura, mas comparo o som de um motor bem preparado e afinado com a obra de Tito Puente, ou um som qualquer do genial Miles Davis... São todos emocionantes de uma forma ou de outra...
Me lembro do dia em que ouvi o som de um motor do GT40, arrepiou todo o corpo.

Paulo Levi disse...

Ron,

Não é loucura não... principalmente se for o Miles Davis acústico, anterior ao Bitches Brew!

Francisco J.Pellegrino disse...

O Ron precisava escutar o ronco Miles Davis de um Chevette Azul....

Ron Groo disse...

Paulo, eu sempre penso no A Kind of Blue.

Paulo Levi disse...

Francisco,
Miles Davis? Sei não... quando entra o segundo estágio do carburador, baixa o Clifford Brown no chevettinho!

Ron,
Kind of Blue é mesmo imperdível. Inclusive pela presença do Bill Evans ao piano.