quinta-feira, 15 de abril de 2010

Museo Fangio

Os leitores mais assíduos deste blog já devem ter percebido que eu tenho um fraco por museus de automóveis. Hoje, vamos focalizar um museu muito especial, que atrai visitantes de todo o mundo. E o melhor é que ele fica logo aqui ao lado, na vizinha Argentina.

Trata-se do Museo del Automovilismo Juan Manuel Fangio na pequena cidade de Balcarce, província de Buenos Aires. Falando assim, até parece que fica pertinho da capital, mas na verdade está a uns 400 km de distância. Isso não chega a ser um problema nem mesmo para quem vai a Buenos Aires apenas para passar um feriado (e o 21 de abril está logo aí): dá tranquilamente para fazer a visita em um único dia pegando um vôo de 55 minutos até Mar del Plata pela manhã, percorrendo os 70 km até Balcarce de carro alugado, e fazendo o caminho inverso no fim da tarde. Você visita o museu sem atropelos, e ainda sobra tempo para almoçar um belo bife de chorizo.

O museu fica em Balcarce porque essa é a cidade natal do grande Juan Manuel Fangio, ganhador de cinco títulos mundiais de F1 - um récorde que só viria a ser quebrado 46 anos depois por Michael Schumacher. Na minha opinião, mesmo com dois títulos a menos que o alemão, Fangio é o autor do feito mais significativo, já que os carros e os circuitos dos anos 50 eram infinitamente mais perigosos. E além de pisar fundo, o argentino ainda tinha que ser o seu próprio Ross Brawn, já que naqueles tempos as equipes (com a exceção da Mercedes Benz sob a batuta do genial Alfred Neubauer) não primavam pelo pensamento estratégico.

Mas vamos ao museu, que fica num antigo edifício que já abrigou a câmara dos vereadores de Balcarce. Visto por fora, o espaço parece um tanto tímido para um museu de automóveis. Mas a coleção que está lá dentro é de bom tamanho e muito bem organizada, ficando disposta em vários andares interligados por rampas em espiral. Praticamente todos os  carros ali expostos são modelos de competição, utilizados por Fangio e por outros pilotos argentinos (principalmente) e de outras nacionalidades, seus contemporâneos ou não.



A coisa que mais impressiona no Museo Fangio é algo intangível que eu descreveria como uma atmosfera quase mística, como se estivessemos em um santuário. Ou seja, o que está ali dentro é muito mais do que um amontoado de carros e memorabília automobilística: é uma energia que parece emanar da força da personalidade do próprio Fangio e da pujança do automobilismo argentino de sua época. Para sentir um pouco dessa energia, assista o vídeo abaixo:



Lá está, por exemplo, a lendária cupecita Chevrolet 38 com a qual Fangio venceu o Grande Prêmio Internacional del Norte, uma maratona de quase cinco mil km ligando Buenos Aires a Lima. O carro foi restaurado, mas preserva uma pátina de autenticidade difícil de descrever. Só posso dizer que fiquei arrepiado ao vê-la e ao imaginar como devia ser competir numa prova daquelas.


 
As vitórias de Fangio na categoria turismo de carretera o credenciaram para sua investida nas pistas européias a partir de 1948. Este período está muito bem documentado no museu, com os principais automóveis que El Chueco conduziu à vitória. Entre outras preciosidades, merece destaque um maravilhoso e raríssimo monoposto Mercedes Benz flecha de prata de 1954, com sua carroceria carenada (ou seja, com as rodas cobertas), permitida pelo regulamento da F1 de então.


Fangio parou de correr em 1958, mas se manteve ativo no cenário automobilístico de seu país. Nos anos 60, foi um dos principais organizadores das temporadas argentinas da Fórmula 3 e da Fórmula 2, que contavam com a participação de todos os grandes nomes europeus dessas categorias. E em 1969, comandou a chamada Misión Argentina, em que três automóveis Torino 380W de fabricação local competiram na Marathon de la Route, uma duríssima prova de longa duração realizada no circuito de Nürburgring, na Alemanha. Os carros argentinos lideraram a prova por um bom tempo, e ao final um deles chegou em quarto lugar. Hoje, esse carro também tem seu lugar de honra no museu.


Entre tantos automóveis que marcaram época, uma surpresa: o McLaren F1 pilotado por Ayrton Senna em 1988, ao lado de um grande painel fotográfico em que os ídolos brasileiro e argentino aparecem lado a lado. Na foto, uma dedicatória de Senna ao argentino, por quem tinha enorme consideração. Mais um momento emocionante da visita ao Museo Fangio, inclusive por seu valor simbólico ao relembrar que, apesar dos clichês e das rivalidades futebolísticas, argentinos e brasileiros são povos irmãos.


Site do museu: http://www.museofangio.com/
Imagens (exceto logo do museu e mapa da região): arquivo pessoal do autor.
Trilha do vídeo: "Gricel", de Mariano Mores e José Maria Contursi, com Roberto "Fats" Fernández -  Discos Melopea, 1995.

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