sexta-feira, 15 de outubro de 2010

As carreteras de San Isidro

No taxi a caminho da Autoclásica, conversando sobre coches y carreras com o simpático tachero, me ocorreu uma dúvida: e se entre os automóveis da mostra não houver nenhuma carretera? Seria uma pena, visto que os carros dessa categoria genuinamente argentina, oficialmente conhecida como Turismo de Carretera, foram os principais responsáveis por fazer das corridas de automóveis um esporte de grande apelo popular no país vizinho. E esse sucesso  atravessou fronteiras, fazendo escola no automobilismo brasileiro entre as décadas de 1940 e 1960.

Assim que entrei no recinto da exposição, a profusão de Bentleys, Bugattis e outros clássicos de alta estirpe parecia confirmar o meu receio. Mas este logo se revelou infundado: ao chegar a uma clareira no final de uma alameda, dei de cara com a fantástica visão de pelo menos trinta carreteras perfiladas, resplandescentes ao sol da manhã.



O motivo dessa abundância toda foi uma feliz coincidência: este é o ano em que se comemora o centésimo aniversário da mais tradicional prova do automobilismo local, o Gran Premio de Carretera do Automóvil Club Argentino. Portanto, as carreteras não eram meras figurantes na Autoclásica 2010 - elas estavam lá como uma das principais atrações do evento.

Muitos desses carros eram réplicas, mas isso não os desmerece em nada. O importante é que, na maioria dos casos, a fidelidade aos originais foi rigorosamente mantida. Quem dera tivessemos no Brasil o mesmo zelo em recuperar e preservar a memória do automobilismo nacional.

Espelhando o que acontecia nas provas da categoria, a maior parte das carreteras expostas era formada por coupés Ford e Chevrolet das décadas de 30 e 40, as lendárias cupecitas. Mas também se via um ou outro Dodge do mesmo período, além de modelos que só fariam sua estréia mais tardiamente, como o  Torino Liebre e o Garrafa Chevrolet dos irmãos Bellavigna.






Por fim, é impossível falar em carreteras sem lembrar dos pilotos que animaram a categoria em sua fase áurea: Juan e Oscar Gálvez, Dante e Torcuato Emiliozzi, Carlos Menditeguy, Juan Manuel Bordeu, Carlos Pairetti e muitos outros. E do maior de todos eles, Juan Manuel Fangio, elevado ao status de ídolo nacional e projetado para uma gloriosa carreira na Fórmula 1 pelas vitórias que obteve ao volante das indômitas cupecitas.

Imagens: arquivo pessoal do autor. A reprodução é permitida desde que sejam utilizadas sem fins comerciais, e mediante atribuição a este blog. 

5 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

Paulo, coisa linda os mamutes, das carreteras melhor nem falar...me lembro do primeiro Chevrolet 1940 que apareceu em casa e eu e meu irmão queríamos cortar os paralamas,ficamos mais de 1 mes de castigo sem chegar perto do carro, mas no meu primeiro DKW não teve jeito cortamos os 4 paralamas, fechamos a janela traseira e FIZEMOS A NOSSA CARRETERA DKW. Estou adorando as fotos...ótimo trabalho.

Ron Groo disse...

Eu tinha visto um livro sobre automobilismo gaúcho que tinha varias carreteras, e na minha ignorância achei que era um tipo de veículo de corrida tipicamente brasileiro... Que bom que aqui a gente aprende um pouco.

Paulo Levi disse...

Francisco, você foi mais ousado do que eu... o máximo que eu me atrevi a fazer foi cortar os paralamas de um DKW de plástico, em escala 1:32.

Paulo Levi disse...

Ron, esse livro que você falou é ótimo, recomendo MUITO. O título é "Automobilismo Gaúcho", e o autor é o Paulo Scali. (Por sinal, vi exemplares à venda no mercado das pulgas da Autoclásica.) Tem histórias fantásticas sobre as corridas de que esses carros participavam no RS, tanto em estradas como em circuitos de rua.

Anônimo disse...

Putz....... Juro...
Em 1974 meu primeiro carro.
Imagine, uma barata Chevrolet 1939
branca,,,,,, e não é que eu a vendi pra comprar uma Karmann Ghuia "TC" ?
Até hoje me arrependo, mas!!!! Foi