terça-feira, 4 de maio de 2010

Museu da Ulbra, um caso de assassinato cultural


Muito mais do que um museu de automóveis, o Museu da Ulbra foi uma parte importante do patrimônio cultural gaúcho e brasileiro. Com peças de grande valor histórico e instalações que arrancariam elogios em qualquer lugar do mundo, tinha tudo para ser uma atração turística e cultural de primeira grandeza, em benefício das economias do Rio Grande do Sul e do Brasil - além de motivo de orgulho para os cidadãos do estado e de todo o país.


Hoje desativado, seu prédio desocupado, os veículos de seu acervo leiloados e dispersos aos quatro cantos, o Museu da Ulbra é apenas uma recordação.

Para usar uma construção verbal bem ao gosto de certas figuras públicas: aparentemente, tem gente neste país que acha que já temos um número excessivo de bons museus de automóveis, e que acabar com um museu como esse não faz a menor diferença.

Não vou entrar no mérito do quid pro quo envolvendo o ex-reitor da Ulbra, os sindicatos e a União - mas nada justifica esse assassinato cultural.

No Irã, até mesmo Ahmadinejad e seus seguidores souberam reconhecer a importância da coleção do execrado Xá Reza Pahlevi para o patrimônio cultural daquele país - tanto é que a transformaram no Museu Nacional Iraniano do automóvel (para conhecer, clique aqui). Talvez alguém devesse ter convidado Ahmadinejad para dar umas aulas de bom senso às partes envolvidas no imbróglio da Ulbra.

Para citar um caso ocorrido em um país um pouco menos sui generis do ponto de vista institucional, é preciso retroceder à França do final dos anos setenta. Para escaparem às dívidas com o fisco e à furia dos trabalhadores com salários em atraso, dois excêntricos empresários - os irmãos Hans e Fritz Schlumpf - fugiram para a Suiça abandonando sua indústria de fiação e tecelagem e a fabulosa coleção de automóveis que haviam instalado secretamente em um de seus edifícios. Diferentemente do que ocorreu no Brasil no caso da Ulbra, o governo francês interveio para assegurar a integridade do acervo, tombando a coleção para posteriormente transferir sua guarda a uma complexa rede de parcerias publico-privadas incluindo, entre outros, o grupo PSA (Peugeot e Citroën), as administrações do município de Mulhouse e da região da Alsácia, o Automóvel Clube da França e o Comitê do Salão do Automóvel de Paris. A coleção Schlumpf foi mantida intacta, formando a base do que é hoje o mais espetacular museu de automóveis da França e da Europa, o Musée National de l'Automobile.

No caso da Ulbra, muito menos complexo que o da coleção Schlumpf, o mínimo que se pode dizer é que uma entidade setorial da importância da ANFAVEA, que congrega todas as montadoras brasileiras, não poderia ter se omitido diante dos acontecimentos - até porque boa parte do acervo do museu era formada por veículos de fabricação nacional.

Nesse triste cenário, coube à GM do Brasil desempenhar um papel dos mais lamentáveis. Quando a crise da Ulbra se aprofundou, a montadora apressou-se em retirar do museu os trinta e tantos automóveis que lhe havia cedido em comodato. Até aí, nada a criticar - a GM do Brasil estava no seu direito ao impedir que aqueles carros fossem feitos reféns de batalhas judiciais. Só que em vez de encontrar uma nova acomodação (ainda que provisória) para eles, o que fez a empresa? Decidiu vendê-los. Passá-los nos cobres, como se diz. Para justificar a decisão, usou o fato, igualmente lamentável, da matriz americana ter vendido (por conta da crise da empresa nos EUA) vários carros de seu Heritage Center, um museu particular e de acesso restrito, um ato de ritualística corporativa que expõe um lado nada racional do comportamento das grandes corporações além de não ter o menor nexo com a situação de sua subsidiária brasileira.

Assim, em setembro de 2009, a GM do Brasil se desfazia desses carros (vários dos quais havia recebido em doação) em um discreto leilão aberto apenas às suas concessionários de maior cacife. Das 35 que estavam habilitadas a participar, só 16 o fizeram. No final, a maioria dos carros foi arrematada por um único grupo de concessionárias - que certamente nunca teve a menor intenção de mantê-los juntos, muito menos de os expor em outro museu.

