sábado, 4 de setembro de 2010

Motor que canta, encanta

A edição deste mês da revista britânica Car traz uma interessante matéria sobre o recém lançado motor TwinAir, desenvolvido para equipar uma das versões do Fiat 500. Na matéria, chama a atenção a ênfase dada pelo fabricante à sonoridade do novo motor. Segundo o engenheiro Alfredo Altavilla, diretor da divisão de motores da Fiat, a escolha de um dois cilindros em linha deveu-se em parte ao fato de que que esse é um ícone sonoro do Fiat 500 original, "da mesma forma que o motor de doze cilindros é um ícone sonoro da Ferrari".

A declaração é significativa porque mostra a importância que a sonoridade de um motor pode assumir na definição da personalidade de um modelo, ou até mesmo de uma marca de automóveis. Até aí, nada de muito novo - pelo menos para os italianos. Em Le Briglie del Successo (em português, As Rédeas do Sucesso), um de seus vários livros autobiográficos, o próprio Enzo Ferrari tem a dizer o seguinte sobre o assunto:
Sempre me senti atraído pelos motores de doze cilindros, desde o momento em que vi as fotos de um Packard de doze cilindros que correu em Indianapolis no longínquo ano de 1914. No imediato pós guerra, também tive a oportunidade de observar esses motores da Packard nos magníficos automóveis dos oficiais de alta patente do exército americano. Sempre simpatizei com a harmoniosa voz desses motores, e confesso que o fato de que naquela época eles fossem produzidos por uma única empresa no mundo me desafiou à imitá-la.
Note que Ferrari não recorre a palavras como ronco, ruído e nem mesmo som, mas sim voz. A escolha da palavra é reveladora, principalmente quando se pensa que o lendário Commendatore ambicionava ser cantor de ópera quando jovem. Pelo que consta, não era nenhum Beniamino Gigli - melhor para os aficionados por carros velozes, melhor ainda para os cultores do bel canto. O que importa é que a voz dos motores V12 da Ferrari se transformaria no ícone sonoro almejado por Enzo e citado por Altavilla na reportagem da Car.





A analogia entre o som de um motor e a música vocal é de uso corrente no linguajar dos italianos. Quando um motor sobe facilmente de giros e exibe um funcionamento "redondo", diz-se que il motore canta. Talvez seja por isso que os motores dos automóveis italianos se distinguem pela sua musicalidade, dos supercarros da Ferrari aos mais prosaicos utilitários da Fiat.

Mas motores que agradam aos ouvidos não são apanágio exclusivo dos italianos. Os ingleses, no tempo em que ainda possuiam uma indústria automobilística digna desse nome, eram mestres na sonoridade dos motores de seis cilindros em linha, como os da Jaguar, Austin Healey e Triumph. Os alemães, que através do Fusca difundiram pelo mundo o motor de cilindros contrapostos, chegaram à perfeição aural dessa configuração com o Porsche 911 e seus derivados. E os americanos, naturalmente,  têm uma grande tradição em motores V8, uma configuração que para muitos se confunde com a voz automobilística dos EUA: grande, poderosa e exibida, mas que também sabe ser generosa e bonachona.

Já os franceses não tem se saído tão bem nessa questão, especialmente desde o encerramento da produção do motor boxer bicilíndrico do Citroen 2CV. Mesmo um carro bonito e desejado em sua época como o Peugeot 306 S16 tinha uma sonoridade rascante, como uma linda mulher que, ao abrir a boca para falar, emite o crocitar de uma gralha. Hoje, a sonoridade dos carros franceses está dentro da média - uma sonoridade anódina e pan-européia no caso dos modelos com motores de quatro cilindros em linha, maioria absoluta no velho continente entre os carros com motor à gasolina.

Então, o que fazer se você quer ter um carro que é música para os ouvidos, mas não pode se dar o luxo de um Fiat 500 TwinAir, que dirá de um Ferrari?

Tenho uma solução barata: é só comprar uma Towner de segunda mão, ligar o motor e dar umas boas aceleradas. Nem precisa sair do lugar, velocidade é o de menos. Agora feche os olhos. Concentre sua atenção no som do motor. Repare: mesmo tendo a performance de uma lesma, o três cilindros da Towner faz uma imitacão quase perfeita do flat six da Porsche.

Gostou? Não precisa agradecer...

5 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

Towner, vc é um brincalhão, fico com meu V8 e mais um pouco com meu VW...próximo GP estamos lá.

roberto zullino disse...

Tem uma Towner feita pelo Paulinho da Lapa com motor V8. O Xicão poderia comprar.

Paulo Levi disse...

Um V8 numa Towner? Melhor seria colocar o motor do 911, quem ouve nem iria desconfiar que não é original.

roberto zullino disse...

O segredo do som muitas vezes é o desenho do escape. Claro que número de cilindros, número de válvulas sempre influi. O meu 550 spyder tem um escape feito artesanalmente pelo falecido Nenê, Carlos Alberto do Amaral, irmão do Roberto Coruja Amaral. O Nenê tinha mania de perfeição e tinha visto o escape original quando era menino no carro do Christian Heins. Ficou semanas emendando tubos com o mesmo comprimento e fazendo a junção dos mesmos, tudo na lata, maçarico e martelo. Terminou com um megafone misto entre cônico finalizando retangular. O carro não tem barulho de motor de fusca e a maioria das pessoas em Interlagos sempre achou que tinha um motor AP à água. Acredito também que o motor ganhou uns 5 HP no mínimo com esse escape.
Pouca gente sabe, mas o comprimento do escape tem que ser um múltiplo exato do coletor de admissão.

Paulo Levi disse...

Muito bacana, Zullino.

Certa vez, vi (e ouvi) um carro que era o exato oposto desse seu exemplo do 550 spyder: um Maserati 3500 GT que soava igualzinho a um Opala velho. Provavelmente, o proprietário não quis investir num escapamento decente - e aí deu nisso.