sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Alfabéticos, numéricos e alfanuméricos: uma taxonomia geral do naming

Da mesma forma que na natureza existem os reinos animal, vegetal e mineral, no universo dos nomes existem os alfabéticos, os numéricos e os alfanuméricos. Enquanto a comunicação entre seres humanos for mediada pela linguagem, tanto verbal como escrita, não poderá ser de outra forma.

Não é possível dizer que espécie de nome surgiu primeiro, nem qual é a melhor. Tudo é uma questão de contexto, condicionado por variáveis como época, local, competitividade no ambiente e fatores culturais, incluindo as oscilações do gosto.

Nos primórdios da indústria automobilística, havia um aparente equilíbrio entre nomes numéricos  e nomes alfabéticos. Mas não havia nada de intencional nisso. Os núméricos geralmente se referiam à potência do motor ou à série de produção, enquanto os alfabéticos faziam alusão ao estilo da carroceria, recorrendo para tanto à nomenclatura tradicionalmente usada para designar diferentes tipos de carroças e carruagens. Portanto, falar em naming ou em criação de nomes nesse estágio da indústria seria, no mínimo, uma tremenda "forçada de barra". 

Entre as décadas de 20 e 30, os Estados Unidos descobriram o potencial mercadológico dos nomes alfabéticos, àquela altura bem mais sugestivos do que descritivos. Eram os tempos do Jordan Playboy, do Reo Flying Cloud, do Studebaker Commander. Até hoje, os nomes numéricos são minoria entre os automóveis americanos.

Na Alemanha, berço da indústria automobilística, sempre predominaram os nomes numéricos. Isso pode até ser explicado pelos pendores germânicos por ordem e precisão, mas os nomes numéricos também mostravam sua força em outras partes da Europa.

Na França, por exemplo, a Peugeot sempre  usou números para identificar seus modelos. Na Italia, a Fiat demorou muito até usar um nome alfabético. E na Inglaterra, os numéricos também reinavam absolutos.

Com o tempo, os nomes alfabéticos foram ganhando mais espaço em todo o mundo. Mas com sua proliferação veio um problema: tal como um recurso natural não-renovável, o repertório começou a se esgotar. (Foi aí que entraram em cena as consultorias de branding e de naming, com suas "metodologias proprietárias" que prometiam a resolver o impasse).

Em tese, o vocabulário humano é finito e os números não, o que à primeira vista pode parecer um ponto a favor destes últimos. Mas na prática, há muitas limitações aos nomes numéricos. Até três dígitos, não há problema; com quatro dígitos, as coisas já ficam mais difíceis;  acima disso, o número perde a memorabilidade e o potencial icônico, o que reduz drasticamente sua utilidade para servir de nome a um modelo de automóvel. Portanto, o repertório númérico se esgota no 9999.

Além disso, um nome numérico não pode ser escolhido de maneira tão subjetiva quanto um nome alfabético. A margem de manobra é menor. É necessário que haja uma arquitetura previamente estabelecida para o portfolio da marca para que o nome numérico possa exercer de forma eficiente o seu papel dentre os demais números que designam os modelos da marca.

Na maioria dos casos, os nomes alfabéticos já nascem com algum significado, ou pelo menos com algum conteúdo semântico que remeta a determinadas imagens, sensações ou associações de idéias. Já os nomes numéricos não significam nada ao nascer. Mas ao longo do tempo, podem ir incorporando, de maneira quase orgânica, um conjunto próprio de significados, numa relação de simbiose com os modelos que designam. Basta pensar nos números 911 e 205, da Porsche e da Peugeot respectivamente. Sua mística é tão forte quanto a dos próprios carros.

Muitas vezes, um fabricante se esforça para ter nomes (alfabéticos ou numéricos, tanto faz) que evidenciem alguma unidade conceitual entre os diferentes modelos de seu lineup. É o caso da Volkswagen com o Golf e o Polo, da GM com modelos cujo nome termina sempre na letra A, da Ford com seus Fiesta, Focus e Fusion, da Peugeot e seus números de três digitos com um zero sempre no meio. Às vezes isso funciona, às vezes se transforma em uma camisa de força. Na vida, como no naming de automóveis, não dá para ser coerente o tempo inteiro...

E os nomes alfanuméricos? Conceitualmente, estão mais próximos dos numéricos que dos alfabéticos. Nesses nomes, as letras funcionam como uma espécie de anabolizante para o componente numérico. Em muitos casos, também servem para "resetar" um número anteriormente usado (seja pelo próprio fabricante, seja por outra empresa do setor) e permitir que seja aproveitado novamente.

Em um dos próximos posts, falaremos sobre algumas tendências no uso de nomes alfabéticos, numéricos e alfanuméricos em diferentes países. Até lá!

Um comentário:

Anônimo disse...

bom comeco