domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tatra, a inovação que vinha do Leste

Este post vem diretamente dos tempos em que a Internet estava apenas engatinhando.

Não, não pretendo aqui requentar algum conteúdo produzido no século passado. Mas como blogs e blogueiros nem existiam naqueles tempos, a história que vou contar ficou incubada na cabeça. É uma história que não perdeu a atualidade, porque o assunto é atemporal. Então, vamos a ela: 

Em 1996, durante uma viagem à República Checa, fiz uma peregrinação ao que talvez seja o mais peculiar museu de automóveis que já conheci - um pequeno museu inteiramente dedicado à marca Tatra. Hoje, a Tatra fabrica apenas caminhões (muito bons, por sinal), mas no passado produziu alguns dos carros mais originais e tecnicamente avançados do planeta. E isso em um lugar distante dos grandes polos de desenvolvimento da indústria automobilística mundial.

Aliás, "distante" é o adjetivo certo para se falar de Kopřivnice, cidadezinha próxima à fronteira com a Polônia, onde fica o museu. Para chegar lá, precisei tomar um ônibus de Praga a Brno, um trem de Brno a Olomouc, e finalmente um taxi de Olomouc a Kopřivnice.

A primeira dificuldade está em pronunciar esses nomes estrambóticos. Foneticamente, Brno soa mais ou menos como "Brr-no" e Olomouc como "Ólmoutz". Até aí, tudo bem. Duro, mesmo, foi acertar a pronúncia de Kopřivnice: aquela espécie de circunflexo invertido em cima do erre pede que se acrescente um improvável som de jota entre essa consoante e a vogal "i". Depois de muito contorcionismo bucomáxilolingual, consegui: "Kôperjivnitze"! Ótimo, já dava pra pedir a um taxista de Olomouc que me levasse para lá.

Já tentou pedir um sorvete em checo?
Como o  taxista em questão só falava checo, fui salvo por um desses livretos de frases para turistas. Graças a ele, deu para fazer um rápido pit stop e comer alguma coisa. E menos de uma hora depois, lá estava eu em Kopřivnice.

Surpreendentemente para uma cidade industrial, Kopřivnice preserva alguns cantinhos bucólicos que fazem lembrar uma estância hidromineral mineira. O pequeno e frondoso parque que emoldurava o museu na época da minha visita (antes da mudança para um novo prédio, em 1997) poderia perfeitamente estar em Caxambu.


Mas vamos ao que interessa: o que está do lado de dentro do museu.

Logo de entrada, dá para notar que o enxuto acervo é algo muito especial. São apenas 52 veículos, entre automóveis, caminhões e até uma locomotiva. Eles contam a trajetória da empresa desde os primórdios até os anos 90, quando a Tatra deixou de fabricar automóveis. E, indiretamente, também fazem uma crônica da atribulada história da ex-Checoslováquia ao longo do século 20, começando como uma junção de províncias do império Austro Hungaro, tornando-se uma incipiente democracia nos moldes ocidentais, e sendo transformada em um satélite do chamado Bloco Socialista antes de renascer como República Checa.

Nos automóveis Tatra das decadas de 1910 e 1920, percebe-se alguma influência de estilo dos Renault contemporâneos. A coisa começa a esquentar perto de 1930, com destaque para o T70, que com sua silhueta mais baixa que o habitual nada fica a dever em elegância e beleza aos grandes clássicos da época. Dá até para imaginar a figura do então presidente da Checoslováquia, Tomas Masaryk, acenando para checos e eslovacos (que tinham por ele verdadeira adoração) de dentro de um carro desses.


Mas o mais interessante, mesmo, são os modelos que vão desde a década de 30 até o final dos anos 50. Aqui, estamos decididamente na vanguarda do design e da engenharia automobilísticas.

Concebidos pelo engenheiro Hans Ledwinka, os Tatra desse período vão fundo no exercício da aerodinâmica e de arquiteturas mecânicas não-convencionais. O protótipo V570 de 1932, por exemplo, prefigura claramente as linhas do Volkswagen sedan, que só seria lançado seis anos depois. (A propósito, Ledwinka e a Tatra moveram uma ação judicial por plágio contra Ferdinand Porsche, responsável pelo projeto do "carro do povo" alemão. Passados muitos anos e com uma guerra no meio do caminho, tiveram ganho de causa.)


