quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O admirável mundo novo do Fiat Mio

No futuro, designers e engenheiros não serão mais necessários para se projetar um automóvel. Ainda haverá lugar na indústria automobilística para alguns desses profissionais, mas sua função estará restrita a por em prática as idéias de quem efetivamente comandará o processo: os consumidores.

No futuro, os profissionais de marketing também serão dispensáveis. Os próprios consumidores se encarregarão de dizer exatamente o que desejam de um automóvel. Além disso, darão nome aos modelos e definirão o modo como eles deverão ser lançados.

Bem-vindo ao admirável mundo novo da cocriação automobilística, que no Brasil tem como pioneira a Fiat através do projeto FCC III (Future Concept Car III). Seu resultado prático é o Fiat Mio, carro-conceito que estará exposto no próximo Salão do Automóvel de São Paulo, a partir do próximo dia 27 de outubro.


Mesmo sem que suas rodas tenham girado uma só vez, até porque ele não passa de um modelo renderizado em 3D, o Fiat Mio é um sucesso. Prova disso são os amplos espaços que obteve nas principais publicações brasileiras, tanto no segmento automotivo como no de negócios. E - glória suprema - também nas edições americana e inglesa da revista Wired, bíblia da galera mais tech-savvy do planeta. Na verdade, a matéria da Wired americana é um tanto irônica em relação a ele ("Nosso português anda meio enferrujado, mas a impressão que temos até o momento é a de que os usuários querem um carro híbrido voador que seja parecido com o transformer Bumblebee e que seja movido a melancias esmagadas"), mas o que interessa mesmo é aparecer na revista para que o fato seja noticiado e viralizado ad nauseam.

Mas afinal, o que vem a ser cocriação? Em poucas palavras, é o processo pelo qual pessoas como você e eu, empoderadas (urgh) pelos recursos da interatividade, decidimos quem deverá ir para o paredão de um reality show. Ou então o nome que deverá ser dado ao novo orangotango do zoológico. A tecnologia digital nos liberou de nossos tradicionais papéis como consumidores passivos de produtos e mensagens criadas por terceiros, transformando-nos em agentes efetivos no processo de criação - daí o nome cocriação. Não gostou? Se preferir, pode chamar de criação colaborativa, crowdsourcing, criação open source e outras expressões do gênero.

É tudo muito democrático: qualquer pessoa pode participar. Não precisa ter conhecimento específico nem experiência anterior. A genialidade está em cada um de nós, apenas esperando por um projeto como esse para aflorar.

Na criação de um novo automóvel, assim como na criação de uma nova campanha publicitária, o ponto de partida é o briefing. No caso do Fiat Mio, o briefing foi uma pergunta: "No futuro que queremos ter, o que um carro deve ter para que eu possa chamar de meu, sem deixar de servir ao próximo?"

Achou vago, ou quem sabe um pouco aberto demais? Isso é o de menos: o que interessa é que a Fiat recebeu mais de 17 mil sugestões de um total de mais de 12 mil participantes cadastrados. Sucesso absoluto!


Mais que o carro em si, o ponto focal do projeto foi um site (http://www.fiatmio.cc), ou "plataforma colaborativa", onde os cocriadores podiam obter informações, acessar textos e vídeos inspiradores, apresentar suas sugestões e avaliar as idéias dos demais participantes. E principalmente, do ponto de vista da Fiat, exercitar o seu engajamento com a marca.


A palavra chave é essa: engajamento. Para uns, é a sensação de fazer parte de uma comunidade de pessoas imbuidas da missão de criar algo importante, quiçá  revolucionário. Para outros, é a ambição de se destacar dentro dessa comunidade. E para a Fiat, é a oportunidade de cultivar a imagem de empresa transparente, inovadora e plenamente identificada com os cânones da modernidade 2.0.

Alguém poderia supor que os profissionais das áreas de design e engenharia da Fiat não ficassem lá muito felizes com a idéia de um bando de amadores dizendo o que deveriam fazer ou deixar de fazer. Mas, aparentemente, não é o que acontece. Nas palavras de Peter Fassbender, Diretor do Centro Estilo Fiat, "o Fiat Mio será um carro que é verdadeiramente feito junto com apaixonados por carros". Ah, então tá.


