segunda-feira, 15 de março de 2010

Pilotos de sangue azul (Parte 1)

Esqueça os títulos midiáticos como "rei de Mônaco" (ou Monza, ou Interlagos) e outras hipérboles do gênero. Esqueça, também, os títulos de nobreza concedidos no atacado por Sua Majestade Elizabeth II a roqueiros, jogadores de futebol e bucaneiros do mundo dos negócios.

Hoje, vamos falar de aristocracia. Mas aristocracia de verdade, com nome no almanaque Gotha e tomos da mesma estirpe. Mais especificamente, vamos falar de alguns expoentes da realeza e da nobreza que participaram, com maior ou menor sucesso, da história do automobilismo no século 20.

São histórias que fascinam pela diversidade de origens, temperamentos, trajetórias de vida e estilos de pilotagem. Várias dessas histórias não têm um final feliz - numa época em que o sexo era seguro e as corridas não, muitos pilotos (nobres ou não) pagavam com a vida sua paixão pelo esporte.

Para inaugurar esta galeria, vamos falar de seu expoente mais graduado: Sua Alteza Real Birabongse Bhanutej Bhanubhandh, mais conhecido como Príncipe Bira.

Neto do rei do Sião - assim se chamava a Tailândia em 1914, ano de seu nascimento - Birabongse estudou em Eton, Cambridge e outras veneráveis instituições britânicas. Aos 21 anos, começou a participar de corridas sob o pseudônimo de "B Bira".  Os resultados não demoraram a chegar, entre eles uma vitória na prova de abertura do GP de Mônaco de 1936. Daquele ano até 1939, Bira reinou nas pistas britânicas, ganhando por três vezes seguidas o prestigioso troféu Gold Star do British Racing Drivers' Club.

Nos anos 50, Bira participou de várias provas do campeonato mundial de F1, inclusive como piloto oficial da equipe Maserati, marcando pontos em várias delas. Encerrou sua carreira com uma vitória no GP da Nova Zelândia de 1955, prova fora do calendário da F1.

Apesar de uma acentuada miopia - usava óculos com lentes "fundo de garrafa" - Bira era um piloto rápido e constante, e raramente se envolvia em acidentes. Fora das pistas, praticava o iatismo e  demonstrava algum talento como pintor e escultor. Foi casado por três vezes, uma delas com uma argentina. Mesmo passando seus últimos anos entre a Tailândia e o sul da França, nunca abriu mão de seus laços com a Inglaterra. Faleceu em Londres em 1985, vitima de derrame cerebral.

Dono de um considerável patrimônio que incluia nada menos do que sete Bugattis, o conde polonês Stanislaus Czaykowski foi um fiel defensor dessa marca nas pistas. Começou a competir em 1929, vencendo seu primeiro GP em 1931 em Casablanca, no Marrocos. Dois anos depois, vencia o British Empire Trophy no circuito de Brooklands.

A palavra medo simplesmente não fazia parte do vocabulário de Czaykowski. Na aterradora pista de Avus, na Alemanha, o nobre polonês quebrou o récorde mundial de velocidade em circuito, cravando 214 km/h. Infelizmente, esta seria sua última façanha: poucos meses depois, no Grande Prêmio da Itália em Monza, a Bugatti T54 de Czaykowski derrapava em uma poça de óleo, capotando várias vezes e incendiando-se em seguida. Esta não foi a única tragédia daquele dia: além de Czaykowski, também perderam a vida (em outro acidente ocorrido poucas voltas antes) os italianos Campari e Borzacchini.

Pode causar surpresa a presença de um brasileiro em uma galeria de pilotos titulados, mas o Barão Manuel de Teffé pertence a ela de pleno direito. Filho do embaixador do Brasil na Itália, Manuel de Teffé von Hoonholtz começou a competir (e vencer) quando ainda vivia naquele país. Mas seu grande mérito foi o impulso que deu ao automobllismo brasileiro como idealizador do Circuito da Gávea, formado a partir de vias públicas naquilo que é hoje o Morro Dois Irmãos e a Rocinha. Ainda não existia o autódromo de Interlagos, e a Gávea foi palco das mais importantes corridas realizadas no Brasil na década de 30. Teffé venceu a primeira edição dessa prova, em 1933, e participou com relativo sucesso de algumas das edições subsequentes.


Após a Segunda Guerra, Teffé seguiria os passos do pai na carreira diplomática, chegando ao posto de embaixador. Mas até seu falecimento, em 1967, sempre esteve próximo ao automobilismo.

Contemporâneo de Teffé, o Conde Giovanni Lurani Cernuschi (também conhecido como Johnny) foi um verdadeiro homem da renascença do automobilismo. Como piloto, sua prova favorita era a Mille Miglia, uma maratona alucinante disputada em estradas abertas ao público, na qual os bólidos atravessavam cidades e vilarejos a mais de 200 km/h com os espectadores postados à beira do meio-fio. Lurani foi o vencedor em sua categoria em três edições dessa prova, vencendo também nas 24 Horas de Le Mans de 1951.


Engenheiro de formação, foi chefe de equipe, dirigente esportivo e autor de obras importantes sobre a história do automobilismo, dentre as quais a biografia definitiva do lendário Tazio Nuvolari. Também atuou como  jornalista, tendo sido o fundador e editor da conceituada revista Auto Italiana. Faleceu em 1995, aos 90 anos.

Nos próximos dois posts, apresentaremos os outros integrantes desta galeria de pilotos de sangue azul.


Imagens: www.discoveryschool.com (cartoon coroa);  www.gingerasia.com (Principe Bira); www.24heures.fr (Conde Czaykowski); revista Autoesporte (Barão Manuel de Teffé). 

Clip art licensed from the Clip Art Gallery on DiscoverySchool.com 

2 comentários:

Luís Augusto disse...

Ops, retiro o meu comentário sobre oPrincipe Bira em um post mais adiante!

Paulo Levi disse...

Esnobar o Príncipe Bira seria um crime de lesa-majestade...rs.