Outro destaque desse período é o Tatra T87. É um carro de embasbacar, com um motor de 8 cilíndros pendurado na traseira e um design aerodinâmico até então inédito em modelos de série. Impossível olhar para ele sem se lembrar do Corvette Sting Ray, que só seria lançado 25 anos depois.


Com o fim da Segunda Guerra e o início da chamada "guerra fria", a Europa ficou dividida entre países comunistas e capitalistas. A Checoslováquia acabou ficando na esfera de influência da União Soviética, mas continuou a produzir e exportar automóveis. Talvez o modelo mais representativo desse período seja o T600, também conhecido como Tatraplan, que chegou a ser exportado em volume razoável para o Brasil no início dos anos 50. Lembro bem desses carros - quase todos eram de cor preta e tinham um ar sinistro que fazia pensar em uma barata saída de algum pesadelo kafkiano.


Daí em diante, a história da Tatra espelha fielmente as mutações de seu entorno sociopolítico. O modelo T603, lançado em 1956 - um sedan um tanto quanto balofo, ornamentado por cromados de gosto duvidoso - era destinado exclusivamente a figurões de alto coturno do partido comunista checo e outros apaniguados do poder.


Já o  modelo T613, de 1973, igualmente reservado à nomenklatura, trocava as tradicionais linhas aerodinâmicas da casa por um design encomendado ao carrozziere italiano Vignale. É um carro até que bonito com seus traços retilíneos e grandes áreas envidraçadas, porém bastante convencional. E o mais recente dos automóveis  expostos em Kopřivnice, o Tatra Prezident da década de 90, só pode ser descrito como uma coisa tosca, mais parecendo um protótipo de fibra feito em fundo de quintal. De certa forma, ele é uma metáfora para um sistema político e econômico que já havia se exaurido há tempo.



Deixar de produzir automóveis antes que a memória da marca ficasse irremediavelmente comprometida foi a melhor decisão que a Tatra poderia ter tomado. Mesmo sem ter chegado a ser uma estrela de primeira grandeza no firmamento automobilístico, a idiossincrática marca Checa teve momentos de raro brilho. Se os acontecimentos políticos do século 20 tivessem se desenrolado de outra maneira, é bem provável que os automóveis Tatra ainda estariam entre nós, brilhando mais intensamente do que nunca.

Para saber mais sobre o museu da Tatra, acesse: http://www.tatramuseum.cz/

Imagens: Tatra T603: Asterion/Wikimedia Commons; Tatra T613: Ondrej Ertl/Wikimedia Commons; Logo Tatra: Tatra Museum. Demais imagens: arquivo pessoal do autor.

6 comentários:

Felipe Mortara disse...

quem me dera conhecer um meuzinho desses.
abraços itaquerenses!

Anônimo disse...

Adorei Paulo! Me lembro bem de quando você fez essa viagem. AbsCecilia

Paulo Keller disse...

Xará,

Que belo post. Gostei bastante da parte introdutória sobre a Tchecoslováquia. Quando eu estive lá, muito jovem, não tinha noção do que eu estava visitando.

Museu pequeno com apenas 52 carros. Acho que uns 50 carros é o tamanho ideal de um museu. mais do que isso nós não conseguimos "absorver" e acabamamos numa baciada.

Sem dúvida eu gostaria de visitar essa da Tatra.

Achei muito legal sua referência ao Stingray.

Quando meu pai viu minhas fotos ele logo disse que havia Tatraplans no Brasil.

Sedan balofo! Adorei. É difícil descrever o design do 603. É interessante mas muito estranho.

E esse president, que eu não conhecia, realmente condiz com sua descrição.

Adorei o post.

Abraço

PK

Juvenal Jorge disse...

Paulo,
que bela visita a um lugar tão diferente de nossa casa.
Muito bom texto, gostei da barata kafkiana !
Um abraço.

Paulo Levi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Levi disse...

Paulo e Juvenal,

Obrigado pela visita e pelos comentários. Fico feliz que vocês tenham gostado do post - e especialmente do sedan balofo e da barata kafkiana!

Lembro de ter andado certa vez no Tatraplan do pai de algum coleguinha quando eu era criança. O que ficou na memória foi o barulho desagradável do motor, o calorão que fazia lá dentro e uma enorme sensacão de claustrofobia. Quem me dera repetir a experiência para conferir se era mesmo assim...