sábado, 27 de março de 2010

Supercarros? Non, merci.

Não sei quem foi que inventou o marketing. Só sei que os americanos cunharam a palavra, codificaram a disciplina acadêmica e a colocaram em prática no mundo dos negócios. São craques na matéria, não há como negar.

Mas quando o assunto é o marketing do luxo, quem ganha - e de lavada - são os franceses. E não só nas marcas de produtos restritos a uma minoria, como Cartier, Louis Vuitton e Hermès: o luxo francês é apreciado e consumido ao redor do mundo em forma de cosméticos, chocolates e até água mineral.

Fazendo o caminho inverso, pessoas dos quatro cantos do planeta se dirigem em romaria aos restaurantes estrelados da França, desembolsando fortunas pelo privilégio de degustar as iguarias de chefs como Bocuse e Troisgros. Creia-me: quando a questão é criar valor para o luxo, os franceses são insuperáveis.

Porque será, então, que a França não produz supercarros, ou seja, aqueles automóveis high end que se destacam pela performance ou pelo luxo, ou por uma combinação das duas coisas? Só para deixar claro: quando me refiro a luxo, não estou falando do pseudoluxo burguês dos modelos mais caros das três principais montadoras do país - Renault, Peugeot e Citroën - mas sim de um luxo sem concessões, despudoradamente opulento e assumidamente elitista.

A Itália tem nada menos que quatro marcas que correspondem a esse perfil: Ferrari, Maserati, Lamborghini e Pagani. A Inglaterra também: Rolls Royce, Bentley, Aston Martin e McLaren. E a Alemanha empata com suas quatro marcas (Mercedes, BMW, Porsche e agora a Audi), que por abrangerem uma faixa mais ampla de preços talvez estejam um tom abaixo das italianas e inglêsas, mas cujo prestígio é infinitamente superior ao das mainstream francesas. 

Como se explica que um país que deu ao mundo Versalhes, os castelos do Loire, o Concorde e o TGV não produza um único supercarro? Evidentemente, não é um problema de falta de tradição ou de capacidade tecnológica. Então, onde é que a coisa pega?

Voltando no tempo, vemos que os franceses já produziram automóveis com esse pedigree. O exemplo mais conhecido é o da Bugatti, que atingiu o ápice do esplendor nos anos 30 e desapareceu pouco depois da Segunda Guerra Mundial.

Bugatti Type 41 "Royale"
(Um parêntese: sim, existe uma Bugatti atualmente, mas não é uma marca francesa de verdade. Pertence ao grupo VW, constrói carros projetados por engenheiros alemães com mecânica de derivação VW, e é um brinquedinho pessoal de Ferdinand Piech, chairman do grupo VW. Concordo que o Bugatti Veyron é um tour de force tecnológico - mas francês, ele definitivamente não é.)

Além da Bugatti, no passado existiram várias outras marcas francesas que se destacavam por seu luxo e desempenho: Voisin, Hotchkiss, Delage, Delahaye, Hispano Suiza... todas elas ficaram pelo caminho.

                                      Delahaye 135M
Delage Type D8 - 120
Houve uma honrosa tentativa na década de 50: a Facel Vega, fundada por um bem sucedido industrial e ex-engenheiro da Citroën chamado Jean Daninos. Seus carros usavam os potentes motores V8 americanos da Chrysler, mas o conceito era cem por cento francês. A elegante carroceria, de linhas leves e arejadas, era uma criação do próprio Daninos. O interior do carro era uma lição de savoir faire no uso de materiais nobres, e o acabamento não ficava atrás.



Alavancada pela exclusividade de seus automóveis e pelo livre trânsito de Daninos junto ao grand monde da época, a marca Facel Vega logo se tornou o must das celebridades internacionais. A escritora Françoise Sagan tinha um Facel, o piloto Stirling Moss também - isso para não falar em Pablo Picasso, Ava Gardner, François Truffaut e Ringo Starr.

Só que, para azar de Daninos, a marca não contava com o aval da celebridade que realmente importava: o general Charles de Gaulle, presidente da república francesa.


Nacionalista fervoroso e simpatizante da Citroën, o austero general não só autorizou um pesado aumento no imposto de importação sobre o motor V8 da Chrysler, como também desdenhou da oferta de um Facel Vega presidencial, afirmando que não seria apropriado a um chefe de estado francês utilizar um automóvel com motor americano.

Para tentar garantir a sobrevivência da marca, Jean Daninos lançou um modelo menor, o Facellia, equipado com um novo motor totalmente projetado e construido na França. Foi como pular da frigideira para o fogo: o tal motor apresentava tantos problemas que não apenas manchou a imagem da empresa, como também esgotou seus recursos no atendimento aos inúmeros pedidos de conserto e/ou troca em garantia. Assim, depois de apenas dez anos de vida, a Facel Vega também se tornava uma notinha no rodapé da história.

De lá para cá, passaram-se 46 anos. Voltando à questão: porque os franceses não fazem um supercarro?

Será pelos traumas do passado, ou por algum fator sociológico enraizado no existencialismo dos anos 50, segundo o qual todos nós iremos morrer de qualquer maneira - e então pra que toda essa pressa, pra que todo esse luxo?

Ou haverá alguma explicacão ainda mais recôndita cuja origem talvez remonte à Revolução Francesa e à Comuna de Paris, segundo a qual a exibição pública do luxo - e não se pode esquecer que automóvel circula permanentemente por espaços públicos - reestimula memórias ancestrais de Luiz XV e de todos os autocratas do ancien regime?


Pensando bem, nem é preciso retroceder tanto assim: basta pensar no rancor surdo das periferias de Paris e de outras cidades francesas, onde atear fogo a automóveis já se tornou um acontecimento corriqueiro.

Concluindo, não tenho uma explicação conclusiva para esse enigma. Se alguém tiver, por favor me avise.

Imagens: Britannica.com (General de Gaulle); Bugattist/Wikimedia (Bugatti Royale); Musée National de l'Automobile de Mulhouse (Delahaye); Chris73/Wikimedia (Delage); Charles01/Wikimedia (Facel Vega); Classic Driver (interior Facel Vega); De Gaulle/Citroën: The Guardian (http://www.guardian.co.uk/business/gallery/2009/feb/03/automotive-france?picture=342729501)


Agradecimento especial: Alexandre Oyamada (edição da imagem do general de Gaulle)

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