sábado, 23 de janeiro de 2010

Ewy Rosqvist, ou o dia em que os machões ficaram para trás




Em todo o histórico da participação feminina em competições automobilísticas, poucas vezes se viu uma façanha comparável à da piloto sueca Ewy Rosqvist no Grande Prêmio da Argentina, em 1962.

Na época, essa era sem dúvida a prova mais importante do calendário esportivo do país vizinho. A denominação "grande premio" pode confundir: a prova era praticamente um rally de velocidade. Eram quase 4500 km em estradas abertas ao público, dos intermináveis retões dos pampas aos caminhos tortuosos das montanhas de Córdoba e Salta, com longos trechos de terra ou cascalho ao longo do percurso. Como se não bastasse, em algumas etapas a média horária passava dos 180 km/h. Coisa pra macho com xis e com cê-agá.

Ao desembarcar em Buenos Aires, Ewy era pouco mais que uma curiosidade. Afinal, o que se poderia esperar de uma mulher numa prova duríssima como aquela, ainda mais enfrentando pilotos do calibre dos experientes campeões argentinos Oscar Cabalén e Nasif Estéfano e dos próprios companheiros de Ewy na equipe Mercedes Benz, os alemães Eugen Böhringer e Hermann Kühne? (Isso para não falar do convidado especial da equipe, o argentino Carlos Menditeguy, ex-piloto de Fórmula 1 e protegido de Juan Manuel Fangio.) Previsivelmente - ainda mais na Argentina machista daqueles tempos - não faltaram piadinhas sobre aquela loira sueca.

Pois bem: com seu sedan Mercedes 220 SE, a loira Ewy calou a boca de todo mundo, vencendo o Grande Prêmio de forma esmagadora e chegando em primeiro lugar em todas as seis etapas. Dos 258 inscritos, muitos sofreram quebras mecânicas e ficaram pelo caminho. Houve vários acidentes, alguns deles fatais.

Da noite para o dia, Ewy Rosqvist tornou-se uma celebridade na Argentina, qual uma guerreira viking surgida não se sabe de que Valhalla automobilístico. Daí para a frente, ela e sua navegadora, Ursula Wirth passaram a ser chamadas - agora com um misto de fascínio e respeito - de "Las Suecas".

Ewy ainda voltaria a disputar Grande Prêmio da Argentina em 1963 e 1964, classificando-se novamente entre os primeiros. No final de 1964, casou-se com o Barão Alexander von Korff e retirou-se do automobilismo de competição.


Hoje, em forma invejável aos 80 anos de idade, Ewy é uma espécie de "embaixadora honorária" da Mercedes Benz em eventos relacionados à marca  - como se pode ver no vídeo abaixo (falado em sueco).

De 1962 para cá, o mundo mudou. Até o machismo argentino já não é mais o mesmo. Quem sabe se a histórica vitória de Ewy Rosqvist não teve algo a ver com isso?



3 comentários:

Anônimo disse...

Paulo,

Adorei o seu blog e a história dessa sueca é relamente demais!! Do video só entendi a palavra "fantastike", eh assim que escreve fantástico em sueco???
bj e parabéns

Maxwell disse...

Olá Paulo, muito bom o seu texto. História muito interessante. Vivo na Suécia a quase dois anos! Vou comentar essa com meus colegas aqui!

Paulo Levi disse...

Maxwell,
Obrigado pelo seu comentário! Esse episódio foi tão marcante na época em que aconteceu que achei que merecia ser lembrado - e fiz isso na primeira oportunidade, logo no começo do blog.

Espero que as novas gerações de suecos (e suecas) seguidores de ralis também coloquem o nome de Ewy Rosqvist ao lado do de grandes campeões da especialidade como Erik Carlsson, Ove Andersson e Bjorn Waldegaard. Skål!