quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Quando Paris era mais Paris

Où sont les neiges d'antan? De volta a Paris pela primeira vez em mais de vinte anos, lembrei do lamento do poema de Villon. Onde estavam as neves de antanho? O rio Sena, a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo continuavam onde sempre estiveram, mas por algum motivo a paisagem urbana não era mais a mesma. Ou será que eu é que havia mudado?

Não, aquela não era a Paris que eu conhecia. Ainda era Paris, mas menos do que antes. Alguma coisa estava faltando.

Logo atinei para a causa dessa impressão: os automóveis que circulavam pela cidade haviam mudado. Nada mais natural depois de vinte e tantos anos - mas nesse caso não se tratava de uma simples renovação de frota. As diferenças entre o antes e o depois refletiam mudanças muito mais profundas, todas elas ocorridas a partir da virada dos anos 80 para os 90.

No final do século 20, o avanço da globalização fez que os fabricantes europeus passassem a projetar automóveis em função do gosto mediano de um número cada vez maior de países, deixando de lado as peculiaridades e idiossincrasias de seus mercados locais. O desenvolvimento de novos modelos a partir de pesquisas com consumidores, recurso até então utilizado principalmente pelas subsidiárias dos fabricantes americanos, passou a ser de uso geral. E a consolidação da União Européia praticamente derrubou as barreiras alfandegárias que ainda existiam entre seus países membros, tornando suas fronteiras muito mais permeáveis a marcas que antes só tinham presença expressiva em seus países de origem.

Nesse período, várias marcas deixaram de existir. Outras passaram a fazer parte do portfólio de outros fabricantes, o que levou à diluição de seu DNA na maioria dos casos. A Alfa Romeo foi ficando cada vez mais Fiat, a Citroën mais Peugeot, a Jaguar mais Ford, e assim por diante.

Boa parte da frota circulante da Europa ocidental foi precocemente sucateada. As causas foram os programas governamentais de incentivo à compra de carros novos, complementados por impostos exorbitantes sobre a circulação de modelos mais antigos.

No caso específico da França, uma mudança pequena porém significativa foi a adequação dos faróis automotivos às diretrizes da União Européia. Até 1993, a França era o único país em que os automóveis eram legalmente obrigados a usar faróis amarelos. Com a revogação dessa lei, o trânsito noturno de Paris e do resto do país perdeu seu traço mais característico.

E assim, o que se observa hoje nas ruas das principais capitais européias é um mix de marcas automotivas das mais diversas origens, com poucas variações de uma cidade para outra. O que a frota circulante ganhou em diversidade, perdeu na personalidade dos modelos - e, consequentemente, no sabor especial que estes agregavam ao cenário das cidades de seus países de origem (incluindo Paris, naturalmente). Nos automóveis assim como na gastronomia, o terroir cedeu espaço à mcdonaldização.

Para resgatar um pouco da Paris pré-mudança, aqui está um pequeno menu dégustation de imagens, todas elas pertencentes ao arquivo Paris en Images. Nelas, é possível apreciar a harmonia do conjunto formado pelos automóveis franceses de então - idiossincráticos, criativos, não raro geniais - com o pano de fundo das ruas e praças da cidade.

Renault R8, sucessor do Dauphine (e do Gordini)
2CV, o eterno "escargot de lata" da Citroën
Ensanduichado entre o Dauphine e o 2CV, um Panhard PL17
R16,  sucesso da Renault no segmento dos médios
Olhando para essas imagens, sou obrigado a concluir que a passagem do tempo não fez bem a Paris, pelo menos no que diz respeito ao seu "automobiliário urbano".

Ou será que em 2033 alguém olhará para a imagem de um Renault Clio ou de um Peugeot 207 (ou, pensando bem, de qualquer automóvel) numa rua parisiense, e sentirá falta das neves de antanho?

Imagens:  BooHoo/Shutterstock (ilustração thumbnail); Roger-Viollet/Paris en Images (todas as imagens em branco e preto, exceto R8);  Lipnitzky/Roger-Viollet/Paris en Images (imagem R8).