Para dar uma idéia sobre as sugestões enviadas por esses "apaixonados por carros", compilei uma pequena amostra que apresento a seguir. Essas sugestões, que estão aqui reproduzidas ipsis literis, vão do óbvio ululante ao delírio megalômano, passando pela humildade enternecedora dos que apenas sonham em ter um carrinho um pouco melhor. Naturalmente, os nomes dos autores foram omitidos para não expor ninguém a constrangimentos.
LUXO E SEGURANÇA
Um carro de personalidade, com uma frente agressiva que demonstre presença e imponência, que onde passe todos olhem para ele e desejem ter um igual, com toda segurança e tecnologia que temos, air-bag, freios abs a disco nas 4 rodas, sensor de aproximação, ar-condicionado digital, bancos reguláveis elétricos, tudo de série, para o maior prazer de dirigir.
ESPORTIVO E ECONÔMICO
Gostaria que fosse um carro bem esportivo, elegante, bastante seguro,  econômico e preço baixo.
CARRO QUE PREOCUPA COM A SAÚDE DO PASSAGEIRO
Olá amigos da FIAT, tenho uma idéia que pode revolucionar a vida dos motoristas  (...) Se implementarmos um painel digital onde principalmente o motorista e também os passageiros possam (através de aparelhos compactos internos ao carro) medir sua pressão, fazer cálculo de calorias ingeridas, os batimentos cardíacos e algum aparelho que indica se você está em condições de dirigir o veículo calculando o nível do desgaste emocional (...) Nesse painel deveria ser instalado algum botão touch screen que permite enviar mensagem sms a algum parente ou amigo quando a pessoa estiver com sua pressão alta, batimentos cardíacos elevados (...) A FIAT não vai ficar "fora dessa" não é mesmo? rssrsrs.


O CARRO DA TÍPICA FAMÍLIA BRASILEIRA
Realmente está cada vez mais difícil um carro, espaçoso, econômico, potente, seguro, design arrojado, etc. Esses seriam os itens ideais para um carro da família brasileira.


SUPER AQUECIMENTO DO MOTOR
Em grandes congestionamentos ou engarrafamentos, como queira, temos um problema muito grave que é o super aquecimento do motor. E muitas vezes a ventuinha não consegue resolver, principalmente se o clima estiver com temperatura alta. A minha idéia é a seguinte: adaptação de uma ventuinha auxiliar que poderá ser acionada por um comanddo elétrico no painel pelo condutor, evitando assim este grande tormento.


CARRO SUBMARINO
Eu inventei essa idéia por causa das enchentes pra evitar que entre agua dentro do carro acho que ele deveria ter uma estrutura resistente igual de um submarino pra evitar entrada de agua e morte de pessoas.
Portanto, caro leitor, quando você estiver frente a frente com o Fiat Mio no Salão do Automóvel, lembre-se que ele nasceu de idéias assim. É ou não é um admirável mundo novo?

Imagens: Sei Yeung Chan/Shutterstock (thumbnail); Fiat Automóveis (demais imagens).

11 comentários:

Ron Groo disse...

Tomara que esta era chegue logo, que o consumidor seja ouvido - e atendido - em relação aos produtos que irão consumir. Assim teríamos mais segurança e menos porta trecos.
Porém, que o consumidor faça uso do bom senso, porque mesmo para um carro conceito este Mio é muito feio.
Ah sim... E quem sabe se nós formos mais ouvidos acabe a ditadura do preto/prata. Trazendo de volta a cor e a vida aos carros.

Ariel disse...

Mal posso esperar pelo submarino-médico quatro rodas!

Francisco J.Pellegrino disse...

Faça grandes fotografias em Buenos Aires...não vou conseguir ir para lá...boa viagem...pobre é uma merda....kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Mister Fórmula Finesse disse...

Tantos pais... e um filho tão feinho!

A Fiat jogou para a torcida nessa, mas se serve para alimentar a paixão por carros, então é válido.

Paulo Levi disse...

Ron, sempre é bom ouvir os consumidores. Mas antes de ouvir, é preciso fazer as perguntas certas - e saber a quem perguntar.

Paulo Levi disse...

Ariel, você se contenta com pouco... vai lá no site do Fiat Mio e pega os ingredientes pra um coquetel mais incrementado.

Paulo Levi disse...

Mister FF, eu não tinha pensado nesse seu ponto sobre alimentar a paixão por carros. Mas pensando bem, faz sentido.

Paulo Levi disse...

Pode deixar, Francisco, vou fazer o máximo pra não decepcionar. Confira neste espaço na semana que vem.

E não disfarça, aposto que você não vai à Autoclasica porque acaba de voltar de Pebble Beach... kkkkkkkk

Joel Gayeski disse...

EU TENHO MEDO!

Cada baboseira que o pessoal sugeriu nesse site...
Certo é o Bob Lutz que dizía que o consumidor médio não entende porcaria nenhuma de carro.

Juvenal Jorge disse...

Paulo,
esse Mio é ridículo.
Isso que dá ficar perguntando a quem não é do ramo para dar palpite no trabalho dos outros.
Uma caca.
Abraço.

Paulo Levi disse...

Juvenal,
É triste ouvir os engenheiros e designers envolvidos nesse projeto dizerem, com cara de santo, que esse carro (?) foi "feito com a ajuda de entusiastas".