sexta-feira, 9 de abril de 2010

Nirvana chevetteiro

(NOTA DO BLOGUEIRO: apesar de ter sido escrito há quase dois anos, o texto que segue permaneceu inédito até hoje. Como não há nenhuma menção ao assunto na blogosfera lusófona, aqui está ele.)



Para um chevetteiro de carteirinha, o verdadeiro nirvana do antigomobilismo não está em lugares como Hershey, Pebble Beach ou Villa d’Este, mas sim em Kaiserslautern. Se este nome de grafia complicada e pronúncia mais ainda não soa de todo desconhecido, é por que essa é a cidade de origem de um time que esteve em evidência nos gramados alemães e europeus no final dos anos 90. Os mais ligados ao futebol provavelmente se lembrarão que a cidade também sediou várias partidas da Copa de 2006.

Pois é lá mesmo, em Kaiserslautern, que acontece a cada ano o Kadett-C Treffen, provavelmente o maior encontro de proprietários de Chevette em todo o mundo. Ou, para ser mais exato, o maior encontro de proprietários de Opel Kadett-C, primeiro carro mundial da GM, cujo projeto deu origem ao Chevette brasileiro e a outras derivações produzidas ao redor do mundo. (Aliás, coube ao nosso Chevette fabricado em São José dos Campos a honra da estréia em nível mundial, precedendo em seis meses o próprio Kadett-C alemão.)

Eu soube da existência do Kadett-C Treffen através de vários sites europeus, além de diversos vídeos no YouTube. Quando surgiu a oportunidade de uma viagem à Europa em abril de 2008, não pensei duas vezes em programar uma visita a Kaiserslautern.

Chegando à cidade, fui direto ao local do evento, que é o pátio de estacionamento de uma fábrica da GM onde hoje são produzidos componentes para diversos modelos da Opel.

Ingresso na mão e expectativa nas alturas, fui caminhando pela longa via de acesso ao pátio, já curtindo o visual e o ronco de um ou outro carro que ainda se encaminhava para o seu lugar de exposição. Quando finalmente cheguei e dei de cara com todos aqueles “chevettinhos” multicoloridos reunidos em um só lugar, tive de me beliscar para ter certeza de que não estava sonhando.



Ainda me refazendo do impacto inicial, comecei a processar racionalmente a visão de tudo o que estava ao meu redor. Havia sedans (de 2 e 4 portas), hatches, peruas e coupés, além de vários exemplares do Aero, um semi-conversível ao estilo targa, de preço alto e produção limitada. Muitos carros apresentavam-se em estado original, mas a maior parte trazia modificações, seja as “de época”, seja as mais recentes, influenciadas pelos ditames do tuning, que tem muitos adeptos na Alemanha. Havia carros vindos de todos os cantos do país e também de nações vizinhas, como Holanda (responsável pela maior delegação estrangeira), Bégica, Luxemburgo, Suíça e Áustria. Havia proprietários “certinhos”, com cabelo escovinha e pinta de engenheiro, e outros que estavam mais para Hell’s Angels, com vistosas tatuagens, piercings e jaquetas de couro preto (ainda que ornamentadas com o tradicional brasão da Opel, ou com imagens de chevettinhos soltando labaredas).

Olhando mais de perto os carros dos chevetteiros alemães, o que mais chamava a atenção é que, independentemente da “tribo” a que pertencessem - mais para o original ou mais para o tuning - transparecia uma grande preocupação em apresentar um acabamento muito bem cuidado, meticuloso nos detalhes. 
Já a turma dos chevetteiros holandeses demonstrava uma filosofia bem mais “relax”, sem grandes preciosismos quanto à aparência dos carros (muitos dos quais ainda exibiam a sujeira acumulada pelo caminho), preferindo jogar conversa fora e curtir a sua cervejinha numa tenda trazida da Holanda exclusivamente para essa finalidade.

Por aí, deu pra perceber que Kaiserslautern não é exatamente Hershey nem Pebble Beach, muito menos Villa d’Este. Mas, pensando bem, é justamente essa diversidade que dá ao Kadett-C Treffen o seu sabor especial. Afinal, o Kadett, o Chevette e seus “irmãozinhos” mundo afora sempre foram representantes do lado mais acessível e democrático do automóvel - e nada poderia ser mais apropriado do que comemorar a sua história em um evento que é democrático em tudo: no acesso sem grandes restrições a quem tiver um carro para expor, na organização à base do voluntariado (aliás, os recursos arrecadados com a venda de ingressos são destinados a um hospital infantil da região), e até mesmo no cardápio das barraquinhas de lanches, igualmente operadas por voluntários, em que predominavam as salsichas e os frikadeller (espécie de hamburger de origem dinamarquesa), naturalmente regados a uma boa cerveja “nacional” (alemã). 
Para arrematar, café, apfelstrudel e outras tortas tão saborosas quanto calóricas, a cargo das esposas e namoradas dos organizadores. Esse gostoso clima de quermesse interiorana só era rompido de vez em quando pelo estrondo dos gigantescos aviões militares C-5 Galaxy e C-17 Globemaster que sobrevoavam a região, que fica próxima à base aérea americana de Ramstein. 

