domingo, 4 de abril de 2010

Pilotos de sangue azul (Parte 3 - Final)

Desde o início da Fórmula 1, em 1950, passaram-se nada menos de 44 anos até que um alemão se sagrasse campeão mundial da categoria. Mas muito antes de Michael Schumacher, outro alemão quase havia conseguido chegar lá. Só não conseguiu porque o destino não quis.

Esse outro alemão era o Conde Wolfgang Berghe von Trips. Como o Marquês de Portago, não era muito chegado aos bancos da escola - mas sabia se virar e falava cinco idiomas fluentemente. Afável, extrovertido e boa pinta, foi um dos pilotos mais carismáticos de sua geração.


Estreou guiando para a Porsche em provas para carros esporte, obtendo vitórias em sua categoria logo de cara. De lá foi para a Mercedes-Benz - na época, uma marca muito maior e mais poderosa que sua vizinha de Stuttgart. Mas logo em seguida a Mercedes se retirava das pistas, e von Trips voltava para a Porsche.

Em pouco tempo, seus bons resultados lhe valeram um convite para correr pela Ferrari - já naqueles tempos, o sonho dourado de qualquer piloto.

Logo em seu primeiro ano na equipe italiana, quase ganhou a Mille Miglia. Aliás, certamente teria ganho se não tivesse permitido que o veterano Piero Taruffi - que em 12 participações nunca havia vencido a prova, e que vinha enfrentando problemas de câmbio surgidos na última hora - cruzasse a linha de chegada à sua frente. Esse gesto deixa claro que a nobreza de von Trips não era só uma questão de linhagem, como também de caráter.


Von Trips havia começado bem na Ferrari. Mas a ânsia em se destacar fez que se envolvesse em uma sequência de acidentes que lhe valeram o apelido de "von crash". Enzo Ferrari resolveu dar um basta naquilo e colocou o alemão de castigo, afastando-o da equipe.

No final de 1959, von Trips recebia um convite para voltar à Ferrari. Desta vez, estava bem mais centrado; aprendera a conciliar velocidade e controle emocional, e já não se envolvia mais em acidentes. Em resumo, começava a despontar como um potencial campeão do mundo.

Em 1960, os monopostos da Ferrari estavam tecnologicamente defasados em relação aos seus concorrentes ingleses na F1. Mesmo assim, permitiram que von Trips (que à essa altura já havia recebido dos colegas um apelido mais afetuoso, "Taffy") conquistasse suas primeiras vitórias na categoria.

Para o campeonato de 1961, a Ferrari tinha um modelo inteiramente novo que se revelara competitivo desde os primeiros testes. Ao seu volante, "Taffy" von Trips venceria os GP's da Holanda e da Inglaterra, acumulando pontos suficientes nas provas seguintes para chegar à penultima etapa do ano - o GP da Itália, em Monza - na liderança do campeonato.

E então, a mão pesada do destino se abateu com toda a força contra ele. Na segunda volta do GP, houve um toque de rodas entre seu carro e a Lotus de Jim Clark. Um toque relativamente leve, mas forte o suficiente para desequilibrar os dois carros. Clark saiu ileso, mas Von Trips não: bateu numa cerca de proteção e foi atirado para fora de sua Ferrari, não resistindo aos ferimentos.

O americano Phil Hill, seu companheiro de equipe, venceria aquele trágico GP - e, por apenas um ponto de diferença, também o campeonato de 1961. Hill só foi informado da morte de von Trips depois da bandeirada de chegada. Para ele, as conquistas daquele dia vieram acompanhadas de um gosto amargo que jamais haveriam de perder.


Diferentemente de von Trips e de Portago, que corriam para vencer, o Conde Carel Pieter Antoni Jan Hubertus Godin de Beaufort corria para se divertir. Ao volante de seu velho Porsche cor de laranja, já se dava por satisfeito quando marcava alguns pontinhos - aliás, foi o primeiro piloto holandês a pontuar em um mundial de F1.


