segunda-feira, 19 de julho de 2010

O ano em que a F1 perdeu a virgindade

Quando a equipe Lotus estreou sua nova identidade visual com as cores dos cigarros Gold Leaf, no GP de Monaco de 1968, os puristas torceram o nariz. Até então, ninguém questionava que as cores dos carros da F1 deveriam ser as convencionadas para os países de origem das equipes: vermelho para as italianas, azul para as francesas, prata para as alemãs, branco para as japonesas. E verde para as inglesas - como a Lotus, que acabava de mandar para o espaço toda essa tradição.

Pior: com seu novo visual ouro e vermelho, a Lotus fazia propaganda de uma marca de cigarros. As objeções não diziam respeito aos malefícios do fumo, até porque naquele tempo pouca gente se preocupava com isso. É que cigarro era uma coisa espúria que nada tinha a ver com automobilismo, diferentemente dos pneus, lubrificantes e amortecedores cujas marcas apareciam de forma discretíssima nos carros da categoria.


Mas a Lotus ia além em sua transgressão, não poupando nem mesmo o nome da própria equipe, que de Team Lotus passava a ser Gold Leaf Team Lotus. O nome do patrocinador precedia o nome da equipe, um escândalo! Os europeus enxergavam nisso a mesma vulgaridade que se compraziam em ridicularizar no automobilismo americano, onde imperava o mais crasso comercialismo e ninguém dava a mínima para a tradição.

De fato, no outro lado do Atlântico o patrocínio era encarado de forma completamente diferente. Dos mais humildes midgets dos ovais de terra batida aos bólidos das 500 Milhas de Indianápolis, sua existência era aceita com a maior naturalidade do mundo. Da mesma forma, era natural que o nome da empresa patrocinadora passasse a designar não só a equipe patrocinada como também os seus automóveis, seja qual fosse o nome do construtor. Bastava acrescentar a palavra "special", e pronto.

Vários carros de corrida americanos entre as décadas de 30 e 60 ganharam uma notoriedade muito maior  do que as empresas que os patrocinavam. É o caso do Dean Van Lines Special, que leva o nome de uma companhia de mudanças californiana.


Ou então o Leader Card Special, que deve seu nome a uma empresa fabricante de cartões de boas festas, aniversários, condolências etc.


Havia ainda o Bowes Seal Fast Special, patrocinado por uma distribuidora de autopeças. (Bom, pelo menos esse tinha algo a ver com automóveis e automobilismo.)


Mas talvez o mais sugestivo de todos esses nomes fosse o do Olsonite Eagle, um projeto capitaneado pelo ex-piloto de F1 Dan Gurney. "Olsonite" vem a ser uma das principais marcas de assentos sanitários nos EUA. No caso do carro, você senta pra correr e não o contrário. (Sorry - não resisti.)


De volta à F1, muita água passou por debaixo da ponte desde 1968. Depois do escândalo provocado por aquele primeiro affaire com a Gold Leaf, a Lotus se envolveu com duas outras marcas de cigarros, a John Player Special e a Camel. A McLaren se juntou inicialmente com a marca de cosméticos Yardley, e depois com a Marlboro. Vieram as companhias aéreas, os bancos e outras empresas fumageiras - para não falar nos laticínios, nas seguradoras e nas cores unidas da Benetton. Com a ascensão de Bernie Ecclestone a big boss da categoria, "liberou geral" e os vendilhões tomaram conta do templo. E - suprema ironia - o carro que desponta como um dos mais fortes candidatos ao título deste ano leva o nome de uma bebida açucarada com supostos efeitos energéticos, lançada por um esperto empreendedor austríaco.

É, senhores puristas... eles venceram.

Imagens:  Lothar Spurzem/de.wikipedia (Lotus 49);  autosport.co.uk (Dean Van Lines);  Joe Scalzo (Leader Card Special); Bonhams (Bowes Seal Fast Special).

Clip art licensed from the Clip Art Gallery on DiscoverySchool.com 

2 comentários:

Charles disse...

Sr. Paulo Levi,

Tenho acompanhado seu blog há alguns dias e desde a primeira leitura se tornou reduto obrigatório para minhas passadas de olhos todas as manhãs.
Seus textos são realmente excelentes, de leitura extremamente leve e agradável.
Pretendo sempre continuar frequentador.

Paulo Levi disse...

Obrigado pela visita e pelo seu comentário, Charles - você será sempre muito bem-vindo aqui!