terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Dois nomes, dois destinos


Um era italiano, o outro americano.

Os dois eram filhos de homens que se tornaram verdadeiros mitos da história do automóvel. Os dois foram preparados desde a infância para suceder aos seus  pais. Os dois morreram cedo - um aos 24 anos, o outro aos 49. E os dois receberam homenagens póstumas na forma de carros que receberam os seus nomes.


Até aí, só semelhanças. Mas os destinos reservados a esses nomes não poderiam ter sido mais diferentes.

O italiano, Alfredo (mais conhecido como Dino), era filho do lendário comendador Enzo Ferrari. Formado em engenharia, teve participação direta em projetos importantes da marca de Maranello, como o desenvolvimento do motor V6 que equiparia vários de seus monopostos de competição na década de 50. Em homenagem à sua memória, Enzo lançaria o Dino - inicialmente como uma marca à parte, de preço mais acessível e com motores V6 em vez dos tradicionais 12 cilindros Ferrari.

Com o  tempo, os modelos Dino passaram a fazer parte oficialmente da linha mainstream da Ferrari. Produzidos de 1967 a 1980, estão entre os mais belos exemplos do design automotivo italiano e mundial. Alguns, como os Dino 206 e 246 assinados por Pininfarina, são considerados verdadeiras obras de arte. E, como se não bastasse, colecionaram sucessos nas pistas.

Já o americano, Edsel, não teve a mesma sorte. Filho de Henry Ford - o não menos lendário pioneiro da indústria automobilística dos EUA - Edsel foi um executivo hábil e dedicado, além de um apaixonado por automóveis. Em vários momentos, teve um papel decisivo em persuadir seu pai, notóriamente avesso a inovações, a modernizar a linha de produtos da Ford. Por vários anos, exerceu a presidência da empresa, função que voltaria a ser assumida pelo velho Henry depois de sua morte.

Quando a Ford decidiu homenagear Edsel, Henry também já havia falecido. Seu sucessor, Henry Ford II - que vinha a ser filho de Edsel - não gostava da idéia de ver o nome do pai "girando nas calotas de milhares de carros", em suas próprias palavras. A pedido dos executivos de marketing da empresa, a agência de propaganda FCB apresentou uma lista que continha mais de seis mil opções de nomes para a nova marca, que fora concebida para preencher o "gap" entre Ford  e Mercury. Isso enfureceu o então diretor da empresa, Ernest Breech, que vociferou "eu pedi UM nome, e não seis mil". Depois de inúmeras idas e vindas, com a data do lançamento se aproximando, Henry II lavou as mãos da decisão e o novo carrro acabou indo para as revendas com o nome de Edsel.

Foi uma catástrofe. O carro era de uma feiura ímpar, e além disso quase todo o resto estava errado, desde aspectos técnicos como o seletor do câmbio automático com botões no centro do volante (os motoristas acabavam mudando de marcha quando queriam apenas buzinar) até falhas no controle de qualidade, passando por uma gama confusa de modelos e versões e uma política de preços idem. Para piorar, como o lançamento fora precedido de uma campanha teaser ("More You Ideas") que havia gerado enorme expectativa entre os consumidores, a decepção quando o carro chegou foi igualmente enorme. Resultado: o Edsel encalhou nas revendas, causando um prejuízo à Ford que, transposto para valores atuais, estaria perto de um bilhão e meio de dólares.

Depois de menos de três anos de produção, a marca foi descontinuada antes que colocasse em risco a própria sobrevivência da Ford.  E a palavra Edsel passou a fazer parte do vernáculo americano como sinônimo de fracasso.

Decididamente, o filho de Henry não merecia isso. Mas pelo menos há uma pequena consolação no epílogo dessa triste história: os poucos exemplares sobreviventes do carro que leva seu nome, hoje, alcançam cifras altíssimas como peças de coleção. Um Edsel conversivel em estado impecável, inclusive, pode valer tanto quanto uma Dino 246 nas mesmas condições. Coisas de um destino cheio de caprichos...

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