Entre os carros mais interessantes do evento, havia vários exemplares do Kadett GT/E, versão de alta performance que utiliza a carroceria do coupé. Com seu motor 2.0 de 205 cv, o modelo tem sua imagem fortemente associada a Walter Rohrl, o maior piloto alemão de ralis de todos os tempos, até hoje considerado um mito no automobilismo europeu. Por se tratar de um verdadeiro ícone dentro da linha Kadett, o GT/E acabou motivando a criação de “covers” a partir das versões mais básicas do coupé. Por sinal, são poucos os GT/E s de verdade que sobrevivem em estado original, já que muitos foram destruidos ou irremediavelmente danificados em competições.



Outro modelo de destaque é o já citado Aero, que na época chegou a inspirar uma versão “cover” feita no Brasil pela Envemo. Talvez em razão de seu preço alto e de ter sido sempre considerado um modelo exclusivo, muitos exemplares foram tratados com todo o carinho por seus proprietários ao longo do tempo, resultando em um índice de sobrevivência proporcionalmente bem mais alto que o dos Kadetts comuns.

A perua Caravan, que deu origem à nossa Marajó, também estava bem representada em Kaiserslautern. As Caravan mais antigas são especialmente curiosas de se ver, já que em nosso mercado nunca chegou a existir uma Marajó com a chamada “frente tubarão”, característica marcante dos Chevette aqui fabricados entre 1973 e 1977. Da mesma forma, nunca tivemos por aqui a versão 4 portas do sedan com essa mesma frente, que chegou a ser fabricada na vizinha Argentina sob o nome de Opel K-180.
Quanto à versão hatch, que na linha Kadett recebeu o nome de City, seu aspecto em pouco lembra o do Chevette Hatch brasileiro, mais próximo ao do Chevette Hatchback norte-americano. A maioria dos City expostos no evento datava dos últimos anos de produção do Kadett C, encerrada na Alemanha em 1979.


Entre os detalhes de acabamento, um dos mais curiosos é o uso de tecido xadrez no revestimento dos bancos, disponível de fábrica em todos os modelos da linha, do mais pacato City 1.0 até o “bicho-papão” GT/E. Voto de louvor para a GM do Brasil, que nunca cogitou em oferecê-lo ao consumidor brasileiro.

PREMIAÇÃO E ENCERRAMENTO

O evento todo dura apenas um dia. Começa às 9 da manhã, e às 4 da tarde já acabou.

A última etapa é a premiação, feita por tipo de carroceria (coupé, sedan, perua e Aero), sem nenhuma distinção entre modelos originais e modificados. Mais uma vez, é o caráter democrático do evento se manifestando.

Entregues os troféus e feitos os agradecimentos de praxe, o pátio da GM é esvaziado com uma rapidez impressionante. Os “chevettinhos” tomam o rumo de casa, alguns (poucos) acomodados sobre carretas ou plataformas, a maioria rodando sobre seus próprios pneus.

O 22. Kadett-C Treffen já faz parte da história. E as suas imagens vão passando como um filminho na cabeça de um chevetteiro brasileiro, que se belisca para ter certeza de que tudo aquilo não foi apenas um sonho, a bordo de um trem que se afasta lentamente de Kaiserslautern.



(NOTA: a edição 2010 do Kadett-C Treffen será realizada no próximo dia 18 de abril.)

Agradecimento especial a Andreas Blum e aos demais sócios do Kadett-C Club Kaiserslautern e.V. 
Imagens: arquivo pessoal do autor 
(Gosta de Chevettes? Leia também Carro de estimação, uma alegria para sempre)  

2 comentários:

Paulo Robisson disse...

Gostei da matéria. A GM deveria ter os olhos abertos à necessidade de se fazer no Brasil a retomada da fabricação do Chevette Hatch 82, ou pelo menos, fabricar a lataria como a Ford faz com o mustang nos EUA, nós poderíamos pintar e remontar. A VW relançou o fusca. É preciso atentar que o ronco do montor e a tração trazeira fazem o diferencial, além do design que nos tira o ar...

Paulo Levi disse...

Obrigado pela visita, Paulo - fico feliz que você tenha gostado dessa matéria.

A propósito da sua idéia, circulou uma informação lá por 1999, 2000 dando conta de que a GM do Brasil voltaria a produzir alguns componentes do Chevette para o mercado de reposição. Pelo jeito, isso ficou só no campo das boas intenções.