domingo, 8 de agosto de 2010

Problemas para a Mercedes na F1. E não só na pista.

Mais um Grande Prêmio, mais uma decepção. Com dez provas disputadas até o momento, e a sete do encerramento do mundial de 2010, a equipe Mercedes GP soma apenas 132 pontos contra os 312 da lider Red Bull. Apesar do empenho de seus pilotos, o máximo que conseguiu até agora foram três terceiros lugares com Nico Rosberg e dois quartos lugares com Michael Schumacher. Certamente, não é o que a Mercedes-Benz tinha em mente quando comprou a Brawn GP no final do ano passado.



Formada a partir do espólio da extinta equipe Honda, a Brawn GP pegou todo mundo de surpresa ao dominar o mundial de 2009, levando ao primeiro e ao terceiro lugares os até então desacreditados Jenson Button e Rubens Barrichello. Se a troca do motor Honda pelo Mercedes, mais a sagacidade de Ross Brawn na interpretação do novo regulamento já foram suficientes para operar o milagre, o acesso aos recursos financeiros e tecnológicos da Mercedes-Benz deveria, ao menos em tese, fazer da nova equipe uma verdadeira máquina de ganhar corridas, como nos tempos de Fangio e Caracciola. Ainda mais contando com os serviços de um übercampeão como Schumacher, convencido a voltar às pistas por um contrato anual de sete milhões de euros e pela possibilidade de conquistar um oitavo título mundial competindo por uma marca de seu país.

Não tenho acesso a informações de bastidores da Mercedes-Benz, nem me proponho a analisar a questão sob o ponto de vista técnico. Para isso, existem inúmeras publicações especializadas em F1, online e off. O que pretendo fazer aqui é apresentar uma hipótese, digamos, gerencial para o fraco desempenho da Mercedes na F1.

Resumidamente, minha hipótese é a seguinte: quando um grande fabricante de automóveis assume o controle de uma equipe de F1, dificilmente essa equipe terá sucesso.

A que se deve isso? Principalmente às expectativas pouco realistas dos fabricantes, à sua obsessão pela hierarquia corporativa, e ao seu foco em resultados a curto prazo visando maximizar o retorno aos acionistas. O problema é cultural: essas empresas não estão dispostas a conceder a autonomia que é condição necessária para galvanizar as pessoas em torno de um ideal comum, aguçando o seu instinto competitivo, nem a paciência para superar as fases ruins que inevitavelmente acontecem no automobilismo. Ao contrário, parece haver uma compulsão em reduzir as equipes a meros apêndices das áreas de imagem corporativa.

Vejamos como isso se dá na prática. Se os resultados não aparecem rapidamente, a pressão se faz sentir. Os acionistas questionam, o board reclama, a área de imagem corporativa se sente pressionada, a pressão se espalha por toda a equipe. Inconformada com a situação, a cúpula da empresa decide intervir em seu modus operandi, substituindo os responsáveis pelas áreas chave (geralmente pelos motivos errados) e impondo procedimentos. O moral da equipe entra em uma espiral descendente, e os resultados vão escasseando até sumir. O desenlace desse folhetim, bastante previsível de resto, é a decisão da empresa de virar as costas à F1 e sair de cena como se tudo não tivesse passado de um mal entendido.

Não estou afirmando que isso irá acontecer no caso da Mercedes GP, mas os sinais estão aí para quem quiser ver. Além disso, os precedentes são numerosos e preocupantes. Os mais recentes foram os da Honda e da BMW, que para justificar sua retirada da F1 usaram como argumento a crise econômica de 2008 -2009. Na verdade, essas duas equipes vinham tendo um desempenho muito inferior ao do tempo em que ainda tinham vida independente como BAR Honda e Sauber BMW, respectivamente.

Mas talvez o precedente mais emblemático seja o da Ford, através de sua experiência com a equipe Jaguar. É um case que merece ser revisitado.

Em 2000, a Jaguar era a jóia da coroa do Premium Automotive Group (PAG), uma divisão da Ford que incluia outras marcas de prestígio como a Volvo e a Land Rover. Com grandes ambições para a Jaguar, a Ford vislumbrou na Fórmula 1 a plataforma ideal para rejuvenescer a marca e renovar sua aura de esportividade. Dito e feito, comprou uma equipe em franca ascensão, a Stewart Grand Prix, mudou seu nome para Jaguar Racing, e contratou a peso de ouro o irlandês Eddie Irvine, vice-campeão no ano anterior pela Ferrari. O aparato de comunicacão corporativa da Ford entrou imediatamente em ação, caprichando nos press kits e em outros materiais que davam a entender que a Jaguar Racing havia chegado para arrebentar. Nas palavras do CEO do grupo, Dr. Wolfgang Reitzle, "nossa entrada na Fórmula 1 sinaliza o rumo para o futuro da Jaguar ( ...) nosso objetivo final é o título mundial de Fórmula 1."

