terça-feira, 23 de março de 2010

Carro de estimação, uma alegria para sempre

 Não são poucas as pessoas que, ao pensarem em todos os automóveis que já tiveram na vida, se lembram com mais carinho de um deles em particular. É aquele carro que marcou época, que os acompanhou em viagens incríveis, que não negou fogo na hora H, que testemunhou momentos românticos, e que deixou saudades depois de vendido.

Eu tenho um carro assim, com uma diferença: eu nunca o vendi, e muito menos pretendo fazer isso.

Que carro é esse? Pois bem, é um Chevette.

O que? Um Chevette?

Isso mesmo, um Chevette. Para ser mais preciso, um modelo 75 azul vivo, segundo o catálogo de cores da GM - ou azul calcinha, segundo as más línguas.

     Ainda no tempo da placa amarela, com um emblema não-original
      
Comprei esse carro zero km quando eu ainda estava na faculdade. Na época, eu fazia pós graduação nos EUA, mas estava passando uns tempos no Brasil por conta da minha tese. Antes de retornar aos EUA, não tive tempo de vendê-lo e ele acabou ficando na garagem.

Das próximas vezes que voltei para rever a família, foi bom poder contar com o Chevettinho. E assim, o tempo foi passando e ele foi ficando.

Ao terminar os estudos, comecei a trabalhar nos EUA e só voltei ao Brasil em 1982. O Chevettinho ainda estava com cara de novo (e era, pois só havia rodado uns 30 mil km), mas à essa altura era visto como um carro brega e fora de moda - cool, mesmo, era ter um Voyage ou um Monza...

Ignorei as advertências de que viraria um pária caso insistisse em continuar com o Chevettinho, e nos sete anos seguintes ele foi meu fiel parceiro de trabalho. Deixava-o estacionado na rua, subia com ele no meio fio para retirar ou entregar materiais no cliente, viajava com ele nos fins de semana. Fiz algumas viagens mais longas, inclusive uma a Buenos Aires. E durante todo esse tempo, o Chevettinho nunca negou fogo.

                    Fim de ano em Buenos Aires, 1983

              Bate-e-volta a Ribeirão Preto, a trabalho, em 1987

No final de 1989, Collor era o presidente eleito. Havia um cheiro de pacote no ar. Quebrei o cofre porquinho e comprei um carro novo - um Uno - antes que meu dinheiro virasse pó. E assim, o Chevettinho finalmente teve um respiro.

Passados mais alguns anos, eu me encontrava diante de um dilema. O Chevettinho velho de guerra andava precisando de alguns cuidados. A parte mecânica estava boa, mas a carroceria tinha vários amassadinhos e pontos de ferrugem. O "azul vivo" da pintura já não era mais tão vivo assim. O que fazer? Vender o carro enquanto ele ainda valesse alguma coisa, ou partir para uma reforma a um custo impossível de amortizar?

Acabei optando pela segunda alternativa. Foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado.

Tive a sorte de encontrar o profissional certo para reformar o carro: René Gonzales Espada, dono da oficina Szirgon, localizada na zona norte de São Paulo e especializada em funilaria e pintura.

René, que também tem um carro de estimação - uma Brasília tratada a pão de ló - captou na hora o espírito da coisa. Trabalhando com solda de estanho (no vocabulário de René, massa plástica é palavrão), eliminou todos os pontos de ferrugem na junção da chapa com os vidros. Através da técnica do chamado "martelinho", tirou do teto todos os picotes que lá estavam havia décadas, desde a tarde em que uma chuva de granizo me pegou desprevenido no centro de São Paulo. Lixou toda a carroceria e refez a pintura na cor original, inclusive por dentro do porta-malas e do compartimento do motor. Em resumo, o que fez não foi uma reforma, mas sim uma restauração.






Hoje, ando com o Chevettinho no máximo uma vez a cada três semanas. Mas cada uma dessas ocasiões é especial. Treze anos depois da restauração, a pintura continua brilhando, o motor pega de primeira e puxa com disposição, o câmbio parece indestrutível, a direção não tem folga, a embreagem continua macia e eficiente. 

Nessas horas, percebo o quanto fiz bem em não me desfazer desse carro, que se torna mais especial a cada vez que ando com ele.

Portanto, minha cara leitora, meu caro leitor, pense bem antes de vender um automóvel do qual um dia você possa vir a ter saudades. Como escreveu o poeta inglês John Keats, inspirador do título deste post, a thing of beauty is a joy forever.

Fotos: arquivo pessoal do autor
Ilustração menino & carrinho: Shutterstock Images

14 comentários:

Denise Bayeux disse...

Paulo,

Adorei!!!! Não sabia que você tinha o Chevette desde sempre!

bjs

Alê Oyamada disse...

