sábado, 6 de fevereiro de 2010

Os tesouros escondidos de Kalamazoo


Quando se pensa no crème de la crème dos museus de automóveis, imediatamente vem à mente os nomes do Mercedes Benz Museum, em Stuttgart, e do Musée Nationale de L'Automobile, em Mulhouse. Ambos ficam em lugares emblemáticos: a alemã Stuttgart é a terra da Mercedes e também da Porsche, e a francesa Mulhouse fica a dois passos de Molsheim, berço da lendária Bugatti. Se esses museus não estivessem onde estão, possivelmente não teriam todo o carisma que têm.

Que imagens, então, poderia evocar o nome "Kalamazoo" para um entusiasta? Para começar, quase ninguém no Brasil sequer ouviu falar em Kalamazoo. Para os americanos, com a possível exceção dos próprios habitantes dessa cidade no estado de Michigan, o nome Kalamazoo evoca a imagem de um lugar provinciano, parado no tempo. E talvez haja uma certa verdade nisso, porque Kalamazoo está situada no rust belt, o "cinturão da ferrugem" dos EUA, região duramente atingida pelo declínio do setor manufatureiro no norte do país.

Quem visita a cidade percebe que ela já teve melhores dias. Mas não dá para comparar com o horror urbano em que se transformou Detroit; ao menos Kalamazoo soube manter uma certa dignidade, principalmente em bairros residenciais onde ainda é possível admirar magníficas mansões vitorianas do fim do século 19 e do começo do século 20. Quando estive lá, me hospedei em uma dessas mansões, hoje um dos mais bonitos bed and breakfasts que já conheci: o Stuart Avenue Inn, originalmente residência de um dos fundadores do laboratório Upjohn, hoje incorporado ao gigante farmacêutico Pfizer.


Volltando ao tópico deste post, Kalamazoo também tem suas credenciais quando o assunto é automóvel. Por muito tempo, lá foi fabricado um dos carros americanos mais conhecidos de todos os tempos, o Checker. Se esse nome não quer dizer nada para você, pense naqueles taxis amarelos que durante décadas fizeram parte da cenografia urbana de Nova York em todas as produções de Hollywood. Ele mesmo: um carro feioso e até tosco, porém robusto como um tanque Sherman, o qual manteve o visual inalterado por 26 longos anos (coisa inédita nos EUA, onde os modelos passavam por mudanças radicais a cada ano), de 1956 até o encerramento das atividades da empresa em 1982.



Mas na verdade eu não fui a Kalamazoo em busca das origens do Checker: fui lá para conhecer o Gilmore Car Museum (http://www.gilmorecarmuseum.org), um dos museus de automóveis mais interessantes e sui generis em todo o mundo.


O que esse museu tem de tão especial? Para começar, a ambientação em meio aos campos verdejantes dos arredores de Kalamazoo. Em vez de ficarem expostos em um prédio convencional, os 200 e tantos carros do acervo foram agrupados em 11 antigos barns - aqueles celeiros pintados de vermelho-tijolo, marca registrada da paisagem rural americana. O efeito é mágico: no bucolismo daquele cenário, o visitante se sente imediatamente transportado para os roaring twenties, era dos automóveis que predominam no acervo e dão o tom ao museu. E que automóveis! Auburns e Duesenbergs, Cords e Marmons, Pierce-Arrows e Mercers, La Salles e Packards, como saídos das páginas de um romance de F. Scott Fitzgerald, todos impecavelmente restaurados e apresentados.



Em minha visita ao Gilmore Car Museum, fiquei especialmente encantado com a beleza dos detalhes desses grandes clássicos americanos. Coisas de um tempo em que exímios artesãos ainda imprimiam sua marca a um produto industrial por definição. Assim, resolvi fotografar esses detalhes, porque para mim eles transmitem fielmente o espírito de uma visita a esse museu, que merece ser incluido no roteiro dos entusiastas mais exigentes.

Eu poderia ficar (como fiquei) admirando esses detalhes durante horas. Eles são o que os americanos chamam de "eye candy", uma verdadeira festa para os olhos. Enjoy!


 

  





Imagem panorâmica do museu: divulgação. Imagem do Checker: Wikimedia Commons. Outras imagens: arquivo pessoal do autor.

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