domingo, 30 de maio de 2010

A ressurreição do velho Fiat

Em 1980, quando eu vivia nos EUA, comprei um Fiat 128 Sport Coupé. Era um modelo 73 vermelho e estava nos fundos de uma oficina já havia algum tempo, em estado de aparente abandono. Precisava de reparos no motor, mas depois de receber o orçamento seu proprietário não havia mais dado sinais de vida

De posse do endereço do sujeito, bati à porta de sua casa. Atendeu de mau humor, estava assistindo a um jogo de futebol americano pela TV. Quando mencionei o motivo de minha visita, não se conteve: "O que, ainda não levaram aquele piece of shit pro desmanche"? E então, recobrando a compostura ao perceber que aquele trouxa à sua frente poderia lhe render um dinheirinho: "Quer o carro? Me dê 50 dólares, que ele é seu".  

Certificado de propriedade na mão, levei o Fiat - que estava inteiro mas visivelmente maltratado -  a um mecânico de confiança, o qual refez o motor por módicos quatrocentos dólares. Usando cera, massa de polir e muita força na munheca, fiz o vermelho da pintura voltar à vida. Transferi para o carro os pneus diagonais de um Mitsubishi Colt que eu acabara de comprar e no qual havia colocado um jogo de radiais Michelin.

Algumas semanas depois, num inacreditável golpe de sorte, passei em frente a um posto de gasolina onde havia à venda um Fiat idêntico ao meu, inclusive na cor. O carro estava sem  motor e câmbio, mas o que eu queria mesmo eram algumas latarias e peças de acabamento que estavam em melhor estado que as do meu carro. Assim, com mais uma nota de 50 dólares, tornei-me proprietário de mais um 128 Sport Coupé.

Com as peças retiradas desse parts car e mais alguns cuidados, meu Fiat ficou bem apresentável. Usei-o como segundo carro por quase um ano, e então o vendi por US$ 950.00. Não sei quanto gastei para deixá-lo em ordem, mas estou certo de que não perdi dinheiro.


Alguns meses depois, vi o meu ex-Fiat estacionado na rua. Estava com quatro pneus radiais novinhos e um equipamento de som de boa marca. Tinha um ar saudável, nunca o havia visto tão bonito.

Fiquei duplamente feliz em ver que o novo proprietário estava cuidando bem do carro, e em saber que eu provavelmente havia evitado que aquele Fiat velhinho mas ainda cheio de vida virasse sucata.

Quem sabe se aquele mesmo Fiat ainda não está neste plano existencial, talvez restaurado ao seu primitivo esplendor, rodando por alguma rua ou estrada ou até mesmo faturando uns prêmios em encontros de automóveis antigos?


Imagens: arquivo pessoal do autor; Ricardo Taipa/Portal dos Clássicos (vista de perfil).

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