sábado, 26 de fevereiro de 2011

Livraria com perfume de Castrol

Nota do Blogueiro: Em abril de 2010, publiquei um post sobre a Fazazz, uma fantástica combinação entre museu, livraria automotiva, loja de miniaturas, revenda de automóveis antigos e concessionária Morgan. Com muita tristeza, acabo de saber que essa loja única no mundo foi praticamente destruída pelo recente terremoto que atingiu a cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, a qual vinha se recuperando de um primeiro terremoto ocorrido em setembro do ano passado.

Republico o post original em solidariedade aos irmãos John e Gavin Bain, proprietários da Fazazz, e também a a todos os habitantes de Christchurch e região, com votos para que nunca mais tenham que passar por tragédias como essa. 




A Nova Zelândia é um país surpreendente. Tem montanhas que nada devem em grandiosidade aos alpes suiços. Tem um litoral que em alguns trechos faz lembrar o sul do Chile. E tem uma cidade, Christchurch, que chega a ser mais britânica do que a maioria das cidades da Inglaterra.



E bem no centro de Christchurch, tem a Fazazz - uma livraria que é capaz de levar à loucura qualquer pessoa que goste de automóveis.

Na verdade, chamar a Fazazz de livraria é uma injustiça: ela é um fantástico mix de museu, loja de automodelismo, brechó de memorabília, revenda de carros vintage e concessionária de automóveis zero km, tudo sob o mesmo teto. Por todo esse seu ecletismo, ela se posiciona (se é que tal coisa é possível) como "The Motorists' Shop".

Uma boa definição para essa loja está na abertura de uma matéria publicada pelo jornal local The Press: "Se o motor a combustão já existisse no tempo das mil e uma noites, é quase certo que a caverna de Aladim se pareceria com a Fazazz."

Ao entrar na Fazazz, o impacto é instantâneo - e o primeiro dos sentidos a ser atingido é o olfato, graças aos eflúvios aromáticos que emanam do óleo do motor e do câmbio dos vinte e tantos automóveis expostos em meio a milhares de livros.



O piso de tábuas largas e o pé direito altíssimo remetem às bibliotecas daquelas veneráveis instituições acadêmicas do Reino Unido, mas os automóveis que estão dentro do grande salão emprestam ao ambiente um ar de oficina ou garagem de outros tempos. Seja como for, a atmosfera é relaxante e acolhedora.

Nas mesas e estantes, uma enorme variedade de livros, revistas, miniaturas, emblemas e outros ornamentos induzem a passar horas na loja em browsing mode.


E os automóveis, então, nem se fala: Ferraris, Astons, carros de fórmula, marcas britânicas hoje extintas como Alvis e Wolseley, e por aí vai. Quase todos estão à venda.



Isso sem falar que a Fazazz é a importadora oficial para a Nova Zelândia da tradicionalíssima (e pra lá de excêntrica) marca inglesa Morgan. Se dentro da loja você for acometido por um impulso irresistível e quiser encomendar um roadster como o da foto aí embaixo, pode ir puxando o talão de cheques.


Entre os livros, há coisas de dar água na boca - mas aí vem a lembrança de que estamos a doze mil km do Brasil e a cobrança de excesso de peso pelas companhias aéreas é uma realidade incontornável. Fiquei seriamente tentado a comprar a biografia de Bruce McLaren escrita pelo veterano jornalista neozelandês Eoin Young, amigo de Bruce e ex-integrante de sua equipe nos anos sessenta. (Por sinal, o escritório de Young fica um andar acima no mesmo edifício.). Não comprei, e hoje me arrependo disso.

De qualquer forma, é difícil sair de lá sem levar pelo menos alguma coisa. No meu caso, foi uma miniatura em escala 1/43 do Holden FJ, sedã australiano muito popular nos antípodas na década de 50.

Uma loja como a Fazazz não pode ser considerada um empreendimento comercial como outro qualquer. Ela é, acima de tudo, um labor of love dos irmãos Gavin e John Bain, que a fundaram em meados da década de 80. Realmente, é coisa de apaixonados para apaixonados: John tem um Jaguar XK 140 conversível, e Gavin já teve vários Ferrari.

O co-proprietário John Bain em seu habitat natural
Em tempo: o nome Fazazz vem de uma história contada a Gavin Bain por Olivier Gendebien, vencedor pela Ferrari de quatro edições das 24 Horas de Le Mans nos final dos anos 50 e no início dos 60. Segundo o lendário piloto belga, os mecânicos italianos usavam uma palavra que soava algo como "fazazz" para se referirem aos carros da Scuderia. Gavin gostou do apelido - e o resto, como se diz, é história.

Imagens: John Bain (fotos Fazazz); Portal stuff.co.nz (foto John Bain); site http://www.morgan-motor.co.uk (foto Morgan);  arquivo pessoal do autor (outras imagens).

Agradecimento especial a John Bain pela gentileza em disponibilizar as fotos da Fazazz (http://www.fazazz.co.nz) especialmente para este post no AdverDriving.

4 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

É uma pena o que aconteceu...era o sonho de qualquer antigomobilista...eles irão se recuperar. Os Morgans são carros lindos aos meus olhos....só me falta o dinheiro.
Ótimo post.

Paulo Levi disse...

Francisco, a situação toda é de uma tristeza imensa. Em primeiro lugar, pelos moradores de Christchurch, que estão entre as pessoas mais gentís e hospitaleiras que já conheci. Ninguém no mundo merece uma catástrofe dessas, e eles menos ainda - ainda mais depois de terem passado por outro terremoto há poucos meses.

Fiquei sabendo da destruição da Fazazz através de um podcast em que uma pessoa que estava dentro da loja no momento em que a terra tremeu conta como foi. Segundo essa pessoa (por ironia, um engenheiro que estava de passagem em Christchurch para tratar de assuntos ligados à reconstrução da cidade depois do primeiro terremoto), só as altas colunas de ferro impediram que o teto viesse abaixo de vez, permitindo que ele escapasse ileso. Espero que os demais clientes e funcionários da loja, incluindo os irmãos Bain também tenham conseguido escapar sem danos pessoais.

Ron Groo disse...

Que sonho de lugar.

Joel Gayeski disse...

Triste, pelas pessoas e por esse lugar maravilhoso...