quarta-feira, 30 de junho de 2010

Rodando o mundo numa F1000

"Volta ao Mundo no meu Muchileiro", de Roberto Cazenave - 309 páginas - Fundação Rio Madeira, 1998.

Roberto Cazenave é um sonhador, mas é também um homem com os pés no chão. "Não pretendo fazer deste livro uma obra literária", diz ele, "tampouco parecer herói. Isso não existe mais".

Em termos literários, é bem verdade que a prosa de Cazenave não se equipara à de um Paul Theroux. Mas a viagem que ele relata em seu livro - uma volta ao mundo com mais de dois anos de duração, iniciada quando já se aproximava dos sessenta e tendo por companhia apenas uma picape Ford F1000 - só pode ser definida como uma empreitada heróica.

Mesmo antes dessa viagem, a vida de Roberto Cazenave daria um incrível filme de aventuras. Nascido em Paris em 1934, teve a infância truncada pelos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Uma vez encerrado o conflito, ansioso por recomeçar a vida longe daquele cenário de dor e destruição, veio para o Brasil em companhia do pai - que de pronto estranhou os novos ares e decidiu voltar à França. Roberto recusou-se a acompanhá-lo e acabou ficando.Tinha doze anos de idade na ocasião.

Em seus primeiros tempos de Brasil, Roberto fez de tudo para sobreviver: foi  carregador de caminhões, lavador de aeronaves, servente de pedreiro, ajudante de mecânico. Se embrenhou na selva amazônica, trabalhou como garimpeiro e seringueiro, contraiu malária, passou fome. Doente e sem recursos para se tratar, foi para a Guiana Francesa, onde foi preso ao desembarcar e incorporado compulsoriamente ao exército francês. De lá, foi despachado para a Martinica - e preso novamente, desta vez por indisciplina. Continuou cumprindo suas obrigações militares em Marrocos e no sul da França, e ao ser dispensado deu um jeito de voltar ao Brasil.

Em sua segunda passagem pelo país, a sorte lhe foi mais amiga. Eram os tempos da construção de Brasília e da interiorização do desenvolvimento, e Cazenave participou, como motorista de caminhão, da inauguração das primeiras rotas rodoviárias para Rondônia. Estabeleceu-se em Porto Velho, onde trabalhou como vendedor de caminhões em uma concessionária Ford antes de ser nomeado concessionário da Chrysler (e, posteriormente, da Volkswagen). Finalmente, em 1986, desfez-se de seu negócio para realizar um sonho de infância: dar a volta ao mundo de automóvel.

É aí é que entra o Muchileiro (assim mesmo, com u no lugar do o e inicial maiúscula) da história, apelido dado a uma picape Ford F1000 diesel com tração 4x4, especialmente adaptada para a aventura. Inicialmente, Cazenave fez com ela um giro pela América do Sul para certificar-se de sua aptidão para enfrentar uma volta ao mundo. Aprovado o veículo e feitos alguns pequenos ajustes, partiu para a grande aventura que o levaria a 38 países em quatro continentes.

A viagem é narrada ao estilo de um diário de bordo. Em alguns registros, o relato é factual, quase lacônico. Em outros, Cazenave se alonga sobre situações adversas ou inusitadas que encontrou pelo caminho, como seus esforços para impedir que um bando de zelosos soldados venezuelanos cortasse o estofamento e os pneus do Muchileiro à procura de drogas. Ou a incômoda companhia de um "sombra" do governo iraniano, imposta como condição para que pudesse entrar no Irã pela fronteira turca e atravessar seu território em linha reta até sair pela fronteira com o Paquistão, sem poder tirar uma foto sequer e parando apenas para comer, ir ao banheiro e dormir.

Consciente da importância de falar inglês, Cazenave tem grande dificuldade com o idioma - o que acaba rendendo alguns dos trechos mais cômicos do livro. Logo na fronteira entre o México e os EUA, percebe que só consegue se comunicar com as autoridades americanas através da mímica. Decide suprir essa lacuna matriculando-se num curso de inglês para estrangeiros em Phoenix, no Arizona. Mas como a maioria de seus colegas é de origem hispânica, acaba aprendendo mais o espanhol do que o inglês.

Cazenave desiste do curso e segue adiante. Bem ou mal, vai se virando com seus parcos recursos linguísticos - até o dia em que decide visitar uma comunidade de aborígenes no interior da Austrália:
Quando disse que não falava inglês, ficaram com tanta raiva que pensei que fossem me dar uma surra. Certamente eles não concebiam que uma pessoa pudesse visitá-los sem saber falar inglês, devem ter deduzido que estava fazendo pouco caso deles. Dei a volta e fui logo dizendo: EXCUSE ME PLEASE, EXCUSE ME PLEASE, EXCUSE ME PLEASE. 
É a palavra chave para fazer a volta ao mundo.