Wolfgang Reitzle: da F1 às empilhadeiras  
E o que aconteceu? Um retumbante fracasso. Os carros não rendiam, os resultados não apareciam - e a boa vontade dos chefões da Ford ia se esgarçando. Na tentativa de reverter a situação, Reitzle recorreu a uma manobra típica do pior maquiavelismo corporativo: em vez de demitir o chefe de equipe Bobby Rahal, instalou Niki Lauda como eminência parda - sem definir claramente as atribuições de cada um. Como era de se prever, Lauda demitiu Rahal na primeira oportunidade. Pouco tempo depois, era a vez de Lauda ser ejetado. E antes que o próprio Reitzle fosse atirado aos tubarões, o bom doutor decidiu abandonar o navio. Hoje, dirige uma fábrica de empilhadeiras.

Fazendo um retrospecto da passagem da Jaguar pela F1: 85 corridas, zero vitórias, dois terceiros e dois quartos lugares. E assim, no final de 2004, a marca abandonava a F1 com o rabinho entre as pernas.

Voltando à Mercedes GP: no lançamento oficial da equipe, em janeiro deste ano, o CEO Dieter Zetsche afirmava que o engajamento da Mercedes-Benz na categoria tinha o objetivo de "polir a imagem da marca", e que sua expectativa era a de que isso ajudasse a vender mais veículos. Ou seja, nada de muito diferente do discurso de Reitzle no lançamento da Jaguar Racing.

Algumas semanas depois, o próprio Zetsche se encarregava de jogar água fria na fervura ao declarar ao jornal Die Welt: "Se ficar claro que poderiamos usar nosso dinheiro de modo mais eficiente fora da F1, então teremos que tomar uma nova decisão."

Norbert Haug, Diretor Esportivo da Mercedes-Benz, e o CEO Dieter Zetsche
Nem é preciso dizer o que uma declaração dessas é capaz de fazer pelo moral de uma equipe. Eu não gostaria de estar na pele de nenhum de seus integrantes, de Brawn e Schumacher ao mais humilde dos  mecânicos. Se no começo do campeonato já existia esse tipo de pressão, imagine agora.

Fazendo um rápido balanço dessa história até o momento: para a Mercedes-Benz, resultados que não lustram a imagem de ninguém; para Michael Schumacher, rachaduras em sua aura de invencibilidade; para Nico Rosberg, a frustração de ver postergada a sua primeira vitória na F1; para Ross Brawn, a convivência com um nível de tensão que deve fazer que a Ferrari mais pareça um mosteiro Zen.

Ironicamente, o atual lider do campeonato, Mark Webber, foi um dos pilotos que amargaram péssimos resultados correndo pela Jaguar. E mais ironicamente ainda, a Red Bull - atual equipe de Webber - deu seus primeiros passos na F1 comprando a massa falida dessa mesma equipe.

Se aparecer alguma outra marca de bebidas energéticas interessada em comprar uma equipe de F1, sei de um pessoal lá em Stuttgart que é capaz de vender baratinho. E para quem estiver à procura de um CEO para uma indústria de empilhadeiras, também tenho alguém para indicar.

4 comentários:

Paulo Keller disse...

Xará,

Estou totalmente de acordo com tudo que você escreveu. Corridas e mundo corporativo são coisas que não combinam. A menos que a divisão de corridas seja independente e tenha autonomia.

Os burocratas não ententem que certas ações requeridas pelos magos projetistas e chefes de equipes não precisam ser explicadas. Mesmo porque não tem explicação. Enquanto o Brawn dormia, sonhava, acordava e mexia no carro quando e como quisesse as corridas eram ganhas. Agora deve ser um saco ter que explicar para meio mundo porque tem que fazer uma pequena alteração no desenho do carro.

PK

Paulo Levi disse...

Paulo,

Tem mais um ponto a se considerar nessa história: a diluição dos esforços da Mercedes depois da compra da Brawn GP. Não seria por isso que a McLaren vem perdendo terreno em relação à concorrência, e a Force India também?

Pessoalmente, penso que a Mercedes teria se dado muito melhor, em termos de imagem, se tivesse aparado as arestas na sua relação com a McLaren em vez de embarcar na aventura da equipe própria.

Um abraço,

Paulo

Joel Gayeski disse...

Maldita ganância.
Muito bom o texto Paulo. Nenhuma empresa vai fazer sucesso nas pistas se não deixar a equipe trabalhando por conta própria.

Paulo Levi disse...

Joel,

Obrigado pela visita e pelo seu comentário sobre esse texto!

Um abraço,

Paulo