terça-feira, 6 de julho de 2010

Desencaminhado por um veoitão

Sempre gostei de carros pequenos. Talvez isso tenha começado como uma manifestação de rebeldia adolescente, já que meu pai era chegado a Buicks, Oldsmobiles e outros carrões americanos. O fato é que cresci sonhando com Fiat Abarths e Mini Coopers, aprendi a dirigir num Gordini, e mesmo depois de ter ido morar nos EUA continuei fiel aos carros pequenos (principalmente no contexto americano), começando por um Volvo e dois Opels.

Um dia, comecei a ouvir uma voz pecaminosa sussurrando que eu deveria, ao menos uma vez na vida, ter um carro americano com um motor V8 estupidamente potente, daqueles capazes de saltar por cima de um monte de arranha-céus enfileirados. Um Corvette seria a escolha óbvia, mas o magro salário do meu primeiro emprego não me autorizava a acalentar pensamentos do gênero. Assim, abafei a tal voz pecaminosa e esqueci do assunto.

Minha oportunidade de cair em tentação surgiu de forma inesperada dois anos depois, quando um amigo sugeriu que fossemos assistir, só de farra, a um leilão de veículos do governo do estado de Wisconsin.

No local do leilão, o que mais se via eram sedãs anônimos feitos sob medida para burocratas cinzentos. Mas havia também um lote de carros da polícia rodoviária, quase todos fábricados pela Chrysler e equipados com o seu lendário motor de 440 polegadas cúbicas.

Um deles piscou para mim: era um Plymouth Grand Fury 1976 azul escuro metálico. Assim como os demais carros daquele lote, havia recebido um banho de tinta para começar vida nova longe das fileiras da corporação. Estava em ótimo estado por fora e por dentro, e não tinha os cromados e a madeira fajuta que enfeiavam o interior da maioria dos carros americanos daquela época. Simpatizei com ele, mas comprá-lo era uma coisa que não passava pela minha cabeça.

 Imagem: Granfury/Wikimedia

Mas foi só o leilão começar para que aflorasse um surpreendente sentimento de possessividade em relação ao "meu" Grand Fury. Quando chegou a sua vez, levantei minha plaquinha para dar um lance. Alguém ofereceu mais. Cobri a oferta prontamente. O outro insistiu. Os lances já passavam dos novecentos dólares. Respirei fundo e mandei mil.

"Vendido para o cavalheiro ali por mil dólares!",  disse o leiloeiro apontando na minha direção.

Mesmo para os padrões de 1979, mil dólares era muito barato por um carro daqueles. A razão estava estampada na primeira página dos jornais do dia: "Crash do petróleo, preços disparam". Bom, pelo menos restava um quarto de tanque para que eu pudesse levar o bichão pra casa.

Já na primeira aceleradinha, antes mesmo de deixar o local do leilão, percebi que iria me divertir muito com o Grand Fury. E na rua, assim que pisei pra valer, fiquei com as costas coladas no encosto. O torque do motor 440 era simplesmente fenomenal - mesmo com todo o peso que tinha para carregar, a aceleração nada devia à de um carro esporte. Comparativamente, os automóveis brasileiros com motores V8, como o Dart e o Maverick, mais pareciam feitos para levar velhinhas à missa.

Fiquei com pena de qualquer contraventor que tivesse a temeridade de desafiar um Gran Fury. E com inveja dos policiais que passavam o dia ao volante de carros como ele.

Desviei para um caminho secundário, com muitas curvas e pouca fiscalização, e nova surpresa: ali também, o carro se comportava como um esportivo, com uma direção firme e bastante direta e praticamente nenhuma inclinação da carroçaria. Eu ainda não sabia, mas a sua suspensão era a do pacote "Pursuit", especialmente desenvolvido pela Chrysler para os veículos destinados às polícias rodoviárias, com molas e amortecedores mais duros e barras estabilizadoras mais parrudas. De quebra, o pacote compreendia um diferencial autoblocante e freios superdimensionados.

Para o meu gosto, o Grand Fury era até melhor que um Corvette por ser um legítimo Q car, um lobo em pele de cordeiro. Pagando o que eu paguei, então, foi como ter ganho na loteria

Os próximos meses foram só alegria. No calor do verão americano, eu ia e vinha do trabalho no ambiente climatizado do Gran Fury - e, em momentos estratégicos, aproveitava para soltar as rédeas do gigantesco motor 440 alimentado por um igualmente gigantesco carburador quadrijet, bramindo poderosamente através de dois canos de escape de grosso calibre. Que Corvette, que nada: aquilo era quase tão bom como um Facel Vega ou um Jensen Interceptor, não por acaso impulsionados por motores V8 big block da Chrysler.

Imagem: arquivo pessoal do autor

Mas aí, a dura realidade veio se intrometer nesse cenário idílico. O consumo de combustível doia no bolso. Os moradores da cidade olhavam torto para aquela baleia gastadora e seu dono politicamente incorreto. Um novo jogo de pneus, que já se fazia necessário, custava mais que a metade do que eu havia pago pelo carro.

No início da primavera do ano seguinte, o meu salário já havia aumentado o suficiente para permitir que eu pensasse em comprar um carro zero km. E assim, mesmo com dor no coração, vendi o Gran Fury para um tiozinho sessentão que rescendia a cigarros e uisque. Espero que não tenha se metido em encrenca.

Graças ao meu ascendente poder aquisitivo, comprei um Mitsubishi Colt - meu primeiro carro japonês. Pequeno, como todos os carros que eu tinha tido antes do Gran Fury. Econômico, socialmente responsável, gostoso de dirigir. Tudo a ver comigo.

E assim, voltei à minha normalidade automobilística. Outro carro pecaminoso como aquele Gran Fury, nunca mais.

Epílogo: depois que deixaram de ser fabricados, o Plymouth Gran Fury e seu irmão gêmeo, o Dodge Monaco, teriam caido no esquecimento se não fosse a dupla de comediantes John Belushi e Dan Aykroyd, que escalou um deles - no caso, um Dodge Monaco 1974 - para ser o seu carro no filme Blues Brothers, de 1980.  Batizado com o nome de Bluesmobile, o carro ganhou enorme popularidade e tornou-se mundialmente conhecido.


Imagem: divulgação

2 comentários:

Marcelo Augusto disse...

Que experiência fantástica vc teve hein!!

Paulo Levi disse...

É, Marcelo... foi bom enquanto durou.