No contexto da tragédia do Museu da Ulbra, esse episódio é apenas um apêndice. Mas ele deve ser mencionado porque, nestes tempos em que as empresas não podem se dar ao luxo de ignorar suas responsabilidades sociais e culturais, ele foi uma enorme oportunidade perdida pela GM para sinalizar o seu compromisso com o país, com os consumidores brasileiros e com as pessoas que ao longo de décadas foram fiéis defensoras da marca Chevrolet. Outras empresas, no setor automotivo ou não, fariam bem em meditar sobre as implicações de um episódio como esse.

Como um post scriptum pessoal, aqui está um vídeo que dá um pouco a idéia do que foi o Museu da Ulbra. Anos atrás, quando sonorizei esse vídeo, achei que a trilha tinha um tom agridoce porém equilibrado; hoje, quando a ouço, predomina o lado amargo.



Imagens: arquivo pessoal.
Agradecimento especial a Beto Zabrockis pela edição de vídeo.
Música: "Merlin", de Lars Gullin, com o autor. Dragon Records DRCD 244, 1994.

7 comentários:

Carrasco disse...

Infelizmente a disputa pessoal de um magistrado, impediu que tal conteudo historico fosse preservado uma vez que prefeitura e empresarios efetuaram propostas para manter viva a historia automobilistica! Mas que interessa a historia quando o prazer pessoal é maior e faz bem para seu ego!

Canoense inconformado disse...

Essa é a diferença entre a França e o Brasil. Enquanto nós, indios, nos preocupamos com picuínhas, perdemos um dos melhores acervos do mundo. Perdeu Canoas, um cidade satélite de POA que tinha no museu algo para se orgulhar. Se fosse na França, o juiz já teria sido afastado, por não ter sensibilidade para a quetão cultural. Isso sem falar nos gestores da atual Ulbra, que movidos pelo ódio vão ter que levar nos seus currículos essa vergonha. A história não vai perdoar.

Paulo Levi disse...

Carrasco e Canoense,

Para mim, uma das coisas mais absurdas foi a declaração dada pela assessoria de imprensa da atual Ulbra (conforme matéria no jornal Zero Hora) de que a universidade deve ter como foco o ensino e não um museus de automóveis - como se as duas coisas fossem incompatíveis, e não complementares. Se eu fosse prestar vestibular nos dias de hoje, manteria distância de uma escola com uma visão tacanha como essa.

ovisual disse...

Puxa, quem diria que ve.iculos podiam ser assacinados em massa.
Se nem um dos bastiões, de beleze e elegância, de um dos primeiros objetos de culto do homem maderno (e de algumas mulheres também) resiste a ignorância e a decisões tacanhas dos pequenos poderes, podemos esperar que o museu do futebol um dia seja considerado apens um depósito de baboseiras esportivas sem valor.
Como uma entidade como a ULBRA pode dizer que seu foco é o ensino quando desrespeita a história.

ovisual disse...

Puxa, quem diria que ve.iculos podiam ser assacinados em massa.
Se nem um dos bastiões, de beleze e elegância, de um dos primeiros objetos de culto do homem maderno (e de algumas mulheres também) resiste a ignorância e a decisões tacanhas dos pequenos poderes, podemos esperar que o museu do futebol um dia seja considerado apens um depósito de baboseiras esportivas sem valor.
Como uma entidade como a ULBRA pode dizer que seu foco é o ensino quando desrespeita a história.

Anônimo disse...

Éra só a antiga Reitoria não ter roubado tanto! assim tudo estaria bem!

Paulo Levi disse...

Anônimo,

Primeiramente, obrigado pela visita e pela participação. Como eu disse no post, não pretendo entrar no mérito das questões referentes às disputas entre a Ulbra e as demais partes envolvidas nesse contencioso. Apenas lamento que não tenha sido encontrada uma solução para preservar o acervo de um museu que já fazia parte, de fato se não de direito, do patrimônio cultural do Rio Grande do Sul e do Brasil.