segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Arturo Benedetti Michelangeli

Arturo Benedetti Michelangeli é tido pelos cultores da chamada música erudita como um dos maiores pianistas de todos os tempos. Dedicava-se com zelo quase monástico ao estudo de seu instrumento e exigia igual dedicação de seus discípulos - vários dos quais, como seu compatriota Maurizio Pollini e a argentina Martha Argerich, hoje figuram entre os mais aclamados pianistas do mundo.

Michelangeli possuia uma personalidade complexa e enigmática. Como uma Greta Garbo ou um J.D. Salinger dos teclados, tinha horror aos holofotes da mídia. E como João Gilberto, era um perfeccionista notório pelos canos que costumava dar em suas audiências.

Uma faceta pouco conhecida da vida de Michelangeli é o seu amor pelos automóveis de alta performance e pelas competições automobilísticas. Segundo alguns relatos, o pianista teria participado da lendária Mille Miglia, que tinha seu ponto de partida e chegada em Brescia, sua cidade natal. Procurei verificar essa informação, mas tudo o que consegui encontrar foi uma relação dos inscritos para a Mille Miglia de 1953, onde consta o nome de Michelangeli como um dos pilotos de um Fiat 750 que nem chegou a largar.

O que se sabe ao certo, porém, é que dirigir em alta velocidade era um dos poucos prazeres terrenos que Michelangeli se concedia. Homem de vida regrada e radicalmente avesso a exibicionismos, tinha uma queda pela Ferrari - a mais extrovertida marca de automóveis que se possa imaginar. Possuiu vários modelos do cavallino, entre os quais o 250 GT da foto.


Em seu livro Le Mie Gioie Terribili, de 1962, Enzo Ferrari traça o seguinte retrato do artista :
Arturo Benedetti Michelangeli é cliente nosso e atualmente está à espera de seu novo carro. Da primeira vez que esteve aqui pediu-me, um tanto constrangido, uma berlinetta Mille Miglia usada, afirmando não ser rico o suficiente para comprar uma nova. Desde então tornou-se um cliente fiel, e de tempos em tempos aparece aqui silencioso, quase diáfano com aquela sua cortesia fria, com aquela expressão desconcertante. Um estranho cavalheiro almoçando entre as nuvens." 
Sobre Michelangeli ao volante, há uma história - talvez "lenda" seja uma palavra mais apropriada - segundo a qual o artista teria sido parado certa vez por um policial rodoviário que lhe perguntou qual a sua profissão."Eu toco", respondeu lacônico Michelangeli. "Onde?", inquiriu o homem da lei. "Aqui e acolá". "Pois então é um vagabundo?" E Michelangeli, encerrando a conversa: "É, digamos que sim".

Se non è vera, è ben trovata...


Imagem do thumbnail: Koichi Miura

7 comentários:

Mister Fórmula Finesse disse...

Que bela estória, uma complexa personalidade, dedicada a percorrer os complicados meandros dos teclados...extravasando um pouco dessa energia represada ao volante das Ferraris.

Olha o paradoxo: o silêncio e os movimentos contidos atrás do piano, o frio estudo em contrapartida com a energia massiva liberada ao acelerador do esportivo italiano, a brutalidade exigida nas trocas de marchas - nada era delicado com a grelha de cambiar - e os movimentos mais expansivos para controlar o grande volante e as forças físicas impostas em velocidade.

Que legal, como é interessante a psique e os gostos humanos...um dos nossos sem dúvida.

Clapton, Harrison, Peart ... o baterista do ABBA (não me atire pedras please), são outros exemplos.

Ron Groo disse...

Quando citou Greta Garbo eu estranhei, afinal ela era atriz, e nunca soube de uma atriz que fosse avessa ao glamour. J.D Salinger eu conheço muito pouco, talvez só o romance que Mark Chapman lia ao matar Lennon...
Mas quando comparou com o mestre baiano do quase sussurro eu entendi perfeitamente.
João é gênio e como tal tem lá suas esquisitices. A gente que é pobre mortal aguenta e bate palma. Eu pelo menos bateria, se ele se dignasse a voltar a tocar.

Sobre Michelangeli eu posso dizer pouco, mas posso dizer que adorei a definição de Il Comendatore sobre o artista: "Um estranho cavalheiro almoçando entre as nunvens."
Muito bonito isto.
E sobre a historieta da blitz policial, tá certo: se non é vero...

Paulo Levi disse...

Finesse,

Muito bem observado, o contraste entre o rigor milimetricamente modulado de Michelangeli ao piano e liberação vulcânica de energia por trás do volante do seu Ferrari.

Aliás, haja energia - dirigir um tratorzão desses sem direção assistida devia exigir uma musculatura digna de um gladiador.

Um abraço,

Paulo

Paulo Levi disse...

Ron,

Pois é, a Garbo era um poço de contradições. Nunca se acostumou com a fama, se aposentou ainda jovem e passou o resto da vida fugindo dos paparazzi, sempre atrás de seus óculos escuros e da frase que haveria de torná-la ainda mais famosa do que os seus filmes "I want to be alone".

Também achei o máximo a frase do velho Enzo sobre o almoço nas nuvens. Não era flor que se cheirasse, mas em algum cantinho de sua alma era um poeta.

Um abraço,

Paulo

Joel Gayeski disse...

MFF

Creio que o paradoxo tenha razão de ser.
Creio que ser sempre sério e calado seja extremamente cansativo.

E eu não duvido da historinha.

André disse...

Meus parabéns pelo belo post sobre o lendário e carismático pianista italiano, inimitável em seus pianissimi e nas ricas sonoridades que extraía de cada peça que tocava.

Fato talvez pouco conhecido, no mesmo ano em que Michelangeli obteve o Primeiro Prêmio no célebre Concurso Internacional de Piano de Genebra, em 1939, ele venceu também uma corrida de automóveis. ABM foi, igualmente, campeão de esqui e pilotava aviões muito bem. Além de ter sido um dos maiores pianistas que já existiram, perfeito em tudo que interpretava, e um exemplo de sobriedade.

Saudações, um abraço.

Bessa

Paulo Levi disse...

André,

Obrigado pela visita e pelos comentários. Não sou nenhum expert em música clássica, mas noto que há nas interpretações de Michelangeli (da mesma forma que nas de Argerich) uma capacidade técnica e uma carga emotiva fora do comum.

Ficaria muito agradecido por qualquer pista que você possa me passar sobre as participações de Michelangeli em provas automobilísticas.

Abraços,

Paulo