9 comentários:

Ron Groo disse...

Nunca estive na cidade luz e levando em conta meu pavor de avião...

Mas creio que este fenômeno é sentido em todas as cidades do mundo. Quando vejo fotos antigas, em preto e branco, de São Paulo que tanto amo, vejo carros maravilhosos e fico os imaginando ao vivo, em cores...

Hoje vejo as mesmas ruas e só enxergo carros muito parecidos entre si, mesmo que de marcas diferentes e curiosamente: em preto e prata. Que desperdício, os automóveis, assim como a vida, precisa de cores.

Mas me diga uma coisa... Os automóveis da Cidade Luz também padecem de falta de cor, ou é diferente e podemos ver carros amarelos, azuis em diversos tons, marrons, verdes?

Paulo Levi disse...

Ron,
Pelo menos subjetivamente, a variedade de cores dos automóveis em Paris (e na Europa em geral) é bem maior que em SP, principalmente nos carros menores e mais voltados a um público jovem.

De acordo com um estudo da DuPont, a cor automotiva mais popular na Europa é o preto, seguida do... prata. Mas diferentemente daqui, as outras cores também têm o seu espaço.

Francisco J.Pellegrino disse...

Paulo, ótima abordagem do tempo....naquela cidade luz....aqui nosso "trânsito" é muito feio, carros feios, sei lá acho que sou exigente demais, a gente viveu os anos 60/70 então eu costumo rotular a coisa assim: é tudo cara de "MONZA", pois desde aquele modelo tudo ficou meio parecido. Nas cores melhor nem comentar..é igual em todo mundo, até na longinqua Suécia, onde vive minha filha ela diz que é tudo prata ou preto...

Paulo Levi disse...

Francisco,
E pensar que o primeiro Monza brasileiro, o hatch de 1982, até tinha um jeitão inovador, com alguma semelhança com os Citroën CX da mesma época.

Sobre a questão das cores, nunca tivemos tanta variedade de cores por aqui como nos tempos em que o Fusca reinava absoluto. Era tanto Fusca na rua, que o jeito mais fácil de obter um mínimo de diferenciação era através da cor.

Aliás, pelo que eu me lembro nunca existiu um Fusca preto de série. Pelo menos não antes da Era Itamar.

Fernando Kesnault disse...

Excelente texto, parabens.
Eu da minha parte já havia notado a semelhança de todos os carros de todas as fabricantes estão a ficar iguais.
E por falar em cores preferenciais ou impostas pelos fabricantes de carros por paises, cito para os amigos aqui o endereço:
http://economia.ig.com.br/empresas/industria/cores+sobrias+predominam+entre+os+carros+brasileiros/n1237686197026.html

Onde nos mostra as porcentagens de cores por paises no mundo, muito interessante e até mesmo educativo....

Paulo Levi disse...

Fernando,
Obrigado pelo comentário, fico feliz que você tenha gostado!

Agradeço também pelo link para a matéria sobre cores automotivas, que detalha muito bem essa questão.

Um abraço,

Paulo Levi

Fernando Kesnault disse...

Paulo, eu é que agradeço pois depois fiquei a "navegar" em teu blog com as várias histórias como a rixa entre Ferrari e Maserati e a vida de André Citroen...é incrivel como a vida dá voltas não?? E eu sei disto em particular, pois agora estou desempregado há quase dois anos, a ex-esposa pediu para sair de casa, minha princesinha sente minha falta e tudo de ruim acontece ao mesmo tempo...éééé....tem que ter paciencia e estrutura para aguentar tudo isso....mas tudo bem...um dia as coisas melhoram...

Fluzão Eterno disse...

Criei um blog sobre meu time de coração que é Fluminense e gostaria de perguntar se você poderia me ajudar fazendo uma parceria de link comigo,desde já muito obrigado e parabéns pelo seu blog:

Fluzão Eterno: http://fluzaoeterno.blogspot.com/

Paulo Levi disse...

Fernando, é como você diz na última frase do seu comentário: um dia as coisas melhoram. Keep driving!

Um abraço,

Paulo