De Beaufort era um tremendo gozador, daqueles que perdem o amigo mas não perdem a piada. Certa vez, alinhou para um GP com uma peruca de Beatles no lugar do capacete. Às vezes, andava descalço pelos boxes. Sua irreverência deixava os cartolas do automobilismo profundamente irritados. Mas os outros pilotos gostavam muito daquele holandês esquisitão.

Apesar de suas origens aristocráticas, de Beaufort vivia sem dinheiro. Mas sempre dava um jeito de convidar os amigos para uma festinha no castelo da família. 

Não era mau piloto: com aquele velho Porsche, nem o melhor piloto do mundo conseguiria fazer algo que prestasse. De Beaufort contentava-se em andar no pelotão de trás, apostando em sua regularidade para conseguir terminar as provas - o que de certa forma ajudava a mantê-lo a salvo de acidentes. Mas também tinha outro bom motivo para pilotar de maneira ajuizada: a crônica falta de recursos de sua equipe, uma operação caseira em que até mesmo o conde era obrigado a por a mão na graxa.


Por isso mesmo, todos ficaram surpresos no treino para o GP da Alemanha de 1964, quando o Porsche de Beaufort saíu da pista e se chocou contra uma árvore numa das curvas do Nurbürgring.  À primeira vista, não parecia ser nada de muito grave - o carro havia sofrido poucos danos, e o piloto havia até feito piadas sobre o acidente ao falar com a equipe de primeiros socorros. Mas infelizmente a realidade era outra: de Beaufort havia sofrido uma fratura da coluna vertebral, vindo a falecer no dia seguinte em um hospital de Colônia.



Depois de tantas histórias sem um final feliz (bem que eu avisei no primeiro post da série...), vamos encerrar esta galeria falando de um aristocrata que correu em tempos mais recentes e que hoje anda praticamente esquecido - mas ao menos continua entre nós: o Conde (ou Earl, na nomenclatura britânica) Johnny Dumfries, nascido John Colum Crichton Stuart.

Conde Johnny o que?

Se você não se lembra não fique chateado, porque esse descendente de duas dinastias ilustres - os Tudor ingleses e os Stuart escoceses - só correu durante um ano na F1, numa fase em que a dança das cadeiras dentro das equipes já era de praxe.


Em 1986, Johnny foi um dos pilotos oficiais da Lotus, que mesmo não estando mais em seus melhores dias ainda tinha algo a dizer. O problema é que seu companheiro de equipe era ninguém menos que Ayrton Senna. E aí, o pobre conde, que antes de chegar à F1 havia até conseguido bons resultados nas categorias de acesso, ficou mal na foto: marcou apenas três pontinhos no campeonato, contra os 55 de Senna. Substituido por Satoru Nakajima (que trazia ienes e a garantia de fornecimento de motores Honda), continuou na área como piloto de testes da Benetton, à espera de uma segunda chance que não veio.

Mesmo assim, Johnny Dumfries ainda teve seu momento de glória no automobilismo: foi um dos pilotos do Jaguar vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1988. Depois disso, as oportunidades foram minguando e Johnny pendurou o capacete. Alçado ao título de marquês após a morte do pai, hoje se dedica às artes plásticas e à preservação do patrimônio arquitetônico escocês.
  
Já se vão quase 23 anos sem um único piloto de sangue azul nas categorias de ponta do automobilismo mundial. Talvez as corridas de automóveis já não tenham mais o mesmo apelo que tinham para os aristocratas de gerações passadas. Talvez o comercialismo crasso que tomou conta do esporte seja um motivo de afastamento. Ou então, quem sabe, já não se fazem mais aristocratas como os de antigamente...

(Clique nos links para ver a Parte 1 e a Parte 2 desta série.)

Imagens: www.discoveryschool.com (cartoon coroa); Anuário Ferrari 1966 (Von Trips); Revista Autoesporte (Von Trips/Ferrari F1 156); http://www.carelgodindebeaufort.com/ (de Beaufort); www.timesonline.co.uk (Johnny Dumfries) 


Clip art licensed from the Clip Art Gallery on DiscoverySchool.com 

Um comentário:

Luís Augusto disse...

Hehehe, faltou o folclórico Príncipe Bira, acho que foi o oriental que se deu melhor na F-1 até hoje!