sábado, 6 de março de 2010

Maldade é apelido

É da natureza humana arranjar apelidos para seres vivos e objetos inanimados.  No jardim do Eden, é bem provável que Adão e Eva se tratassem por apelidos açucarados ("Costelinha da minha vida!", "Minha maçãzinha do amor!"). De igual maneira, automóveis do início do século 20 tinham apelidos como Ford de Bigode, Chevrolet Cabeça de Cavalo, e por aí vai.

Muitos dos apelidos dados a automóveis são carinhosos. Outros, nem tanto. E alguns são maldosos a ponto de acabar com as perspectivas de um automóvel no mercado.

De todos os apelidos carinhosos, o que mais "pegou" no Brasil foi Fusca, a ponto de se tornar um nome oficial da Volkswagen. Aliás, pode-se medir a afeição dedicada a um  modelo de automóvel pelo número de apelidos que ele colecionou mundo afora. Assim, o Fusca é o Vocho no México, o Käfer na Alemanha, o Maggiolino na Itália, a Coccinelle na França etc. (Quanto à origem do próprio apelido Fusca, trata-se de uma corruptela de Volkswagen - que, convenhamos, não é dos nomes mais fáceis de pronunciar para nós, brasileiros.)

No Brasil, os primórdios da indústria automobilistica foram uma época fecunda para os apelidos maldosos. Uma das primeiras vítimas desses apelidos foi o Dauphine, montado  pela Willys Overland do Brasil sob licença da francesa Renault.

O Dauphine era concorrrente direto do Fusca.  Até que era um carrinho simpático - na Europa, fazia bastante sucesso - mas sua fragilidade diante do rival de origem germânica saltava aos olhos. Mauro Salles, que na época não era publicitário mas sim jornalista e editor da revista Mecânica Popular, certa vez descreveu o câmbio do Dauphine como "uma agulha de tricô plantada em um pudim de gelatina". A interface entre o pé do motorista e o pedal do acelerador era uma pernóstica (e frágil) rodelinha. Com essa delicadeza toda, o apelido não tardou a chegar: Leite Glória, referência a uma marca de leite em pó conhecida pela promessa publicitária "desmancha sem bater".


A Willys fez de tudo para se livrar dessa imagem. Fez o carro participar de competições, lançou uma versão mais potente sob o nome Gordini  ("40 HP de Emoção") e uma derivação esportiva deste, o Renault 1093; promoveu, com grande cobertura de mídia, uma maratona de 22 dias rodando pelo anel externo do Autódromo de Interlagos, quebrando vários récordes internacionais. Foi tudo em vão: o estrago já estava feito, e a associação com o leite Glória perdurou até o carro sair de linha, em 1968.

Por coincidência, outra vítima de apelido maldoso foi o também franco-brasileiro Simca Chambord. A seu favor, esse modelo tinha um estilo que fazia lembrar os Fords de 1955 a 1957, muito apreciados pelo público brasileiro. Assim como esses carros, o Simca tinha um motor de oito cilindros em "V', o primeiro com essa configuração no Brasil. Mas as semelhanças ficavam por aí, porque o Chambord não tinha nem a potência, nem a confiabilidade mecânica de seus primos ianques. (O parentesco datava de um período em que a Simca foi o braço francês da Ford; na verdade, o V8 do Chambord era um motor Ford da década de 30).


Por essas deficiências e por outras mais, o Simca Chambord logo passou a ser conhecido como "o belo Antonio". E por que esse apelido? Porque esse era o título de um filme italiano da época, protagonizado por Marcello Mastroianni. No filme, o personagem Antonio Magnano era um sujeito com pinta de galã que deixava as mulheres ouriçadíssimas. Só que na hora do vamos ver, o desempenho do infeliz deixava a desejar - exatamente como um Simca Chambord.

E já que adentramos o picante território  do sexo, é hora de falar sobre um apelido que fez afundar um  Volkswagen que tinha tudo para dar certo no Brasil: o Fusca com teto solar. No calor de um país tropical, é muito bom poder abrir o teto e deixar entrar um pouco de ar fresco - ainda mais se o carro for um Fusca, notoriamente quente por dentro devido à posição do motor. Pelo menos era essa a teoria, porque na prática bastou que o primeiro Fusca com teto solar saísse da concessionária para receber o apelido de Cornowagen.


Daí para a frente, nenhum brasieiro com aquilo roxo admitiria ser visto ao volante de um carro desses. Não foram poucos os proprietários que levaram seus carros a oficinas para pedir que os tetos fossem soldados e repintados de modo a apagar todos os sinais da ignomínia. Não sei se o cachê do risonho pater familias da foto publicitária aí em cima compensou as piadinhas que ele provavelmente teve de ouvir; no mínimo, não deve ter ficado muito feliz com a história. Nem a diretoria da VW do Brasil, que fez cair um pano rápido sobre o corno, digo, Volkswagen com teto solar.

Circula uma história em alguns sites e blogs segundo a qual "um alto executivo da Ford" teria sido o mentor dessa maldade contra a VW. Essa história é altamente improvável, até porque naquela época a Ford brasileira só fabricava caminhões e pick-ups, e portanto não era concorrente direta da VW.

Pessoalmente, tenho minhas suspeitas sobre quem possa ter sido o verdadeiro responsável pelo apelido - mas isso, eu não conto nem sob tortura...

Imagens: portal www.carroantigo.com (Renault Dauphine, Simca Chambord e VW Teto Solar).

2 comentários:

mandy disse...

olá !

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Muito obrigado.

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Amanda.

Paulo Levi disse...

Amanda,

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