sexta-feira, 19 de março de 2010

Pilotos de sangue azul (Parte 2)

 O primeiro aristocrata a deixar sua marca no automobilismo internacional do pós-guerra foi o Barão Emmanuel "Toulo" de Graffenried, pertencente a uma família de grandes proprietários de terras da região de Berna, na Suiça. Por coincidência, durante um certo tempo o barão Toulo foi companheiro de equipe do príncipe Bira.

O ponto alto da carreira de Graffenried, que havia começado a correr na década de 30, foi a vitória no GP da Inglaterra de 1949. Habituado ao difícil circuito de rua de Bremgarten, em Berna, não encontrou dificuldades para triunfar na derradeira edição do Circuito da Gávea, em 1954. No ano seguinte, já preparando sua saída das pistas, atuou como doublé de Kirk Douglas nas cenas de ação do filme "The Racers", o primeiro a incluir tomadas feitas por uma câmera de bordo.

Parou de correr em 1956, mas manteve os vínculos com o automobilismo. No início dos anos 60, fundou uma confraria de ex-pilotos, a Association des Anciens Pilotes de Grands Prix. Também atuou como uma espécie de embaixador da Phillip Morris junto ao meio da F1, numa época em que ninguém via nada de mais na associação entre esportes e tabaco.

Toulo de Graffenried morreu em 2007, aos 92 anos.

O próximo integrante desta galeria é talvez uma das personalidades mais complexas da história do automobilismo. E essa complexidade já começava pelo nome: Alfonso Antonio Vicente Eduardo Angel Blas Francisco de Borja Cabeza de Vaca y Leighton Carvajal y Are, Grande de España, Conde de Mejorada, Conde de Pernía, Marquês de Moratalla, 17º Marquês de Pórtago y Duque de Alagón.

O Marquês de Pórtago, ou "Fon" para os íntimos, era um espanhol nascido na Inglaterra e criado na França. Conheceu seu copiloto e melhor amigo, Ed Nelson, quando este trabalhava como ascensorista em um hotel de Nova York. No seu tempo de colégio, não queria saber de estudar - mas ia muito bem nos esportes, principalmente naqueles que tinham a ver com velocidade. De Portago pilotava exatamente como vivia: com o pé na tábua, e sem dar a mínima para o dia de amanhã. E fora das pistas, namorava as mais lindas mulheres da época, incluindo socialites, modelos e atrizes de Hollywood.


Ainda que possuisse um inegável talento para pilotar - caso contrário, Enzo Ferrari não o teria convidado para fazer parte de sua equipe - de Portago era um notório demolidor de carros. Diferentemente de Bira e Lurani, para citar apenas dois exemplos, não tinha nenhuma sensibilidade mecânica, exigindo a máquina muito além de seus limites. Se um concorrente não lhe desse passagem na hora, o espanhol não pensava duas vezes: abria caminho "na marra". 

Certa vez, de Portago teria pronunciado a seguinte frase: "O me mato, o seré campeón del mundo". Infelizmente, confirmou-se a primeira hipótese: na Mille Miglia de 1957, sua Ferrari teve um pneu estourado a quase 300 km por hora, provocando um grave acidente em que morreram 14 pessoas, além do próprio marquês e seu copiloto Ed Nelson. Três dias depois, em meio à comoção geral que se seguiu à tragédia, o governo italiano baixava um decreto banindo a Mille Miglia em caráter definitivo.

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