quarta-feira, 19 de maio de 2010

Enzo Ferrari e o Maserati da discórdia

Que Enzo Ferrari tinha uma personalidade difícil não é segredo para ninguém. Seus rompantes na condução dos assuntos de sua empresa, tanto na fábrica como nas pistas, entraram para a história. Basta pensar na venda da Ferrari à Ford, mandada às favas no último minuto. Ou na demissão sumária de grandes pilotos como Phil Hill e John Surtees. Até um supercampeão como Fangio, vencedor do mundial de F1 de 1956 pela Ferrari, provavelmente teria sido demitido se não tivesse se mudado para a arquirival Maserati, pela qual conquistaria seu quinto título em 1957.


O fato de Fangio ter ido para a Maserati deixou o Commendatore bastante aborrecido, até porque a rixa com essa concorrente, sua antiga vizinha em Módena, vinha de longa data. Nos anos trinta, quando a Scuderia Ferrari tinha sua base naquela cidade e ainda atuava como braço de competições da Alfa Romeo, Enzo era visto com reservas pelo establishment modenês. Em parte, por ser uma espécie de "agente do imperialismo" da Alfa Romeo, símbolo do poderio industrial milanês, e em parte pelo fato da Maserati ser o orgulho da cidade desde que a influente família Orsi a comprara a Alfieri Maserati e seus irmãos, transferindo-a de Bolonha para lá. Além disso, pesavam contra Enzo seus modos um tanto ríspidos e sua mal disfarçada falta de modéstia. Segundo o escritor e fotógrafo Beppe Zagaglia, "nós modeneses torciamos pela Maserati, o sonho de todos nós era ter um Maserati - a Ferrari era um corpo estranho na nossa pequena cidade".

Com as primeiras vitórias em corridas no final da década de 40, já com os automóveis de sua fabricação, a Ferrari começou a ganhar status e simpatizantes. Em meados dos anos 50 a rivalidade com a Maserati havia chegado a tal ponto que, nas palavras de Romolo Tavoni, chefe da equipe do Cavallino Rampante, "quem trabalhava na Ferrari sabia que jamais seria contratado pela Maserati, e vice versa". Depois que Fangio trocou a Ferrari pela Maserati, então, essa rivalidade ganhou contornos de uma verdadeira guerra.

Mas o Maserati que realmente tirou Enzo do sério não foi o 250F de Fangio. Na verdade, nem foi um modelo de competição, e o episódio aconteceu muitos anos depois, já na década de 80.


Foi em maio de 1983, para ser mais exato, quando o então presidente da Itália, Sandro Pertini, apareceu em Maranello para uma visita oficial à Ferrari. Em um país onde a política sempre foi marcada por sectarismos e manobras de bastidores, Pertini era um personagem singular: durante a guerra, se distinguira na resistência ao fascismo, e como presidente era uma unanimidade nacional, muito acima de qualquer picuinha político-partidária. Na ocasião da visita tinha 84 anos, dois a mais do que Enzo.

Pertini chegou a bordo da viatura oficial da presidência italiana, uma limousine Maserati Quattroporte azul escuro. Estava certo de que Enzo Ferrari o estaria esperando na entrada da fábrica, como mandava o protocolo.


Só que, para sua surpresa, Ferrari não estava lá. Ao ver por uma janela a aproximação do Maserati presidencial, il Drake (como era tratado pela imprensa italiana) ficou possesso. Era inadmissível que um visitante - qualquer visitante - aparecesse na sua fábrica em um carro de uma marca inimiga como a Maserati. "A velhice me atacou as pernas", bufou Enzo, "mas no caso dele atacou a cabeça". E recolheu-se ao seu escritório.

Em frente à fábrica, irritado e sem entender o motivo da ausência do anfitrião, Pertini recusava-se a desembarcar do Maserati presidencial. A tensão estava no ar; qualquer fagulha poderia detonar um incidente diplomático.

No escritório de Enzo, o veterano assessor de imprensa Franco Gozzi tentava convencer o chefe a abrandar sua posição. Mas este não queria conversa:  "Vá buscá-lo e acompanhe-o até aqui", ordenou. "Não creio que isso seja apropriado", ponderou Gozzi, "o senhor deveria ir até ele, essa é uma deferência devida a um chefe de estado". Enzo subiu nas tamancas: "Eu não o convidei, foi ele quem quis me visitar. Posso até me sentir honrado - mas quem decide como recebê-lo sou eu."

Diante do impasse, Gozzi percebeu que para minar as resistências do Commendatore teria de recorrer a todos os conhecimentos sobre a psicologia ferrariana acumulados ao longo de muitos anos de convivência. Ao cabo de alguns minutos que mais pareceram horas, conseguiu convencê-lo a ir até a portaria da fábrica.

E assim, o encontro entre Ferrari e Pertini se deu como se nada de mais tivesse acontecido. Quem viu a cena garante ter sido uma performance digna de dois grandes atores. Ao avistar a figura de Ferrari, Pertini saltou do Maserati presidencial saudando-o com um efusivo "Caro Ferrari...."  E Enzo, dando-lhe um caloroso aperto de mão: "Presidente, que honra..."


Texto baseado em relatos de Karl Ludvigsen, Oscar Orefici e Pino Allievi. 

Imagens: site www.maserati.com (Fangio no Maserati 250F - GP de Mônaco, 1957); site www.corriere.it (fachada fábrica Ferrari); Emmeci Eventi (Maserati presidencial); Il Sole 24 Ore/Presidenza della Repubblica (Enzo Ferrari e Sandro Pertini respectivamente, em fotomontagem  do autor).


Agradecimento especial a Enrico, do portal Enrico's Maserati Pages (http://www.maserati-alfieri.co.uk/)

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