quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Jeepney, o jeitinho filipino sobre rodas


Há alguns anos, fui informado de que teria de ir às Filipinas a trabalho. Confesso que não fiquei muito animado com a perspectiva, mas business is business e não havia como escapar da incumbência.

Saindo de SP, fiz uma parada em Frankfurt e no dia seguinte peguei o avião da Lufthansa para Manila. Foi um vôo interminável, sobrevoando toda a Ásia de oeste a leste e incluindo uma escala em Guangzhou, na China.

Naturalmente, ao desembarcar eu estava um bagaço. Mas já no taxi, a caminho do hotel, deu para perceber que havia algo de familiar em Manila. Aquele calorzinho da noite tropical, aquelas palmeiras ao longo das avenidas, as placas de rua com nomes de sonoridade latina escritos em caracteres ocidentais... nada daquilo combinava com o fato irrefutável de que eu acabara de chegar do outro lado do planeta. Lembrei de um trecho de uma canção de Milton Nascimento: "...eu estava em San Vicente". Será que eu havia viajado mais de 30 horas e quase 20 mil quilometros para descobrir que eu estava em San Vicente?

No dia seguinte, minha impressão se confirmou. Manila tinha mesmo um jeitão de cidade latinoamericana. Os mesmos contrastes entre edifícios suntuosos e favelas miseráveis, o mesmo trânsito tumultuado, a poluição do ar e aqueles nomes em espanhol por toda parte. Os filipinos, então, tinham muita coisa em comum com os brasileiros: a mesma simpatia e hospitalidade, a mesma disposição em ajudar o visitante estrangeiro, a mesma recusa em desistir diante das dificuldades. Para o bem e para o mal, havia até uma versão local do jeitinho brasileiro!

Em termos automobilísticos, nada poderia traduzir melhor esse "jeitinho filipino" do que o jeepney, um veículo de transporte coletivo muito difundido em todo o país. Os primeiros jeepneys surgiram logo após a Segunda Guerra, quando as tropas americanas deixaram para trás um grande número de jipes que já haviam dado sua quota de sacrifício no sangrento "teatro de operações" do Pacífico. Os habilidosos filipinos pegaram esse refugo, deram uma boa garibada na parte mecânica, e construiram carrocerias que poderiam se prestar ao transporte de passageiros, ainda que de forma rudimentar, com janelas laterais muitas vezes sem vidros, e entrada e saída feitas por uma única abertura traseira sem porta. Pronto: estava criado o jeepney.


Com o tempo, os jeepneys foram se sofisticando. Muitos passaram a exibir reluzentes carrocerias revestidas de aço inox, ornamentadas com pinturas e acessórios de uma extravagância delirante. O tamanho também aumentou, à medida em que os jeepneys mais modernos passaram a ser construídos sobre a base de pequenos caminhões japoneses (de segunda mão, é claro). Mas a configuração básica se manteve inalterada.

Hoje, o jeepney é um dos principais ícones nacionais das Filipinas. Alguns são verdadeiros exemplares ambulantes da mais sublime arte kitsch. Mas se você quiser ver um ao vivo, é bom comprar logo uma passagem para Manila. A espécie está ameaçada de extinção: as leis anti-poluição estão se tornando cada vez mais restritivas, e os jeepneys, com seus motores diesel low tech, viraram um alvo preferencial de legisladores e ativistas ambientais. Hoje há mais ônibus convencionais em circulação, e muitos fabricantes de jeepneys já cerraram suas portas.

Como solução, fala-se em construir jeepneys equipados com motores elétricos. Duvido que isso aconteça, e se acontecer não será a mesma coisa. De minha parte, fico feliz por ter ido às Filipinas a tempo de ver o legítimo jeepney em seu habitat natural - além de ter conhecido um país e uma cultura bem mais interessantes do que eu imaginava.

Imagens: arquivo pessoal; lovebus/Wikimedia Commons; anônimo, Wikimedia Commons. 

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