Apesar da rigorosa tabela de marcha a ser cumprida, Cazenave sempre encontra um meio de interagir com os moradores das regiões por onde passa. Pernoita em albergues, visita mercados populares, hospeda-se na casa de surfistas. A companhia que mais o encanta é a das pessoas simples que aparecem pelo caminho. Gente como mecânicos, taxistas, vendedores de cachorro quente, motoristas de caminhão. No caso destes últimos, há uma empatia que vem dos tempos em que Cazenave ganhou a vida como carreteiro.

Mesmo com tudo o que passou na vida - a começar pelas atrocidades de guerra que o privariam para sempre do convívio de sua mãe - Cazenave continua a crer na bondade inerente do ser humano. A injustiça e o sofrimento que observa em vários pontos do caminho lhe causam indignação e dor. Na Russia, ao parar em um restaurante de beira de estrada, nota que um menino de uns seis ou sete anos o observa com uma espressão melancólica:
Pensei que estivesse com fome e pedi um prato para ele. Mas pela sua maneira de comer, percebi que a tristeza não era fome, ele estava somente encantado comigo, como se eu tivesse chegado da lua. Terminado o almoco, mostrei o Muchileiro aos funcionários do restaurante, que ficaram admirados. Mas não deixava de prestar atenção no garoto, que me seguia passo a passo com os olhos vidrados. Peguei-o nos braços e o coloquei no assento do Muchileiro. Parecia satisfeito mas não demonstrou alegria. Fiquei muito triste, deu vontade de levá-lo comigo. Segui viagem com lágrimas nos olhos, recordando a infância e pensando na trajetória da minha vida (...) Será que algum dia aquele garoto vai poder realizar seus sonhos?

E o Muchileiro? De modo geral, comportou-se exemplarmente nos quase 84 mil km percorridos, do frio extremo do Finlândia ao tórrido outback australiano, das impecáveis expressways americanas às pirambeiras do Afeganistão. Seu ponto nevrálgico foi o diferencial, com várias quebras registradas ao longo do caminho, na maioria das vezes solucionadas somente graças às habilidades mecânicas e à capacidade de improvisação de Cazenave. Por onde passou, a F1000 brasileira despertou a simpatia das pessoas e posou para inúmeras fotos. E em muitas noites, principalmente nos lugares mais ermos, serviu de abrigo ao seu dono.


Mesmo com suas falhas, inevitáveis num livro de autor não profissional e produção quase caseira, "Volta ao Mundo no meu Muchileiro" é uma leitura envolvente. Há em suas páginas a simplicidade e a espontaneidade das coisas autênticas, que cativam e fazem sonhar. Para quem já pensou em ver o mundo pelo parabrisas de seu próprio automóvel, a viagem de Roberto Cazenave e seu Muchileiro é uma verdadeira fonte de inspiração, um lembrete de que, por mais difícil que possa parecer o caminho, os sonhos estão aí para serem realizados.


Imagens: Roberto Cazenave

Exemplares novos de "Volta ao Mundo no meu Muchileiro" ainda podem ser obtidos diretamente com o autor, Roberto Cazenave, pelo e-mail rcazenave@uol.com.br.  Para exemplares usados, procure no portal Estante Virtual (http://www.estantevirtual.com.br). 

6 comentários:

Felipe Mortara disse...

Como me dá vontade de cair no mundo de novo, tu nem imagina, MR. Levi.
Fiquei feliz demais em te ver feliz e surpreso com todos lá na sua casa ontem! Foi uma festa bem bonita e divertida, né meninão?!
Comprei o livro hoje pelo estante virtual, junto com mais um monte que sempre quis ler. E reler.

um abraço! e muitas viagens, sempre!

Anônimo disse...

uma aventura e tanto a bordo de um ford f-1000 parabens isso e pra poucos.

cristiano henrique disse...

prabens!"

Paulo Levi disse...

Felipe, Anônimo e Cristiano Henrique, fico feliz que vocês tenham gostado. Obrigado pela visita - e voltem sempre!

Cesar disse...

Ola Paulo, parabens pela tua vitalidade, tambem estou concretizando o projeto do meu motorhome artesanal ( Ford Ibiza) e voce é uma grande inspiração para mim, mostrando que os sonhos tornam-se realidade quando se quer apesar das adversidades da vida. Vou adquirir seu livro para fortalecer o meu referencial em voce.
Se puder visite o meu forum tua visita será de grande satisfação:
http://www.4x4brasil.com.br/forum/frota-4x4-brasil/113368-casa-artesanal-ford-ibiza.html#post1830852

Paulo Levi disse...

César,

Muito obrigado pelo elogio! Contudo, devo esclarecer que o autor desse livro não sou eu mas sim Roberto Cazenave, infelizmente falecido no início deste ano. Tive o prazer de conhecer Roberto no Salão do Automóvel de SP em 2001 (ou 2002, não tenho certeza), onde ele expôs o seu "Muchileiro" e onde comprei o o meu exemplar do livro. Recomendo muito a sua leitura, é realmente um livro inspirador.

Muitas felicidades com o seu motorhome, e obrigado pela visita!

Um abraço,

Paulo