quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Campeões da cafonice

Alguma vez na vida, você ganhou uma gravata com o logotipo de um banco? E uma camiseta? Gostou? Chegou a usar? Provavelmente não - a menos que você trabalhe no tal banco e tenha percebido que colocaria sua cabeça a prêmio caso se recusasse a fazê-lo.

Fiquei pensando nessas coisas enquanto assistia a premiação do recente Grande Prêmio da Itália, em que os troféus eram versões tridimensionais do logotipo do Banco Santander. Não foi essa a primeira corrida de F1 em que os troféus tinham esse formato - basta lembrar do pódio do GP da Alemanha deste ano, vencido por Fernando Alonso depois que o box da Ferrari ordenou a Felipe Massa que abrisse passagem para o espanhol. Mas a entrega de um troféu como esse em um Grande Prêmio disputado em Monza, templo sagrado do automobilismo mundial, é um fato que impõe uma reflexão.


Vencer em Monza sempre foi uma meta importante na trajetória de um piloto de F1. É algo muito especial. Por isso mesmo, o troféu que simboliza essa conquista também precisa ser especial. Será que o logotipo tridimensional do Santander é isso? Evidentemente, os dirigentes desse banco pensam que sim.

Não tenho nada contra o apoio financeiro de um banco ou de qualquer outro empreendimento comercial às competições automobilísticas. Ao contrário, acho saudável que o esporte não dependa de verbas públicas para se viabilizar. No que depender de mim, um patrocinador pode colocar seus logotipos onde bem entender: nos carros, nos macacões dos pilotos, nos boxes, no pódio e em qualquer outro lugar. Mas isso não significa que tenha o direito de transformá-lo no troféu de uma prova de campeonato mundial.

Os luminares do marketing do Santander devem acreditar que um troféu no formato do logotipo do banco é a máxima expressão do branding de uma empresa. Certamente imaginam que com isso estão construíndo a imagem do banco junto aos milhões de espectadores da F1. Só que, no caso, é a imagem de uma instituição prepotente e autocentrada que passa por cima de tudo e de todos para afirmar o seu narcisismo corporativo. E da maneira mais cafona que se possa imaginar.

Enquanto isso a FIA, entidade máxima do automobilismo mundial, faz vistas grossas ao seu próprio regulamento, segundo o qual os troféus de uma prova de F1 "devem ter o formato de taças tradicionais". E ainda acha ruim quando alguém questiona a lisura de suas decisões.

Depois que Colin Chapman abriu a caixinha de pandora dos patrocínios na F1, seria ingênuo supor que alguma coisa nesse esporte (se é que ainda se pode chamá-lo de um esporte) estivesse a salvo dos vendilhões que tomaram conta da categoria. Mas um troféu no formato do logotipo de um banco é um pouco demais. Pode até ser motivo de orgulho para o Santander, mas é uma vergonha para a Fórmula 1.


  

10 comentários:

Anônimo disse...

Realmente é muito forçado esses troféu de campeonato de biriba. Monza - a eterna Catedral - mereceria bem mais do que isso...

Mister Fórmula Finesse

Francisco J.Pellegrino disse...

Muito bom o teu post....este troféu em forma de cocô é realmente NEFASTO, BREGA, FEIO, RIDICULO...

Paulo Levi disse...

Sei não, Mister FF... é provável que a Federação Internacional de Biriba aja com mais seriedade no trato dessas coisas do que a FIA.

Paulo Levi disse...

Francisco,
Realmente, o troféu merece todos os adjetivos que você usou - e o substantivo também.

Isso sem esquecer a FIA, que merece no mínimo uma menção honrosa pelo seu papel nessa história.

Ron Groo disse...

Não é um troféu... É um brinde. Recebi um quando abri minha conta lá, e assim é com os pilotos. Eles ganham brindes pela corrida.
Troféus são para esportistas vencedores e como você mesmo disse: não sabemos se ainda podemos chamar F1 de esporte.

Seu blog é bom demais. Cheguei aqui por obra e graça do Francisco, do blog do Camaro. Aquele que adora um preto e laranja... heheheh

Joel Gayeski disse...

Eesse troféu parece um cocô desses que desenham em ginis.

Faz umas 3 corridas que não assisto mais a F1.

Paulo Levi disse...

Ron,
Obrigado pela visita e pelo elogio. (Sem querer fazer muita rasgacão de seda, o seu blog também é ótimo!)

Como não sou correntista desse banco, não sabia dessa história do brinde. Pelo jeito, esse logotipo é uma espécie de signo religioso para os caras. Vai ver que estão querendo catequizar a clientela...

Paulo Levi disse...

Joel,
Eu não tinha me tocado sobre o design, digamos, escatológico desse "troféu". Mas quer saber? Você e o Francisco têm toda a razão.

Fábio Oëttinger disse...

Sem dúvida alguma, vergonhoso.Não basta as placas, outdoors, publicidade nos carros, macacões, capacetes e atá na grama(!) dos autódromos? Particularmente, sou correntista desse banco, seus serviços deixam muito a desejar. Mas em breve trocarei de banco. Parabéns pelo texto.

Joel Gayeski disse...

É senhores, a coisa tá feia.