Paulão,

muito bom conhecer mais um pouco da história do saudoooso Chevettinho!!! Saudades de vê-lo ali parado no estacionamento da Lew,Lara com seus cones laranjas de proteção. Hehehehehehe.

Abraços!!!

Alê.

Tali disse...

Paulão,
O Chevettinho é parte da sua identidade! Adoro!!! Beijo

René Gonzales disse...

O Chevette ficou bonito na foto!
Fico lisonjeado por confiar no meu trabalho. Precisando pode contar com nosso serviço.

Abraço.
René

Ariel J disse...

Oi Paulo,
Gostei de ouvir mais sobre a história do Chevettinho.
Abraços e parabéns pelo blog!

Michel Freidenson disse...

Tio Paulo - Me lembro de quando o Chevette ficava no cavalete enquanto Vc viajava. Acho que ele nunca te deixou na mão como retribuição por tanto carinho e dedicação! Parabéns pelo blog ! Michel Freidenson

Paulo Levi disse...

Denise, Tali, Alê, Ariel e Michel: muito obrigado pela visita e pelos elogios, fico feliz por vocês terem gostado!

René: a você também, o meu muito obrigado pela visita - e, mais ainda, pelo papel fundamental que você teve nessa história!

Um grande abraço a todos,

Paulo

Felipe Mortara disse...

Caro Chevettinho azul, você tem é muita sorte. Quem é que tem um pai tão zeloso assim? Um pai que cuida de você por décadas sem pedir nada em troca, sem te pedir presentes, sem te pedir nem sequer o amor de filho de volta. Sr. Chevettinho, o senhor é um sortudo do cacete!

André disse...

Prezado Paulo,

Me indentifiquei muito com sua estoria. Estou na fase final da restauração de um Chevette 1976 Azul vivo que está ficando identico ao seu. Me lembro como se fosse hj a chegada dele na garagem do edificio em que morava com mesu pais no RJ, quando eu tinha 5 anos de idade. Foi um presente de meu pai para minha mãe.
Foi o primeiro carro que tive em 1989 aos 18 anos. Em 1990 ficou na garagem do meu irmão até 2000, quando tive que encontrar um destino para mante-lo junto a nós, pois ele estava indo estudar em Rutgers, NJ. Mantive-o até 2009 em uma concessoanria em MG, quando decidi restaura-lo. desde fev/2009vem passando por uma restauração, para desespero dos familiares e minha esposa. Hj com 39 anos, terei em breve a alegria de compartilhá-lo em minha garagem junto ao meu veículo atual. Hj tb moro em SP, na cidade de São Carlos, e espero em breve poder lhe encontrar para podermos conversar sobre os carros irmãos, e suas estórias.

Um abração e tudo de bom.

André Bonnet

Paulo Levi disse...

André,

Fico feliz em saber que o meu Chevettinho tem um irmão gêmeo - e com uma "história de vida" bem parecida com a dele.

Parabéns pelo carro e pela decisão de restaurá-lo. Quando você o levar para casa, tenho certeza de que sua esposa e seus familiares também vão gostar.

Caso precise de alguma dica estou à sua disposição pelo e-mail do AdverDriving: adverdriving@gmail.com

Um abraço, e obrigado pela visita!

Luís Augusto disse...

Paulo
Tenho uma história parecida (aliás duas, uma com um Fusca 69 e outra com a Caravan 76), mas nunca tive o prazer de ter um antigo desde 0km. Parabéns!
By the way, seu carro figura no meu blog:
http://antigomoveis.blogspot.com/2008/12/choque-cultural.html

Paulo Levi disse...

Luís,

Muito bom receber sua visita por aqui. E muito obrigado pela indicação do seu post no Antigomóveis, que já foi devidamente arquivado no dossiê do Chevettinho!

VAMODOIDO disse...

Esse post eu tinha lido e fiquei muito contentem em ver alguém com um chevette desde 0km. Deve ser sem igual você olhar para seu carro, seja qual ele for e ele conter boa parte da sua história ali. Tenho meu carro a quase 5 anos e ja sitno uma enorme cumplicidade. Espero não me desfazer dele, tenho desde 0km também.

VAMODOIDO disse...

Eu nasci nas época errada! Foi em 87, completei 18 anos em 2005. Ainda antes de fazer os fatídicos 18 anos fiz vários planos mirabolantes para convencer meu pai a comprar um Vectra B da ultima safra. Como trabalhavamos na GM, o preço saia em quase 40 mil, porém sem sucesso. Não era um antigo, como sempre quis ter um Chevette 0km, um Omega 0Km, mas o último grande carro da GM, Depois dele, apena o corsa C mexeu comigo, que acabei comprando em 2006 e estou com ele.