terça-feira, 15 de junho de 2010

A primeira de Emerson na F1, uma memória pessoal


Lembro exatamente de onde eu estava quando soube que Emerson Fittipaldi havia vencido seu primeiro GP: no subsolo de uma igreja no midwest americano. Era uma fria noite de domingo, e lá estava eu como integrante de um grupo de brasileiros que estudavam na Universidade de Wisconsin. Havia muitos novatos no grupo (inclusive eu), e os encontros ocasionais naquele espaço cedido pela igreja serviam para conhecer ou rever os colegas brazucas e jogar conversa fora sobre a universidade, o Brasil e a vida.

O papo já vinha rolando há algum tempo quando chega um retardatário: o carioca Cláudio Frischtak, hoje economista de renome. Frischtak, normalmente um sujeito falante e entusiasmado, estava mais falante e entusiasmado do que nunca: "O Emerson ganhou o Grande Prêmio dos Estados Unidos!"  E como muita gente ali parecesse não ter a menor idéia do que ele estava falando, Cláudio deu uma ajudazinha: "O Emerson Fittipaldi, um corredor de automóveis brasileiro!"

(Aqui, cabe um esclarecimento: em 1970, a Fórmula 1 ainda não tinha grande destaque na mídia brasileira e praticamente nenhum na americana, onde os resultados das corridas eram publicados - isso, quando eram - na penúltima página do caderno de esportes, espremidos entre os resultados do arremesso de peso e do minigolfe. Televisão, nem pensar.)

Fiquei felicíssimo com a notícia trazida pelo Cláudio. E muito surpreso também: afinal, Emerson era praticamente um estreante na F1. Fazia pouco mais de um ano que saíra do Brasil para competir na Formula Ford inglesa, e o GP dos EUA era apenas sua quarta participação na categoria. Na história da F1, contavam-se nos dedos de uma mão os pilotos que haviam chegado ao degrau mais alto do pódio em tão pouco tempo.

No redemoinho de pensamentos desencadeado pela notícia, um flashback me levou de volta ao dia em que conheci Emerson. Foi em 1964, em um torneio de autorama realizado pela fabricante de brinquedos Estrela, e Emerson estava lá como primeiro piloto de sua própria equipe, a Scarab. Para mim e para quase todos os outros concorrentes, aquele garoto de dezessete anos até podia ser um cara bacana, divertido, bom piloto de autorama e tudo mais, mas sua principal qualificação era ser o irmão mais novo do Wilson Fittipaldi Jr., este sim um dos maiores nomes do automobilismo nacional.


E agora, apenas seis anos depois, ele mesmo, o irmão mais novo do Wilsinho, acabava de se tornar o primeiro brasileiro a vencer uma prova da Fórmula 1. Incrível!

Se hoje estamos acostumados a pensar no Brasil como um celeiro de grandes pilotos, é bom lembrar que Emerson Fittipaldi foi um dos maiores responsáveis por isso - talvez o maior de todos, por ter derrubado barreiras que estavam em pé desde a volta de Chico Landi ao Brasil. Sua primeira vitória na F1, no dia 4 de outubro de 1970 em Watkins Glen, foi um verdadeiro divisor de águas, representando para o automobilismo brasileiro o mesmo que a conquista da Copa de 1958 representou para o nosso futebol. É por isso mesmo que, ao completar 40 anos, ela merece ser festejada com todas as honras reservadas aos  feitos mais significativos do nosso esporte.

Imagens: revista Road and Track (Emerson ao volante do Lotus 72); revista Autoesporte (Emerson e seu navegador, Roberto Lima, participando de um rali em 1965). 

Nenhum comentário: